segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Minha bengala me derrubou...

José Lourenço de Sousa Neto
BH., 27/set/2018.



É verdade, mas peço que me permitam uma pequena digressão, antes de contar o ocorrido.
Como se as mazelas da velhice não bastassem, ainda existem as extensões para complicar ainda mais nossa vida – óculos, aparelhos auditivos, bengalas e outros adereços...
Quando mudei dos óculos comuns para as lentes multifocais, anos atrás, foi um deus-nos-acuda! A gente perde a noção de profundidade visual, e aí é aquele drama! O degrau é mais alto do que você , e aí toma tropeção. Ou é menor, e você dá aquele passo ridículo, como se estivesse escalando uma montanha.
¾  Ê, pai! Precisava dar esse passão para saltar essa pocinha ridícula?!
¾  Pocinha ridícula?! Aquilo parecia uma lagoa!
¾  Mesmo que fosse uma lagoa, seu passo dava para atravessar o Atlântico!
Atravessar o Atlântico! Sacanagem...
Até adaptar o cérebro às novas lentes, me vi dando os passos mais desengonçados, com medo de pisar onde não devia. Minha mulher disse que eu estava andando como o Mazzaropi (https://www.youtube.com/watch?v=Nxm3SGtcwQQ). Até gostei dessa comparação, porque na minha percepção eu andava como aqueles cachorros que calçam sapatinhos pela primeira vez (https://www.youtube.com/watch?v=GEVaXUAlF1Q).
Aparelho auditivo, outra novela! Estou às voltas com um há 6 meses, e acho que não vou me adaptar. É uma droga!
Quando coloquei pela primeira vez, tive a impressão que ouvia conversas que ocorriam no outro quarteirão, ou que estava ouvindo até o pensamento dos outros. Tive a nítida sensação que meu silencioso sossego acabava ali. Comentei com a fonoaudióloga que me vendera o aparelho, ela riu e disse que era só uma questão de ajuste no volume. Calibrado devidamente, até que o desconforto diminuiu bem, mas tem umas coisas curiosas... e chatas. A gente escuta uma folha de papel sendo esfregada noutra, mas não escuta tão bem uma pessoa falando, ou não compreende adequadamente (me disseram que na fase de adaptação é isso mesmo. Tomara!...). Alguns sons ficam quase insuportáveis – especialmente os eletrônicos (alarmes, sons de celulares, buzinas...) e o bendito cachorro do vizinho, que tem um latido esganiçado danado de incômodo. Antônio, meu neto de 6 anos, disse que não sabe se é um cachorro miando ou um gato latindo; confesso que agora eu também estou confuso.
Mas tem um benefício extra: quando se tira o aparelho, no final do dia, ah!, é uma delícia! Aquela redução no som ambiente é muito gostosa! Isso ajuda a disciplinar o uso: a gente acaba usando o aparelho para sentir a delícia de tirá-lo depois de algumas horas. Até me lembrou o fradinho sadomasoquista do Henfil (quem lembra?!), que apertava o dedo na porta só para sentir o alívio ao abri-la depois de um tempo (https://goo.gl/KaafjJ).
A maior surpresa com essa extensão do ouvido aconteceu num ônibus. De repente, uma voz ao meu lado disse, depois de dois bip’s: “Pilha fraca”.
Tomei um susto e perguntei para a passageira ao meu lado:
¾  O que mesmo a senhora disse?
Ela me olhou como quem olhasse um caduco, e respondeu:
¾  O senhor fez alguma confusão. Eu não disse nada.
¾  Disse sim – alguma coisa como “pilha fraca”...
¾  O senhor me desculpe, mas não falei nada e nem ouvi isso.
E ficou me olhando como se, realmente, eu é que estava com pilha fraca...
Algum tempo depois, a coisa repetia: “Pilha fraca”.
Como dessa vez eu estava sozinho, comecei a me apavorar com a ideia de estar ouvindo vozes. Era só o que me faltava! Esquizofrenia ou mediunidade tardia?
Mas lembrei de que a fonoaudióloga havia me falado desse recurso do aparelho: a vozinha me avisava que estava na hora de trocar a pilha. Hoje, até que convivo bem com minha Iris Lettieri particular.
Agora, a terceira extensão – a bengala! Ah, essa ninguém merece!
Com os óculos, nenhum problema. Mais da metade da população usa e a adaptação foi tranquila; não chama a atenção. O aparelho auditivo deve ir pelo mesmo caminho, além de ser discreto e as pessoas só o percebem se você quiser deixar.
Mas, a bengala não! Todo mundo vê e a danada é o símbolo ostensivo, evidente, gritante, ululante, da decrepitude. Prova de que você está mesmo mal das pernas, não é só força de expressão.
De início tentei andar carregando a peça como um troglodita carregaria um tacape. Fazia cara de poucos amigos, como se dissesse para quem me olhava que aquilo era uma arma, e não um recurso para meus joelhos vacilantes. Evidentemente que não colou. As pessoas me olhavam com um misto de curiosidade e ironia: “Mas que velho mais besta!”
Acabei me submetendo e hoje até aceito como um recurso válido e pode até ter seu charme – desde, claro, que eu aprenda a usá-la como Bat Masterson (https://www.youtube.com/watch?v=BXkfEwXH1Cg).
Mas, então, vem a história do tombo.
Por duas vezes a peça atravessou na frente dos meus pés, tropecei na danada e quase caí. Numa delas minha mulher viu e palpitou (mulher da gente sempre palpita!):
¾  Você tem que usar a bengala de lado e não na frente da perna. Assim, você vai tropeçar sempre.
¾  Mas eu ponho a bengala de lado! A excomungada é que atravessa meu caminho...
¾  Como é que pode isso?! Até parece que ela tem vontade própria.
¾  E tem. Essa danada deve ter sido feita de madeira tirada de alguma árvore de enforcados e deve estar possuída.
¾  Você é mesmo um cara estranho!
Nessas horas lembro-me do Calvin e sua bicicleta – que pula em cima dele quando ninguém está olhando. Minha bengala me passa rasteiras sempre que acha oportunidade.

Dia desses fui ao Hospital Ortopédico, aqui em Belo Horizonte, fazer fisioterapia (velho adora fisioterapia). Transitando pelo corredor, a peste me dá uma rasteira e, dessa vez, não escapei – me esborrachei no chão. Um funcionário da casa, que viu a cena, correu para me ajudar e perguntou o que houvera. Respondi que minha bengala me derrubara. Ele não conseguiu evitar uma risadinha irônica e perguntou:
¾   Uai! Mas a função dela não é exatamente evitar isso?
Respondi que deveria ser, e pensei em falar sobre objetos com vontade própria, árvores amaldiçoadas, coisas endemoninhadas, mas desisti. Vai que ele chamava a enfermagem e me mandavam para o hospital psiquiátrico!
Depois desse tombo, quando me vi sozinho com a bengala, olhei firme para dois pontos que ela tem no cabo que, juro, devem ser seus olhos malignos, e a jurei de morte: iria jogá-la no primeiro fogo que encontrasse.
Não sei se é só minha impressão, mas ela passou a se comportar. Não cruza mais meus passos, e até tem me dado um apoio legal.
Acho que podemos, enfim, nos entender.
*
A propósito de tombos, estou me tornando um exímio “tomador de tombos”. Mas isso é outra história...

-o-

Contando, ninguém acredita...

José Lourenço de Sousa Neto
BH., 02/jun/2018


Hoje me aconteceu uma daquelas situações esdrúxulas, que, quando você conta, todo mundo duvida. Meus amigos dizem que essas coisas só acontecem comigo, mas acho que não. Talvez eu apenas preste um pouco mais atenção.
Entrei numa drogaria atrás de sabonete. Gosto muito de uma determinada marca que aqui, na terrinha, tem sido difícil de encontrar. Mas, para minha alegria, logo vi que havia alguns na gôndola. Apressado, peguei todos. Minha alegria durou pouco – eram apenas 3 unidades. Procurei a etiqueta com o preço, mas só tinha uma fixada na prateleira: “Pague 3, leve 4 = R$ 15,00”. Chamei a vendedora e falei com ela que gostaria de levar 4, para aproveitar a oferta, ou até mais, se tivesse, já que era um produto difícil de encontrar. Ela revirou o local, mas nada da quarta peça. Conformado, eu disse que tudo bem, eu levaria aqueles mesmo e pedi que fizesse a conta. Começa a situação surreal...
Ela disse que cada um custaria R$ 15,00. Eu respondi: “Você ficou louca?! Se eu pagar R$ 15,00 por um sabonete nunca vou ter coragem de usá-lo. Vou pendurar na parede do meu banheiro e ficar olhando pra ele, como se estivesse no Louvre, em frente à Monalisa. R$ 15,00 é o preço de quatro unidades; é só fazer as contas e me dar o valor ajustado para os três.
Ela responde que não saberia como fazer.
Pacientemente, expliquei: “Simples, minha filha (quando alguém chama um estranho de minha filha ou meu filho, nunca é pacientemente, mas, vá lá...) Se R$ 15,00 é o preço de quatro, tudo o que você tem que fazer é dividir R$ 15,00 por quatro, e terá o preço unitário. Aí multiplica por três.” (Quase propus chamar o Antônio, meu neto, pra ajudar...).
Ela respondeu: “Não é isso. É que eu não sei se posso fazer isso...”
“Como não?, perguntei. O produto não está aí e não é pra ser vendido? E você não é uma vendedora?”
“Eu acho que não tenho autoridade pra fazer isso.”
“Santo Pai!” – pensei comigo, mas não falei...
Respondi: “Uai! Então chama alguém que tenha essa fantástica autoridade...”
E lá veio a supervisora.
Pensa daqui, pensa dali, consulta o sistema, quase põe a gôndola abaixo atrás do quarto sabonete fujão... E sentencia: “Sinto muito, senhor, mas o senhor não poderá levar os sabonetes.”
Devo ter ficado alguns segundos processando isso...
“Por que não, minha filha (pacientemente, de novo)? O produto está aí, é para venda, você sabe a continha que tem que fazer – se não souber, seu computador saberá, pergunte pra ele... Então por que não posso comprar os sabonetes?”
Nessa altura já estava achando que isso devia ser uma forma dos amigos espirituais não me deixarem usar aquele sabonete. Provavelmente a quantidade de soda cáustica nele foi superdosada e iria me causar uma forte irritação na pele... Mas resolvi insistir mais um pouco.
“Eu quero levar o produto. O que você, como supervisora, vai fazer?”
“O senhor só pode comprar se for os quatro.”
“Ora bolas, então me dê os quatro. Pode me dar oito, doze, dezesseis... compro todos ele!” 
Nessa altura o “minha filha” já tinha outro sentido... Eu já estava me sentindo como Joseph K, de Kafka – coberto de razão, mas não ia conseguir comprar a droga do sabonete!
“Não dá. Só temos os três. Não posso vendê-los.” – isso soou como sentença irrecorrível.
Ainda me atrevi: “E o que você vai fazer com esses três? Se você voltar a colocá-los na gôndola, vou pegar novamente e, dessa vez, você terá que me vendê-los, ou vou armar o maior barraco.”
“Não, eles não voltarão para a gôndola. Serão recolhidos para o depósito.”
Nessa hora, confesso, senti pena dos sabonetinhos. Aquele “recolhidos para o depósito” soou mais ou menos assim: “os elementos, perturbadores da ordem e da tranquilidade social, serão recolhidos para o xilindró, onde serão interrogados por autoridade competente para informarem onde foi parar o meliante fugitivo, que devia estar na prateleira”. Imaginei os coitadinhos sendo torturados, se desfazendo em espuma, mas a autoridade competente não se curvaria diante dessa demonstração de fraqueza. Provavelmente os três coitados seriam colocados, não num pau-de-arara, porque não tinham como ser amarrados num, mas atirados numa vasilha com água, onde se desfariam até à morte, se não entregassem o bandidinho fujão.
Acham que a história termina aí? Nada. Desgraça pouca é bobagem...
Sabonetes devidamente enquadrados, eu preparando para sair sem o desejado produto, eis que a supervisora (agora, se bem me lembro, ela tinha uma pinta danada de Sargento Tainha, o “amigo” do Recruta Zero – se não conhecem, deem uma olhada no Google) levanta os olhos e localiza a “moça do espanador”. E chama: “Madalena (se não é esse o nome, fica sendo – toda vítima inocente tem o nome de Madalena), você não tem a obrigação de checar os produtos nas prateleiras, enquanto espana?”
“Sim, eu faço isso. Qual o problema?”, indagou a inocente, ou incompetente, sei lá!, Madalena.
“Você não percebeu que só tinha três unidades desse sabonete, que está faltando a quarta?”
“?!”
“Pois é. Acabamos tendo um problema com um cliente. Vc precisa ficar um pouco mais atenta.”
Nessa hora, desisti. Achei que a Madalena, se fosse um pouco mais provocada, ia dar com aquele espanador na cabeça da Sargenta Tainha. E fui embora.
Ao sair pela porta da loja, pelo canto dos olhos, tenho a impressão que vi a moça do espanador dando uma olhada feia para sua ferramenta de trabalho. Afinal, era ele que tinha contato direto com as mercadorias. E por que não avisou sobre o sabonete fujão? Fiquei com a clara impressão que o coitado do espanador também foi recolhido ao xadrez, isto é, ao fundo de depósito, e confinado com os pobres sabonetinhos.
Acho que amanhã vou voltar lá. Se aqueles sabonetes tiverem voltado pra gôndola...

Quanto mais velho, mais me convenço que vivemos num mundo kafkiano. Cada vez entendo menos.
-o-

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

OS DOZE MANDAMENTOS CONTRA O STRESS


I - Os desejos são ilimitados, o seu tempo não. – Defina metas, prioridades da sua vida. Faça periodicamente uma revisão de seus objetivos.

II - Você é responsável e senhor da própria qualidade de vida. – Defenda seus direitos. Aprenda a ser eficaz e a ter ritmo: trabalho/lazer, alimentação/jejum, ação/repouso, inspiração/expiração. A qualidade de vida é uma planta que necessita ser regada sempre.

III - Você é um só. – Você só tem um coração. Portanto, faça uma coisa de cada vez. Tenha atividades e relações relaxantes, que não tragam a necessidade contínua de competir ou correr atrás o tempo todo.

IV - Cuide do seu corpo. – Escolha alimentos saudáveis, evitando agressões do tipo fumo, droga, excesso de bebida e comida. Reduza a ingestão de café. Faça atividades físicas, no mínimo três vezes por semana, compatíveis com seu temperamento e condições físicas. Mantenha seu peso corporal em um nível satisfatório para você. Ponha os pés descalços na terra por um mínimo de 20 minutos, em um lugar de muito verde, pelo menos uma vez por semana.

V - Cuide de sua mente. – Seja seletivo com o que lê e vê. Reduza o hábito de assistir televisão. Exercite sua criatividade com música e artes em geral. Faça coisas que nunca fez, indo a lugares que nunca foi. Quebre rotinas e experimente o novo.

VI - Que a sua casa seja um lar. – Um lugar acolhedor que o receba ao final de um dia cansativo, oferecendo-lhe conforto, calor à sua alma, repouso e amorosidade. Que seja um ninho para refazer as suas forças. Cuidado: não gaste todas as suas energias para ter uma casa e todos os bens de consumo do mundo moderno. Pode não lhe sobrar nem um minuto para usufruí-la. Tornar uma casa um lar é um aprendizado contra o stress.

VII - Descubra quem é você. – Qual é seu temperamento, quais são suas crenças? Seja coerente com elas. Defenda seu bem-estar. Cultive um respeito saudável por sua individualidade e privacidade.

VIII - Não seja onipotente. – Aprenda com os outros, procure ajuda necessária com amigos, médicos, terapeutas. Ouça e veja, para depois identificar quem são os aliados necessários e aqueles que deve evitar. Não avalie pessoas e situações com preconceito. Às vezes, a resposta de uma situação difícil e estressante está numa atitude ou pensamento inédito.

IX - Conheça e respeite o outro. – Ouça com atenção, buscando compreender o que o outro quer dizer. Ao verbalizar, certifique-se de estar sendo claro e compreensivo com o outro. O outro não é melhor nem pior que você. Ele é diferente, o que torna necessário o esforço de entendimento de ambos os pontos de vista. Aceitar e usufruir as diferenças é sabedoria.

X - Amor, intimidade e sexualidade. – Relações compulsivas, superficiais, narcisistas são como fast-food: costumam ser atraentes, mas não são nutritivas e podem custar muito caro a médio prazo. Cuide para desenvolver intimidade com pessoas com as quais sinta afinidade. Cultive a espontaneidade, sinceridade, amizade, alegria e prazer nas trocas afetivas. Deixe o sentimento fluir – o amor faz bem ao coração.

XI - Concentre-se e equilibre-se. – Todos os dias encontre em tempo para esvaziar-se e estar consigo mesmo (pelo menos um banho prolongado e tranquilo). Use técnicas auxiliares como meditação, respiração e massagens para relaxamento. Não seja escravo nem de si mesmo. Tenha férias! Contra o stress, o período mínimo de férias é de 21 dias consecutivos. Tenha férias compatíveis com suas condições físicas, psíquicas e financeiras. Lembre-se: programas com muitos estímulos são prazerosos para quem está vitalizado. Não leve em sua bagagem de férias seu chefe, sua firma, companhias desgastantes, seu computador e outras malas sem alça.

XII - Tenha fé. – Uma situação, qualquer que seja, nunca é apenas boa ou ruim. Haverá sempre custos e benefícios. Quanto mais luz, mais sombra. Nunca se esqueça de que tudo é temporário. é muito importante preservar-se para a próxima etapa. Você é único, o que te faz valioso. Confie em você mesmo e na ajuda cósmica.

[Autor não identificado]

domingo, 15 de outubro de 2017

Acervo pessoal - não sou livreiro.
Aceito contraoferta.
Interessados - e-mail para lourenco@jlourenconeto.com.br.
Entrega na região da Savassi, BH.


quinta-feira, 25 de maio de 2017


A vida ensina...

José Lourenço de Sousa Neto

Dias atrás assisti uma palestra sobre física quântica. Saí com a cabeça a mil, os neurônios em polvorosa (talvez fosse o que o professor quis dizer com o tal “emaranhado quântico”). Aliás, acho que essa é sempre a consequência quando a gente se mete a ler ou ouvir preleções sobre essas esquisitices, em que cérebros de ponta se deleitam, mas, talvez, nem deveria interessar a nós, mortais comuns.

Um dos conceitos que o expositor tentou explicar foi o de “salto quântico”. (Vale fazer parênteses: digo que o mestre, uma pessoa muito querida, tentou explicar, porque ele de fato tentou – fez tudo o que podia, tanto como entendido no assunto, quanto como professor experimentado – ele é físico e professor na PUC/MG. Se não logrou pleno resultado, não foi por culpa dele. Como todo processo de comunicação tem duas pontas – a do emissor e a do receptor –, ele só podia responder totalmente pela sua ponta, a de emissor. Esforçou-se, heroicamente, para adaptar linguagem e exemplos ao nível da nossa ponta, mas, coitado!, como Sísifo, não era possível colocar a rocha no alto da montanha, pelo menos na maioria da assistência. O morro da nossa ignorância era por demais íngreme.)

Voltando ao salto quântico...

Esse fenômeno ocorre (pelo que entendi) quando o elétron, que gira em camadas, ou em órbitas, ao redor do núcleo, passa de um nível para outro. Esse “passar” é que é o diabo! Ele não transita de uma órbita para a outra, como imagina nossa vã concepção... Ele simplesmente desaparece de uma órbita e aparece noutra. Como um fantasma. Está aqui e, de repente, você pisca e ele não está mais. Está lá. Coisa de doido. Ou de elétron, já nem sei mais...

Terminada a palestra, saí, como já disse acima, com a cabeça fervilhando. Acho que meus poucos neurônios incorporaram espírito de elétron e tentavam, como um bando enlouquecido, dar saltos quânticos no meu cérebro. Já sabia que eu ia levar dias ruminando aquelas informações, como sempre ocorre quando me meto em assuntos mais escabrosos. De fato, o sono daquela noite foi loucura total – entre prótons, nêutrons, elétrons, quarks, quantum e quanta, efeito partícula e efeito onda, sobreposição e emaranhado quântico, gato de Schröedinger (por que gato?! por que não um gambá? ou uma barata?), meu crânio parecia um acelerador de partículas. Credo! Te esconjuro, prof. Marcelo Cunha!

Mas a vida ensina...

Quando saia do salão da palestra, lembrei-me de uma sobrinha que tinha um comportamento que, na época, há uns 25 anos, não entendíamos. Agora entendo como “comportamento quântico”. Explico.

A Letícia nunca ia ou vinha – ela sempre estava ou não-estava. A família conversando na sala – Letícia ausente. De repente, você olha de novo, Letícia presente. A gente piscava para discernir melhor e... cadê a Letícia? Mas ela estava aqui... e não era efeito mediúnico, mas se era, era efeito físico – todo mundo tinha visto a Letícia. Perguntados, ninguém a vira sair. Como não a viram entrar.

Simples assim. Ela aparecia e desaparecia. Tenho para mim que ela passava do nível superior da casa para o térreo, do quarto para a cozinha, da sala pra rua, e vice-versa quantas vezes quisesse, sem se dar ao trabalho de transitar pelo meio. Coisa, aliás, que devia interessar apenas a nós, pessoas de carne e osso. Não a ela, entidade mística, quintessenciada, sei lá... Efeito Jedi? Mestre Yoda ou Schifu? Vou perguntar pro meu neto de 4 anos. Esses serezinhos entendem disso... só não conseguem nos explicar. Falta a nós, adultos, o sentido para tanto.

Teve uma época que cheguei a desconfiar que a Letícia tinha pés de gato. De cachorros você ainda pode escutar o barulhinho das unhas no soalho. Mas de gato, não! E a Letícia se movia com pés de gato (ou levitava, flutuava, flanava, vai saber!). Mas examinei e não comprovei essa hipótese.

E, pra piorar, ela nunca se explicava. Perguntada, interrogada, atazanada, azucrinada, ela se limitava a olhar pra gente com aqueles olhões de jabuticaba – enormes e negros, típicos de uma moleca de 6 ou 7 anos –, e a sorrir – ah! aquele sorriso! a la Mona Lisa! Um sorriso que mais intrigava e nunca explicava. Aquela curvatura discretíssima dos lábios que parecia condescender com nossa estultice: — “Por que você pergunta tanto? Não dá para apenas sentir que eu estou ou não-estou? Não saca que não existe o eu-indo ou o eu-vindo? Por que tudo tem que ser tão cartesiano pra você, tio? Não esquenta...”

E eu fervia!

Enfim, desisti da ideia de compreender o comportamento da Letícia. Limitava-me a perguntar, quando era o caso, se ela estava ou não, sem cair mais na armadilha de querer saber se ela iria ou viria.

Hoje, tenho dúvida se, na minha memória cada vez mais falha, passo a chamá-la de “Letícia Elétron” ou “Letícia Quântica”. A segunda opção parece-me mais simpática.

Mas, se você não aprende de um jeito, a vida insiste...

Saindo da palestra, agora misturando partículas da matéria com sobrinha-quântica, dei bobeira na escada e sofri um colapso, não do efeito onda, mas das pernas. De repente, nos últimos degraus (ainda bem, porque se fosse no início não estaria aqui, escrevendo isso), desapareço de onde estava e apareço no piso. Plantado, de joelhos. Não houve intervalo de transição, juro. Não passei do degrau onde estava, transitando pelos intermediários e arriando no chão. Simplesmente eu estava num nível e apareci noutro. Salto quântico puro. A moça que me socorreu, pressurosa, perguntava se eu havia me machucado (desconfio que ela segurava um risinho nada Mona Lisa). Respondi que não, que não era nada, que era apenas um experimento físico, apenas para checar uma ideia que um professor maluco, lá no salão, havia tentado fazer a gente entender. Com aquele salto, os joelhos doendo e um pouco de sangue minando na pele, vieram esclarecer o que o mestre tentou, mas minha cabeça dura não registrara.

saquei a Letícia! Não era para entender, era para sentir! E meus joelhos latejando e minha vergonha não deixaram dúvida: senti o maldito salto quântico!

Ainda bem que não cai estatelado no chão. Cai de joelhos. E isso me permitiu manter a pose e alguma dignidade.

Espero que da próxima vez em que me meter a entender essas coisas-de-louco, não doa tanto.


BHte., 25/maio/2017.