quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Simplicidade

José Lourenço de Sousa Neto*

A simplicidade não dá Ibope, definitivamente!
Preferimos complicar nossas vidas e a dos outros, fugindo das medidas e atitudes simples, procurando dar charme e uma falsa aura de nobreza ao que fazemos. E nisso sacrificamos o entendimento e a utilidade. E não percebemos nossa culpa - infelizmente somos tão incompreendidos... não alcançam nosso valor e a profundidade de nossas contribuições... Fazer o quê, então?!
No ambiente de trabalho, é incontável o número das situações que poderiam receber soluções rápidas e de fácil implementação, se optássemos pelo simples. Preferimos soluções mirabolantes e pretensamente grandiosas a práticas mais pé-no-chão. Isso nos dá assunto para os encontros e seminários, quando podemos expor nossas políticas e planos baseados na última moda.
E por falar em moda, a ojeriza de muitos gestores ao simples e óbvio enriquece os gurus dos negócios. Não dialogam com os funcionários, com o pessoal que realmente pode contribuir – até porque esse pessoal é que vai ter de implementar as ações –, porque isso não dá status. Ao contrário, gastam fortunas com consultorias de grife ou engolem teorias e propostas alienígenas, que nem sequer digerem adequadamente para uma correta adaptação à cultura local. Mas, nas conversações com colegas de outras empresas, despejam o que leram e pretensamente praticam – e quantas vezes falam um monte de besteiras sem se darem conta disso.
Em família, ou na vida privada, continuamos agindo da mesma forma. Buscamos teorias mirabolantes que expliquem nossos fracassos, mas não enxergamos o óbvio – a falta de diálogo e a fuga do simples. Exemplos não faltam e seria ocioso, aqui, mencioná-los.
Certa vez vivi uma experiência interessante, que ilustra isso. Queríamos desenvolver um manual que, ao mesmo tempo em que orientasse quanto à correta maneira de fazer determinada tarefa, contivesse algum estímulo à leitura – ou iríamos cair na mesma situação de manuais anteriores, nunca lidos. Consultamos especialistas no assunto, levantamos orçamentos, namoramos produções bem elaboradas e, claro, dispendiosas mas com assinatura.
Preocupado com o gasto que iríamos ter, resolvi conversar com alguns funcionários, que usavam um roteiro que havíamos elaborado internamente, para saber deles qual seria uma boa maneira de apresentar aquele documento, de forma que todos lessem e tirassem proveito. Para minha surpresa, um desses funcionários tinha por hobby a elaboração de HQ, ou seja, era um desenhista de histórias em quadrinhos, e sua sugestão foi óbvia – elaborar o manual na forma de quadrinhos. Ele cuidou do desenho, nós, os gestores, asseguramos que o texto atendia às necessidades.
Não precisa dizer que a solução, além de resolver o problema e evitar um gasto significativo, nos permitiu descobrir e explorar a habilidade de um funcionário, que sentiu-se valorizado com isso (e deixemos claro que ele foi devidamente recompensado, antes que os críticos de plantão atirem as pedras!). Aliás, essa valorização de habilidades escondidas é assunto fértil na Gestão do Conhecimento.
Soluções simples, decorridas de uma atitude simples – conversar, dialogar, perguntar a quem vai usar... Não dói e como ajuda!
As reflexões acima foram motivadas pelo texto abaixo, que recebi via e-mail. Trata-se de uma pilhéria que tem fundo de verdade.
"Sem as justificativas de afastamento fornecidas pela guerra fria, norte-americanos e russos ingressam numa promissora fase de colaboração, especialmente na exploração do espaço sideral. Num desses momentos, ao fazerem suas anotações, a bordo de uma nave em órbita, o cosmonauta russo elogiou seu colega americano:
– Ótima, essa sua caneta.
– Não é? Ela representa nossa genialidade, engenhosidade e criatividade.
– Sério?
– Sim. Quando iniciamos os testes no simulador de gravidade zero, percebemos que as canetas esferográficas não escreviam - a tinta não fluía. Uma empresa de consultoria foi contratada para solucionar o problema. Levou uma década e investiram mais de 10 milhões de dólares, mas valeu a pena, a solução veio. Essa maravilha escreve em qualquer condição: em ambiente de gravidade zero, de cabeça para baixo, não importa a superfície, e tem a mesma performance em qualquer temperatura, seja muito abaixo de zero ou a 300ºC.
– Puxa! – admirou-se o russo. Tivemos o mesmo problema, nas mesmas circunstâncias de uso do nosso simulador – a tinta das esferográficas simplesmente não saía.
– E como vocês resolveram o problema?
– Optamos por usar lápis."
Se procurarmos mais o lápis e deixarmos de lado um pouco nossa arrogância novidadeira e nossa fome por soluções sofisticadas, tornaremos nossas vidas e as dos que nos cercam mais fácil, com certeza.

* José Lourenço de Sousa Neto é Administrador, pós-graduado em Gestão Estratégica e Mestrado em RH; bacharelando em Filosofia; estudante de Psicologia Humanista e Transpessoal, no IHP/BH, e Análise Transacional. Coach certificado pelo SBC. PNL Practitioner. Empresário, consultor, facilitador de treinamentos e professor.

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