quarta-feira, 31 de outubro de 2012


Boca de luar
Carlos Drummond de Andrade
– Você tem boca de luar, disse o rapaz para a namorada, e a namorada riu, perguntou ao rapaz que espécie de boca é essa, o rapaz respondeu que é uma boca toda enluarada, de dentes muito alvos e leitosos, entende? Ela não entendeu bem e tornou a perguntar, desta vez que lua correspondia à sua boca, se era crescente, minguante, cheia ou nova. Ao que o rapaz disse que minguante não podia ser, nem crescente, nem nova, só podia ser lua cheia, uai. Aí a moça disse que mineiro tem cada uma, onde é que viu boca de lua cheia, até parece boca cheia de lua, uma bobice. O rapaz não gostou de ser chamada de bobice a sua invenção, exclamou meio espinhado que boca de luar, mesmo sendo boca de luar de lua cheia, é completamente diferente – insistiu: com-ple-ta-men-te – de boca cheia de lua; é uma imagem poética e daí isso não tem nada que ver com mineiro, ele até nem era propriamente mineiro, nasceu em Minas por acaso, seu pai era juiz de direito numa comarca de lá, mas viera do Rio Grande do Norte, depois o pai deixou a magistratura e se mudou para São Paulo, onde ele passou a infância, mudando-se finalmente para o Rio com a família. Ah, disse a moça, você ficou zangado comigo, diga, ficouzinho? bobo, te chamo de bobo como te chamo meu bem, fica nervosinho não, eu agora estou sentindo que o que você falou é uma graça, boca de luar é legal, olha aqui, vou te dar um beijo superluar, você quer? Ele ensaiou uma cara de quem não quer ser beijado, mas os lábios da moça estavam já assumindo forma de beijo, avançavam para ele num movimento que parecia comandar e concentrar todo o corpo, como resistir? Pois resistiu, se bem que com intenção de ceder : daí a pouco. Não ficava bem desmanchar a zanga assim tão depressa, ela ia ter a impressão de que ele nem sabia ficar com raiva, a simples oferta de um beijo o amolecia, e que seria do casamento deles, se houvesse casamento? Não é que pensasse em casar com a moça, longe disso, não pensava em casar com ela nem com moça nenhuma nos próximos 10 anos, mas é bom manter a linha de durão mesmo sem perspectiva de futura manutenção de autoridade. É da lei não escrita, homem ficar emburrado e não fazer por menos. Então, é assim? falou baixinho a moça, você não quer o meu beijo oferecido de coração, pois não vai ter mais nenhum nem agora, nem depois de amanhã nem nunca, ouviu, seu bolha? E os lábios recuaram tanto que foi como se despregassem do rosto ali diante do moço zangado e fugissem para longe, para onde nem sequer fossem vistos, e escusa de procurar, porque boca de boca desprezada some na nuvem mais escura, por trás daquela serra para os lados de Teresópolis. E eu vou sofrer com isso? o moço não disse mas falou consigo mesmo, que bem me importa se ela não quer mais me beijar, eu beijo outras, beijo a prima dela, beijo milhões e acabou-se. Mas a moça, que despachara os lábios para o sem-fim, continuava diante dele, muito saborosa e séria, séria e saborosa, aquela pele fina e dourada, aqueles olhões, aquele busto, aquilo tudo de primeiríssima beleza, sem falar na boca ausente mas presente, sabe como é? Ele não sabia, mas a vontade de provar o beijo reapareceu depois que o beijo fora recusado para todo o sempre, e o rapaz avançou o braço direito para pegar docemente no queixo da moça, quem disse que o queixo cedeu? Ele fez um gesto mais positivo, tentando segurar o ombro da moça, o ombro esquivou-se ao toque, embora ela não recuasse. Continuavam próximos um do outro, a uma distância infinita do entendimento. Forçar o beijo seria besteira, ela cerraria os lábios, a boca de luar não se abriria na aceitação úmida da sua. E que gosto pode ter beijo roubado, se até o que não é roubado costuma ser insípido quando as duas partes não se movem pelo mesmo impulso de doação e devoração? A moça visivelmente esperava o ataque, ele visivelmente se proibia de atacar, isso durou um tempão, com o beijo parado em potencial entre os poucos centímetros de uma boca a outra, eis senão quando – ui! – uma formiga, não mais que uma formiguinha, vinda de não se sabe que subterrâneo preparado para expedi-la, em momentos que tais, começou a subir ziguezagueando pelo pescoço da moça, ela deu um grito, ele se precipitou para caçar a formiguinha, os rostos tocaram-se, os lábios também, e o beijo desabrochou, flor na ponta de duas hastes conjugadas, superlunar e inevitável, beijo fluido e forte, resultante da incompreendida imagem poética ou da formiguinha encomendada, quem sabe, pelo rapaz ou pela moça?

Citações
Vontade
 
"Se resistimos às nossas paixões, é mais pela fraqueza delas que pela nossa força." –  La Rochefoucauld

"Ao querermos, enganamo-nos muitas vezes. Mas quando nunca queremos, enganamo-nos sempre." – Rolland , Romain

"Nunca é demasiado tarde para ser aquilo que sempre se quis ser." – Eliot, George 
 
"Quantos desejos não se enfeitam com o título de vontades!" – Lévis (Duque de)
 
"É a vontade que faz o homem grande ou pequeno." –  Schiller
 
"Nada existe tão alto que o homem, com força de vontade, não possa apoiar a sua escada." – Schiller
 
"Onde há uma vontade forte, não pode haver grandes dificuldades." – Maquiavel
"Ainda que as circunstâncias influam sobre o nosso carácter a vontade pode modificar as circunstâncias em nosso favor." –  Mill, Stuart
 
"Quando um homem tem força de vontade, os deuses dão uma ajuda." – Ésquilo
 
"Para que resulte o possível deve ser tentado o impossível." – Hesse, Hermann
 
"É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os." – Herculano, Alexandre
 
"O ego é dotado de um poder, de uma força criativa, conquista tardia da humanidade, a que chamamos vontade." –  Jung
 
"Não há nada mais raro no mundo que a vontade; e, no entanto, a escassa porção de vontade que é concedida aos homens chega para virar todos os seus juízos." – Hofmannsthal, Hugo
 
Querer é quase sempre poder; o que é excessivamente raro é o querer." – Herculano, Alexandre
 
"O nosso bem tal como o nosso mal não existem senão na nossa vontade." – Epicteto
 
"Sê dono da tua vontade e escravo da tua consciência." – Aristóteles
  
"Há várias medidas para medir a vontade humana. A mais exata e a mais segura é a que se exprime por esta questão: de que esforço sois capazes?" – James , William
 
"Muitos homens, como as crianças, querem uma coisa, mas não as suas consequências." – Ortega y Gasset
 
"Não existe um grande talento sem uma grande força de vontade." – Balzac
 
"Cada um dos nossos atos visa uma certa inserção da nossa vontade na realidade." – Bergson, Henri
 
"Desejar, ter aversão, garantir, negar, duvidar são maneiras diferentes de querer." – Descartes
 
"A «autonomia» da vontade é o princípio único de todas as leis morais e dos deveres que estão em conformidade com elas." – Kant
 
"É a lassidão da nossa vontade que constitui toda a nossa fraqueza, e sempre se é forte para fazer o que se quer com força." – Rousseau
 
"Temos mais força do que vontade e é por isso mesmo que nos desculpamos imaginando que as coisas são impossíveis de atingir." – La Rochefoucauld
 
"Tudo vence uma vontade obstinada, todos os obstáculos abate o homem que integrou na sua vida o fim a atingir e que está disposto a todos os sacrifícios para cumprir a missão que a si próprio se impôs." – Silva, Agostinho
 
"Aquele que faz sempre o que quer, raramente faz o que deve." – Beauchêne, Pierre
-o-
Disponíveis em http://www.citador.pt/frases/citacoes/t/vontade; acessadas em 29.10.2012.

terça-feira, 30 de outubro de 2012


Vontade
Emmanuel (psicografia de Francisco Cândido Xavier)

Comparemos a mente humana – espelho vivo da consciência lúcida – a um grande escritório, subdividido em diversas seções de serviço.

Aí possuímos o Departamento do Desejo, em que operam os propósitos e as aspirações, acalentando o estímulo ao trabalho; o Departamento da Inteligência, dilatando os patrimônios da evolução e da cultura; o Departamento da Imaginação, amealhando as riquezas do ideal e da sensibilidade; o Departamento da Memória, arquivando as súmulas da experiência, e outros, ainda, que definem os investimentos da alma.

Acima de todos eles, porém, surge o Gabinete da Vontade.

A Vontade é a gerência esclarecida e vigilante, governando todos os setores da ação mental.

A Divina Providência concedeu-a por auréola luminosa da razão, depois da laboriosa e multimilenária viagem do ser pelas províncias obscuras do instinto.
Para considerar-lhe a importância, basta lembrar que ela é o leme de todos os tipos de força incorporados ao nosso conhecimento.

A eletricidade é energia dinâmica.

O magnetismo é energia estática.

O pensamento é força eletromagnética.

Pensamento, eletricidade e magnetismo conjugam-se em todas as manifestações da Vida Universal, criando gravitação e afinidade, assimilação e desassimilação, nos campos múltiplos da forma que servem à romagem do espírito para as Metas Superiores, traçadas pelo Plano Divino.

A Vontade, contudo, é o impacto determinante.

Nela dispomos do botão poderoso que decide o movimento ou a inércia da máquina.

O cérebro é o dínamo que produz a energia mental, segundo a capacidade de reflexão que lhe é própria; no entanto, na Vontade temos o controle que a dirige nesse ou naquele rumo, estabelecendo causas que comandam os problemas do mundo.

Sem ela, o Desejo pode comprar ao engano aflitivos séculos de reparação e sofrimento, a Inteligência pode aprisionar-se na enxovia da criminalidade, a Imaginação pode gerar perigosos monstros na sombra, e a Memória não obstante fiel à sua função de registradora, conforme a destinação que a Natureza lhe assinala, pode cair em deplorável relaxamento.

Só a Vontade é suficientemente forte para sustentar a harmonia do espírito.

Em verdade, ela não consegue impedir a reflexão mental, quando se trate da conexão entre os semelhantes, porque a sintonia constitui lei inderrogável, mas pode impor o jugo da disciplina sobre os elementos que administra, de modo a mantê-los coesos na corrente do bem.

[Do livro Pensamento e Vida – Emmanuel/Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro: Editora FEB, 1980; cap. 2.
Destaques nossos.]

segunda-feira, 29 de outubro de 2012



Instituto Gestalt de Vanguarda Claudio Naranjo apresenta o Workshop
   “O Eneagrama e a Comédia Humana”

O Eneagrama é um eficaz método de estudo do caráter humano desenvolvido e aprimorado pelo Dr. Cláudio Naranjo, que dotado de um profundo conhecimento da psicologia contemporânea, sistematizou e embasou cientificamente a aplicação de uma abrangente tipologia vinda de uma antiga tradição ao trabalho psicoterapêutico, originando o que se denomina “Psicologia dos eneatipos”.
O Eneagrama consiste em um poderoso recurso de autoconhecimento e um caminho de transformação interior que orienta para mudanças conscientes e progressivas. É uma reveladora ferramenta imprescindível para quem deseja desenvolver seu potencial amoroso e criativo, proporcionando uma melhor qualidade de vida e uma maior capacidade de interação humana.
O que a diferencia de outras tipologias é que promove o descondicionamento dos padrões rígidos e neuróticos da personalidade, que impedem a realização e expressão de nossas inúmeras potencialidades, resgatando a espontaneidade e a verdadeira natureza do individuo.
Hoje, o Eneagrama é um valorizado recurso para aqueles que buscam uma melhor compreensão dos comportamentos humanos e um entendimento profundo de suas escolhas de vida. Amplamente utilizado na formação de terapeutas e daqueles que buscam o autoconhecimento; agora também associado aos contextos profissionais, o Eneagrama se afirma como eficaz método de trabalho sobre as relações humanas, ampliando a responsabilidade e a consciência de quem o utiliza.   
A estrutura deste trabalho é baseada na experiência teórico-vivencial em grupo, que confronta os participantes com a possibilidade de um auto-diagnóstico à luz desta sabedoria.
Neste Workshop, o conhecimento do Eneagrama é aliado ao trabalho “expressivo dramático”, um potente recurso terapêutico que possibilita um aprofundamento vivencial e revela as dinâmicas inconscientes da personalidade.
Introdução ao Eneagrama da Personalidade
Data: 07 a 11 de Novembro de 2012
Contato e informações:
31 3223 0534 / 9777 7230
Local: Fonte do Ser – Terapias Integrativas
Rua Adolfo Pereira, 346, Anchieta, BH

Terapeuta: PEDRO RAMOS (CRP 04/18736)
Psicólogo com formação em Gestalt-terapia e Estudos Jungianos. Estudou Teatro Terapêutico no Estudio Internacional Del Actor Juan Carlos Corazza (Madrid) e formou-se em. Constelações Familiares e terapia familiar sistêmica segundo Bert Hellinger pelo Hellinger-Institut Landshut (Alemanha). Com formação terapêutica pela Escola Sat/Brasil e Couselling pelo Instituto de Psicoterapia della Gestalt e Analisi Transazionale (Napoli/Itália), é discípulo e colaborador de Dr. Cláudio Naranjo com quem estuda o Eneagrama há quinze anos. É diretor do Instituto Gestalt de Vanguarda Claudio Naranjo e atua como psicólogo clínico. 

Vontade
                                              Carlos Bernardo González Pecotche (Raumsol)
                                                                  

Vontade é a força psíquica que move as energias humanas e põe em função as determinações da inteligência para bem, defesa e superação do indivíduo. A falta de vontade anula essas possibilidades e prostra o ser na indiferença e na inércia, faz fracassar a inteligência e chega até a perverter a sensibilidade, porque o expõe a todas as tentações e contingências que o espreitam.
Os movimentos da vontade, pequenos ou grandes, são impulsionados por dois fatores de primordial importância que se alternam e substituem, temporariamente ou permanentemente: a necessidade e o estímulo.

A necessidade atua sobre a vontade, determinando movimentos quase automáticos que forçam o ser a realizar até aquelas coisas que não quer ou que deveria fazer espontaneamente, a instâncias de seu pensar e sentir; seu principal agente é a premência, que não admite dilações de nenhuma espécie, enquanto urge o cumprimento de uma obrigação, de um dever ou a satisfação de uma exigência iniludível.

O estímulo age também sobre a vontade, mas além disso ativa a inteligência e o sentimento, despertando o nobre afã de substituir a escassez pela abundância em cada um dos setores da vida em que a vontade desempenha papel preponderante.

A vontade se excita e adquire brio quando este último fator intervém. Por mais cansada que uma pessoa se encontre ao término de uma jornada, se lhe é oferecida a oportunidade de recrear-se ou distrair-se com algum passatempo favorito, dificilmente deixará de fazê-lo. Isto significa que a perspectiva de passar um momento agradável influi aqui diretamente sobre a vontade, ativando-a. Fica demonstrado assim como se mobiliza a vontade, acicatada por um estímulo qualquer, o que dá ideia do muito que se pode conseguir quando ela se ativa em virtude de estímulos altamente edificantes, como os que o conhecimento transcendente proporciona.

(...)

A antideficiência que aconselhamos aplicar nos casos de falta de vontade é a decisão. Para que seja efetiva terá de ser praticada conscientemente, com responsabilidade – como o requer toda antideficiência – sobrepondo-se com empenho à inação, até triunfar no forcejo psicológico. O ser deve demonstrar que é capaz de contrapor à abulia que o domina a decisão de combatê-la. Assim conseguirá ter vontade para tudo.

Será necessário, em primeiro lugar, querer uma coisa ou querer fazer algo; mas querê-lo com força, para ensejar que a antideficiência entre em vigor. Só o fato de pensar que estamos levanto à prática uma disposição emanada de nós mesmos, que tem por fim imediato nosso próprio benefício, contribuirá de maneira decisiva e sem maiores tropeços para a consecução daquilo que buscamos.

(...)

A decisão vigoriza o temperamento e faz com que o ânimo se recupere no instante mesmo em que começa a decair. A vontade, assim fortalecida, vai-se erigindo em valor inapreciável, constituindo-se na força que move o homem na procura dos bens que prometeu à sua vida e ao seu destino.
Tendo isso presente, não se deixarão para amanhã as coisas que se possam fazer hoje, visto que, fazê-las oportunamente, permite ganhar um tempo que no dia seguinte poderá destinar-se a outros afazeres.

(...)

É muito o que o homem pode conquistar no campo das realizações superiores, sendo o saber a prerrogativa máxima que lhe foi concedida. Não existe, pois, maior estímulo para a vida.

O saber aumenta a vontade e faz com que tudo se consubstancie na ação.

[Extrado do cap. Falta de vontade, da obra Deficiências e Propensões do Ser Humano; São Paulo: Ed. Logosófica, 1984; 2ª parte – Deficiências, pág. 37]
-o-

terça-feira, 25 de setembro de 2012


As Formigas e a Pena

Uma formiga que caminhava, perdida, sobre uma folha de papel, viu uma pena que desenhava traços negros e finos.
— Que maravilha! – exclamou. – Que coisa notável! Tem vida própria e faz garatujas nesta bela superfície a ponto de poder equiparar-se aos esforços conjuntos de todas as formigas do mundo. E que rabiscos faz! Parecem formigas, milhões de formigas trabalhando juntas.
Contou seus pensamentos a outra formiga, que ficou igualmente interessada, e elogiou os poderes de observação e reflexão da primeira formiga.
Mas outra formiga lhe disse:
— Valendo-me de teus esforços, devo admiti-lo, tenho observado esse estranho objeto. Mas cheguei à conclusão de que não é ele que impulsiona seu trabalho. Cometeste o erro de não observar que a pena está ligada a outros objetos, que a rodeiam e conduzem. Esses devem ser considerados como a origem de seu movimento, acredite.
Desse modo as formigas descobriram os dedos.
Passado algum tempo, outra formiga caminhou sobre os dedos e percebeu que faziam parte de uma mão, que explorou total e minuciosamente, no estilo das formigas, andando por todos os lados, esquadrinhando-a toda.
Voltou então para junto das companheiras e gritou-lhes:
— Formigas! Tenho notícias importantes para vocês. Aqueles pequenos objetos fazem parte de outro muito maior. E este é o que realmente move tudo.
Depois descobriram que a mão estava ligada a um braço, e o braço a um corpo; que não existia uma, mas duas mãos; e que existiam dois pés, que não escreviam.
As investigações prosseguiram. Assim, as formigas chegaram a ter uma ideia adequada da mecânica da escrita.
Através do seu método de investigação costumeira, entretanto, nada conseguiram saber a respeito do sentido e da intenção da escrita, nem sobre como, finalmente, eram determinados: as formigas não sabem ler e escrever.
(in Histórias da Tradição Sufi – Edições Dervish, 1993)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012


A vida sem pontuação
Ricardo Wardil*

Todos estão dizendo: “o tempo está passando tão depressa!”, “sinto que foi ontem”. O Deus Cronos resolveu acelerar o relógio da terra ou do coração? “Dizem” (é o nome de um senhor que todos conhecem e que ninguém sabe quem é, e que sabe de tudo) que a velocidade de rotação da Terra acelerou não o suficiente para afetar tanto assim. Então é o relógio do coração que está acelerado. Mas o que está acontecendo?

Comecei a observar as pessoas e fui percebendo que se esqueceram de pontuar a vida. Aquelas regrinhas básicas que aprendemos na escola, mas que a sobrevivência se incumbiu de jogá-la para fora do trem da vida.

As pessoas saem do trabalho e se esquecem do ponto final e leva para casa todo o trabalho na mente, que se mistura com as compras do lanche, as conversas familiares e se estende até a noite. E o sono não vem, porque a mente agitada não deu ponto final em cada afazer. Quando dorme continua no sono até o despertar. Não houve fim, logo não tem inicio.

No automatismo da vida os sentidos amortecidos esqueceram o ponto de exclamação. Perdeu-se a entonação do regozijo, da surpresa, do belo. As indignações se calam diante da impotência. Os medos velados afastam as pessoas pela desconfiança e a negação diante da impossibilidade da exclamação eliminou a interrogação: Qual o significado da vida? O que estamos fazendo aqui? E talvez a pergunta primeira: “Que buscais?” (Jesus).

Respostas para estas perguntas exigem uma vida com mais vírgulas, ou seja, aquelas pequenas pausas entre uma emoção e outra, propiciadoras de reflexões que encontram novos significados. Uma vez encontrado, os ”dois pontos” abre espaço para uma elaboração e introjeção melhor do que se está percebendo para que as relações humanas se enriqueçam de novos saberes e sabores.

Nem sempre encontramos respostas e nem por isso deixamos de viver. Viver não precisa de respostas, precisa de escolhas coerentes com o final que queremos para o nosso capítulo. Para estas perguntas sem respostas, usaremos as reticências...

*Médico homeopata / Belo Horizonte

terça-feira, 21 de agosto de 2012


"Quantas vezes o adulto está sendo mobilizado pela criança mal resolvida em determinados comportamentos e relacionamentos? Quantas vezes o adulto simplesmente é substituído pela criança magoada, ofendida e raivosa? Quantas vezes o animal se consorcia com a criança raivosa apossando-se do adulto, que se revela incapaz de contê-los, por não se conhecer? Quantas vezes tudo aquilo que não está resolvido de vidas passadas se conjuga e essas estruturas, transbordando pelas áreas do pensamento, do sentimento e gerando comportamentos que acarretam sofrimento para aqueles que os experimentam? Isso quando não geram distorções tão graves que são enquadradas no campo da psicopatia.

(...) 

Precisamos empreender a viagem pelas áreas sombrias do nosso mundo interior. Percorrer o labirinto de nossa destrutividade, conhecer as diferentes expressões do nosso egoísmo e de nosso orgulho, que por enquanto nos impedem de fazer inteiramente a vontade de Deus. 

O autoconhecimento (...) será compreendido como condição básica para qualquer tratamento, e os sintomas como mensagens codificadas do mundo interior, requerendo entendimento. Dessa maneira podemos ver a vida, no dizer do poeta, como um químico caprichoso que faz sair do húmus da terra o perfume que rescende da corola de uma flor."
    
      (Gerardo Campana, psiquiatra/AL, in Refletindo a Alma, Editora Leal, 2011, pgs. 81 e 91)

domingo, 12 de agosto de 2012


“O movimento de [auto]transformação, numa compreensão dinâmica, tem como passo primordial a autoaceitação, mesmo que isso inicialmente nos cause um embaraço, como se este ‘aceitar’ fosse uma forma de acomodação ou conveniência.

Quando alguém é efetivamente capaz de aceitar como se encontra e acolher suas imperfeições, por este simples gesto, se verdadeiro, já iniciou o desenvolvimento da mais importante virtude que se opõe ao ego adoecido: a humildade.

Como é possível amar alguém – a mais meritória de todas as virtudes – se primeiro não aprender a aceitá-lo como é? Então questionamos: seria possível alguém aceitar outra pessoa sem que seja capaz de fazer isso consigo próprio? Seria possível fazer um movimento emocional com o outro, o qual eu desconheço?

Por tudo isso, concluímos que quando nos aceitamos indistintamente, somos capazes de aceitar os outros. E aceitando os outros, conseguimos conviver, compreender, ser indulgentes, misericordiosos e capazes de perdoar. E o que é o amor, o sentimento por excelência, senão a vivência de todas estas virtudes? Basta aceitar-se verdadeiramente.”

(Marlon Reikdal, psicólogo junguiano, Curitiba/PR
 in Refletindo a Alma, Salvador: Ed. Leal,  2011, pg. 390;)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


“Qualquer tipo de relacionamento deve ter como estímulo a amizade e o desejo honesto de que ambos sejam satisfeitos, sem que haja predomínio de uma vontade sobre a individualidade do outro. Por isso é necessário cuidarmos para não julgar precipitadamente o outro e estabelecer conceitos equivocados pelos efeitos que o outro gerou em nós. (...) A generalização e o preconceito são frutos da nossa incapacidade de conhecer o outro e do medo de nossa própria mediocridade escondida na nossa sombra interior, que é projetada no outro.”
(Gelson L. Roberto, mestre em Psicologia e analista junguiano; Porto Alegre/RS)
-o-
“Esta é a era em que a ciência e a tecnologia demonstram a enormidade da consciência humana, pois em nenhuma outra época da história da humanidade chegou-se tão perto do domínio da natureza física, mas é também o período em que a incapacidade de compreensão da natureza psíquica, a alma, manifesta-se tão terrivelmente como nunca. Nunca na história da Humanidade precisamos tanto de Deus. Nunca foi tão urgente para o homem e a mulher o encontro consigo mesmo. (...)
Falta-nos o conhecimento de nós mesmos. O homem e a mulher como seres no mundo perdem-se em seu vazio de sentidos. (...)
As inscrições na entrada do templo de Apolo, em Delfos, apresentam muita significação na sociedade atual: ‘Conhece-te a ti mesmo’ e ‘Nada em excesso’. O século XXI chegou e o autoconhecimento não, ou melhor, os indivíduos não conhecem a própria sombra e tudo o que conseguiram foi transformar a sociedade na ‘sociedade do excesso’, é gente demais, violência demais, poluição demais. (...)
E nessa sociedade que toma como ponto de direção o materialismo, é fácil deixar-se guiar pelo mundo do dinheiro e dos objetos e esquecer-se das riquezas do mundo interior, vivendo-se de forma unilateral. Mas, como afirma Jung, ‘quando os conteúdos inconscientes ficam reprimidos por serem continuamente ignorados, acabam por impor sua influência sobre o consciente, uma influência de caráter patológico. É por isso que ocorrem distúrbios nervosos’. E esse é muitas vezes o ponto de partida para a depressão. (...)
‘O homem não pode suportar uma vida sem significado’ (Jung).”
(Iris Sinoti, especialista em terapia junguiana e RH, terapeuta transpessoal; Salvador/BA)
-o-
In Refletindo a Alma, Ed. Leal, págs. 287 e 299 a 303.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

“A forma como você pensa influencia a forma como você sente e se comporta. Como você se comporta também influencia a forma como você acaba se sentindo ou pensando... E assim por diante, o círculo continua.”
-o-

“Faça com que cuidar de você seja uma prioridade, e não algo secundário. Um grama de prevenção vale um quilo de remédio.”

Branch & Willson, TCC

quinta-feira, 21 de junho de 2012


"Você pode ficar repetindo, como um papagaio, frases de efeito, citações e provérbios apenas porque os considera bonitos – mas sem compreendê-los efetivamente e até mesmo sem acreditar neles.

O verdadeiro trabalho transformacional só pode ocorrer se você aliar a compreensão intelectual à íntima convicção de que o dito é verdadeiro.” 

(Branch & Willson – TCC; adaptado)

segunda-feira, 18 de junho de 2012


“As pessoas mantêm padrões improdutivos de comportamento com frequência (como, habitualmente chegar atrasado ao trabalho) porque se concentram nos benefícios a curto prazo (neste caso, evitar a ansiedade de estar em um ônibus ou trem lotado), em vez de se livrarem deste comportamento.
Entretanto, aceitando o desconforto imediato como o preço a pagar por um resultado muito melhor no futuro, estas mesmas pessoa podem se concentrar no desejo de serem livres das restrições (dificuldades) impostas pelo seu problema (sendo capazes de viajar tranquilamente em um transporte público desconfortável).”
Branch & Willson (TCC; adaptado)

domingo, 13 de maio de 2012


O que temos escolhido para nossas vidas?
José Lourenço de Sousa Neto*

Laio e Jocasta, temendo que se cumprisse o oráculo de que um filho de ambos mataria o próprio pai, providenciaram para que a criança, com três dias de vida, fosse morta. Acreditavam que, assim agindo, evitariam o destino trágico de Laio, de ser assassinado pelo próprio filho, e poupariam o filho do crime de parricídio. Não tinham como saber que, com essa atitude, punham a girar a roda que os esmagaria e comporia uma das tragédias mais conhecidas da literatura ocidental – “Édipo Rei”, de Sófocles.

Uma série de acontecimentos, aparentemente banais no miúdo, enganosamente desgarrados entre si, vão montar a história em que cada uma das personagens sofrerá tudo o que lhe está designado previamente. Édipo, além de assassinar o pai, casa-se com a própria mãe, e o drama tem o fim que todos conhecem.

Segundo os gregos, tocava às Moiras o tecer caprichoso do destino de homens e deuses. Cloto (“fiar”), manipulando o fuso, tece o fio da vida, velando pelos partos e nascimentos. Láquesis (“sortear”) puxa e enrola o tecido, distribuindo o quinhão de agruras de cada um. Átropos (“afastar”) corta o fio da vida – seu parceiro nesse mister não é ninguém menos que Tânatos (“morte”).

Da ação das Moiras (Moira = destino), nem Zeus pode escapar, sob pena de ferir a harmonia cósmica.

No início do filme argentino “Um conto chinês”1, com o ótimo Ricardo Darín, em algum lugar remoto na China, uma vaca despenca do céu, literalmente, sobre um barco e mata uma jovem no exato momento em que ela ia receber a aliança e o pedido de casamento de seu noivo. Dias depois, um jovem chinês despenca, metaforicamente, jogado de um táxi, na vida de Roberto de Cesare, personagem de Ricardo Darín.

A partir desses dois incidentes, aparentemente desconexos, desenvolve-se o drama de Roberto, um sujeito de meia-idade, rabugento, solitário, misantropo, extremamente zeloso de sua vidinha medíocre e seus pequenos caprichos. De uma hora para outra, vê-se às voltas com um oriental, sem dinheiro, que não fala uma palavra de espanhol, perdido em Buenos Aires, onde nunca esteve antes, em busca de um tio desaparecido. Dividido entre expulsar o rapaz de sua vida e continuar com suas idiossincrasias, de um lado, e uma cobrança íntima por um comportamento mais humano que o impede de simplesmente deixar o estranho entregue à sua desgraça pessoal, do outro, Roberto passa por várias situações cômicas, tentando ajudar o rapaz e, ao mesmo tempo, livrar-se do fardo e da companhia indesejáveis.

Numa visão niilista, Roberto acredita que a vida é um absurdo, não tem qualquer sentido, e coleciona recortes de jornais com notícias que comprovariam sua crença no nonsense do existir humano. Até que vê que uma de suas reportagens é a história daquele chinês que desembarcou, sem ser convidado em sua vida. Espantado, ele não tem outra reação a não ser repetir, pateticamente: “não pode ser... não pode ser... não pode ser...”, e tomar um porre, como se, sob efeito do álcool, sua vida, de repente abalada na estrutura das crenças, pudesse se refazer.

Podemos ver, por trás do texto de Sófocles e do filme argentino, os dedos caprichosos do destino, criando situações cuja gênese nos foge; de desenrolar que escapa da nossa capacidade de controle; e de fim que não conseguimos imaginar. É ocioso recomendar que nem busquemos entender, porque essa busca é da nossa natureza – mesmo que saibamos de antemão que não teremos êxito, sempre queremos preencher as lacunas dos porquês. Os deuses devem rir à solta, com nossas tentativas infantis de compreender os desígnios. Mesmo porque, se chegarmos perto, eles podem mudar a trama. Aliás, no filme, há um momento parecido com isso – um policial resolve prender o jovem chinês; perguntado sobre a razão do procedimento, já que não se tratava de um delinquente, responde que não devia satisfação a ninguém e que o fazia porque “deu-lhe na telha”. Se “um babaca de um funcionário público uniformizado”, nas palavras da personagem de Darín, podia se abancar de “senhor do destino”, quanto mais a potências invisíveis a nos enredar os pés apenas por acharem engraçados nossos tombos!

Blasfemar contra as situações tampouco adianta. As tecedeiras continuam, inclementes, e nossa saliva raivosa não as fazem hesitar um instante. Tentar parar a roda ou mudar-lhe o rumo é, igualmente, tempo perdido. Resta a opção de correr à frente, se possível, ou observar o desenrolar da trama e tirar algum proveito das situações que se apresentarem. Classicamente, se recebemos um limão, por que não fazer uma limonada? Que adianta reclamar, dizer que preferia uma laranja?

A vida está sempre a nos oferecer ocasiões de realização e aprendizado, que raramente aproveitamos. A todo instante, algo nos ocorre – e não precisa ser nada inusitado, fantástico – que pode tornar-se o portal de entrada para uma experiência rica, mas deixamos escapar a chance. Por comodismo, por medo, por indiferença, ou porque vivemos no automático, sem reflexão, sem atentar para o que acontece. Ou mesmo porque perdemos um tempo valioso tentando remontar às origens, enrolar o fio de volta ao novelo, questionando o porquê e a razão daquilo.

Se perguntássemos mais “e agora? O que faço com isso?”, talvez aproveitássemos melhor as circunstâncias.

Um cliente chato, inconveniente, aborda-nos no balcão ou no escritório – o que esse encontro pode nos ensinar e que oportunidade nos traz? Podemos converter o “mala” num amigo, ou podemos azedar ainda mais a situação, ou mesmo reagir com indiferença, perdendo, quem sabe?, uma oportunidade de realização e ajuda.

Um atendente é solícito e resolve rapidamente nosso problema – o que ele nos ensina? Como retribuir e adubar esse comportamento? Ou relegamos à indiferença, sob a desculpa de que ele é pago para isso?

Alguém pede ajuda – fugimos da amolação que isso pode implicar, ou aproveitamos a oportunidade para uma ação mais humana? O que aprender com o desespero do outro? Como movimentar tudo aquilo que ingerimos nas leituras de ética e moral, mas precisamos aprender na prática?

Alguém estende a mão pressurosa, oferecendo-nos o socorro na queda que acabamos de sofrer – agarramo-la, dando ao benfeitor a oportunidade de ser útil, e, a nós mesmos, a chance de exercitarmos a humildade e a percepção de nossa fragilidade e interdependência, ou desprezamos a oferta, externando uma superioridade que não temos e semeando gelo num coração generoso?

Tudo nos traz oportunidades valiosas. Um dia ensolarado pode sugerir um passeio e o estreitamento de uma amizade que se inicia. Uma caixa que devia conter 150 parafusos, mas onde falta meia dúzia pode levar a uma reação irada, que nada resolve, ou a uma reclamação educada, que soluciona o problema. Um amigo que se preocupa com nossa solidão pode ser alguém querendo ajudar, ou um intrometido – como vamos tratá-lo? Um muro sujo e mal cuidado é apenas algo a restaurar, ou a tela para uma obra de arte – como escolhemos vê-lo? Tampas de caixa de sapato são lixo a descartar, ou fundo para delicados desenhos – o que escolhemos? Todas essas situações se apresentam no filme e levam a outras reflexões...

Nossa vida pode ser um celeiro farto de alimento para nossas almas, ou uma carga a arrastar, um desfiar incessante de lamúrias e pessimismo. A escolha é nossa. O nosso livre arbítrio pode nos levar ao céu ou ao inferno, conforme o modo como o usarmos. De uma forma, ou de outra, estamos fadados à liberdade das escolhas – façamos nossas apostas.

1 “Um conto chinês” (Un cuento chino), produção Argentina/Espanha, de 2011; direção de Sebastián Borensztein; com Ricardo Darín, Muriel Santa Ana, Ignacio Huang...