domingo, 13 de maio de 2012


O que temos escolhido para nossas vidas?
José Lourenço de Sousa Neto*

Laio e Jocasta, temendo que se cumprisse o oráculo de que um filho de ambos mataria o próprio pai, providenciaram para que a criança, com três dias de vida, fosse morta. Acreditavam que, assim agindo, evitariam o destino trágico de Laio, de ser assassinado pelo próprio filho, e poupariam o filho do crime de parricídio. Não tinham como saber que, com essa atitude, punham a girar a roda que os esmagaria e comporia uma das tragédias mais conhecidas da literatura ocidental – “Édipo Rei”, de Sófocles.

Uma série de acontecimentos, aparentemente banais no miúdo, enganosamente desgarrados entre si, vão montar a história em que cada uma das personagens sofrerá tudo o que lhe está designado previamente. Édipo, além de assassinar o pai, casa-se com a própria mãe, e o drama tem o fim que todos conhecem.

Segundo os gregos, tocava às Moiras o tecer caprichoso do destino de homens e deuses. Cloto (“fiar”), manipulando o fuso, tece o fio da vida, velando pelos partos e nascimentos. Láquesis (“sortear”) puxa e enrola o tecido, distribuindo o quinhão de agruras de cada um. Átropos (“afastar”) corta o fio da vida – seu parceiro nesse mister não é ninguém menos que Tânatos (“morte”).

Da ação das Moiras (Moira = destino), nem Zeus pode escapar, sob pena de ferir a harmonia cósmica.

No início do filme argentino “Um conto chinês”1, com o ótimo Ricardo Darín, em algum lugar remoto na China, uma vaca despenca do céu, literalmente, sobre um barco e mata uma jovem no exato momento em que ela ia receber a aliança e o pedido de casamento de seu noivo. Dias depois, um jovem chinês despenca, metaforicamente, jogado de um táxi, na vida de Roberto de Cesare, personagem de Ricardo Darín.

A partir desses dois incidentes, aparentemente desconexos, desenvolve-se o drama de Roberto, um sujeito de meia-idade, rabugento, solitário, misantropo, extremamente zeloso de sua vidinha medíocre e seus pequenos caprichos. De uma hora para outra, vê-se às voltas com um oriental, sem dinheiro, que não fala uma palavra de espanhol, perdido em Buenos Aires, onde nunca esteve antes, em busca de um tio desaparecido. Dividido entre expulsar o rapaz de sua vida e continuar com suas idiossincrasias, de um lado, e uma cobrança íntima por um comportamento mais humano que o impede de simplesmente deixar o estranho entregue à sua desgraça pessoal, do outro, Roberto passa por várias situações cômicas, tentando ajudar o rapaz e, ao mesmo tempo, livrar-se do fardo e da companhia indesejáveis.

Numa visão niilista, Roberto acredita que a vida é um absurdo, não tem qualquer sentido, e coleciona recortes de jornais com notícias que comprovariam sua crença no nonsense do existir humano. Até que vê que uma de suas reportagens é a história daquele chinês que desembarcou, sem ser convidado em sua vida. Espantado, ele não tem outra reação a não ser repetir, pateticamente: “não pode ser... não pode ser... não pode ser...”, e tomar um porre, como se, sob efeito do álcool, sua vida, de repente abalada na estrutura das crenças, pudesse se refazer.

Podemos ver, por trás do texto de Sófocles e do filme argentino, os dedos caprichosos do destino, criando situações cuja gênese nos foge; de desenrolar que escapa da nossa capacidade de controle; e de fim que não conseguimos imaginar. É ocioso recomendar que nem busquemos entender, porque essa busca é da nossa natureza – mesmo que saibamos de antemão que não teremos êxito, sempre queremos preencher as lacunas dos porquês. Os deuses devem rir à solta, com nossas tentativas infantis de compreender os desígnios. Mesmo porque, se chegarmos perto, eles podem mudar a trama. Aliás, no filme, há um momento parecido com isso – um policial resolve prender o jovem chinês; perguntado sobre a razão do procedimento, já que não se tratava de um delinquente, responde que não devia satisfação a ninguém e que o fazia porque “deu-lhe na telha”. Se “um babaca de um funcionário público uniformizado”, nas palavras da personagem de Darín, podia se abancar de “senhor do destino”, quanto mais a potências invisíveis a nos enredar os pés apenas por acharem engraçados nossos tombos!

Blasfemar contra as situações tampouco adianta. As tecedeiras continuam, inclementes, e nossa saliva raivosa não as fazem hesitar um instante. Tentar parar a roda ou mudar-lhe o rumo é, igualmente, tempo perdido. Resta a opção de correr à frente, se possível, ou observar o desenrolar da trama e tirar algum proveito das situações que se apresentarem. Classicamente, se recebemos um limão, por que não fazer uma limonada? Que adianta reclamar, dizer que preferia uma laranja?

A vida está sempre a nos oferecer ocasiões de realização e aprendizado, que raramente aproveitamos. A todo instante, algo nos ocorre – e não precisa ser nada inusitado, fantástico – que pode tornar-se o portal de entrada para uma experiência rica, mas deixamos escapar a chance. Por comodismo, por medo, por indiferença, ou porque vivemos no automático, sem reflexão, sem atentar para o que acontece. Ou mesmo porque perdemos um tempo valioso tentando remontar às origens, enrolar o fio de volta ao novelo, questionando o porquê e a razão daquilo.

Se perguntássemos mais “e agora? O que faço com isso?”, talvez aproveitássemos melhor as circunstâncias.

Um cliente chato, inconveniente, aborda-nos no balcão ou no escritório – o que esse encontro pode nos ensinar e que oportunidade nos traz? Podemos converter o “mala” num amigo, ou podemos azedar ainda mais a situação, ou mesmo reagir com indiferença, perdendo, quem sabe?, uma oportunidade de realização e ajuda.

Um atendente é solícito e resolve rapidamente nosso problema – o que ele nos ensina? Como retribuir e adubar esse comportamento? Ou relegamos à indiferença, sob a desculpa de que ele é pago para isso?

Alguém pede ajuda – fugimos da amolação que isso pode implicar, ou aproveitamos a oportunidade para uma ação mais humana? O que aprender com o desespero do outro? Como movimentar tudo aquilo que ingerimos nas leituras de ética e moral, mas precisamos aprender na prática?

Alguém estende a mão pressurosa, oferecendo-nos o socorro na queda que acabamos de sofrer – agarramo-la, dando ao benfeitor a oportunidade de ser útil, e, a nós mesmos, a chance de exercitarmos a humildade e a percepção de nossa fragilidade e interdependência, ou desprezamos a oferta, externando uma superioridade que não temos e semeando gelo num coração generoso?

Tudo nos traz oportunidades valiosas. Um dia ensolarado pode sugerir um passeio e o estreitamento de uma amizade que se inicia. Uma caixa que devia conter 150 parafusos, mas onde falta meia dúzia pode levar a uma reação irada, que nada resolve, ou a uma reclamação educada, que soluciona o problema. Um amigo que se preocupa com nossa solidão pode ser alguém querendo ajudar, ou um intrometido – como vamos tratá-lo? Um muro sujo e mal cuidado é apenas algo a restaurar, ou a tela para uma obra de arte – como escolhemos vê-lo? Tampas de caixa de sapato são lixo a descartar, ou fundo para delicados desenhos – o que escolhemos? Todas essas situações se apresentam no filme e levam a outras reflexões...

Nossa vida pode ser um celeiro farto de alimento para nossas almas, ou uma carga a arrastar, um desfiar incessante de lamúrias e pessimismo. A escolha é nossa. O nosso livre arbítrio pode nos levar ao céu ou ao inferno, conforme o modo como o usarmos. De uma forma, ou de outra, estamos fadados à liberdade das escolhas – façamos nossas apostas.

1 “Um conto chinês” (Un cuento chino), produção Argentina/Espanha, de 2011; direção de Sebastián Borensztein; com Ricardo Darín, Muriel Santa Ana, Ignacio Huang...

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