quarta-feira, 29 de agosto de 2012


A vida sem pontuação
Ricardo Wardil*

Todos estão dizendo: “o tempo está passando tão depressa!”, “sinto que foi ontem”. O Deus Cronos resolveu acelerar o relógio da terra ou do coração? “Dizem” (é o nome de um senhor que todos conhecem e que ninguém sabe quem é, e que sabe de tudo) que a velocidade de rotação da Terra acelerou não o suficiente para afetar tanto assim. Então é o relógio do coração que está acelerado. Mas o que está acontecendo?

Comecei a observar as pessoas e fui percebendo que se esqueceram de pontuar a vida. Aquelas regrinhas básicas que aprendemos na escola, mas que a sobrevivência se incumbiu de jogá-la para fora do trem da vida.

As pessoas saem do trabalho e se esquecem do ponto final e leva para casa todo o trabalho na mente, que se mistura com as compras do lanche, as conversas familiares e se estende até a noite. E o sono não vem, porque a mente agitada não deu ponto final em cada afazer. Quando dorme continua no sono até o despertar. Não houve fim, logo não tem inicio.

No automatismo da vida os sentidos amortecidos esqueceram o ponto de exclamação. Perdeu-se a entonação do regozijo, da surpresa, do belo. As indignações se calam diante da impotência. Os medos velados afastam as pessoas pela desconfiança e a negação diante da impossibilidade da exclamação eliminou a interrogação: Qual o significado da vida? O que estamos fazendo aqui? E talvez a pergunta primeira: “Que buscais?” (Jesus).

Respostas para estas perguntas exigem uma vida com mais vírgulas, ou seja, aquelas pequenas pausas entre uma emoção e outra, propiciadoras de reflexões que encontram novos significados. Uma vez encontrado, os ”dois pontos” abre espaço para uma elaboração e introjeção melhor do que se está percebendo para que as relações humanas se enriqueçam de novos saberes e sabores.

Nem sempre encontramos respostas e nem por isso deixamos de viver. Viver não precisa de respostas, precisa de escolhas coerentes com o final que queremos para o nosso capítulo. Para estas perguntas sem respostas, usaremos as reticências...

*Médico homeopata / Belo Horizonte

terça-feira, 21 de agosto de 2012


"Quantas vezes o adulto está sendo mobilizado pela criança mal resolvida em determinados comportamentos e relacionamentos? Quantas vezes o adulto simplesmente é substituído pela criança magoada, ofendida e raivosa? Quantas vezes o animal se consorcia com a criança raivosa apossando-se do adulto, que se revela incapaz de contê-los, por não se conhecer? Quantas vezes tudo aquilo que não está resolvido de vidas passadas se conjuga e essas estruturas, transbordando pelas áreas do pensamento, do sentimento e gerando comportamentos que acarretam sofrimento para aqueles que os experimentam? Isso quando não geram distorções tão graves que são enquadradas no campo da psicopatia.

(...) 

Precisamos empreender a viagem pelas áreas sombrias do nosso mundo interior. Percorrer o labirinto de nossa destrutividade, conhecer as diferentes expressões do nosso egoísmo e de nosso orgulho, que por enquanto nos impedem de fazer inteiramente a vontade de Deus. 

O autoconhecimento (...) será compreendido como condição básica para qualquer tratamento, e os sintomas como mensagens codificadas do mundo interior, requerendo entendimento. Dessa maneira podemos ver a vida, no dizer do poeta, como um químico caprichoso que faz sair do húmus da terra o perfume que rescende da corola de uma flor."
    
      (Gerardo Campana, psiquiatra/AL, in Refletindo a Alma, Editora Leal, 2011, pgs. 81 e 91)

domingo, 12 de agosto de 2012


“O movimento de [auto]transformação, numa compreensão dinâmica, tem como passo primordial a autoaceitação, mesmo que isso inicialmente nos cause um embaraço, como se este ‘aceitar’ fosse uma forma de acomodação ou conveniência.

Quando alguém é efetivamente capaz de aceitar como se encontra e acolher suas imperfeições, por este simples gesto, se verdadeiro, já iniciou o desenvolvimento da mais importante virtude que se opõe ao ego adoecido: a humildade.

Como é possível amar alguém – a mais meritória de todas as virtudes – se primeiro não aprender a aceitá-lo como é? Então questionamos: seria possível alguém aceitar outra pessoa sem que seja capaz de fazer isso consigo próprio? Seria possível fazer um movimento emocional com o outro, o qual eu desconheço?

Por tudo isso, concluímos que quando nos aceitamos indistintamente, somos capazes de aceitar os outros. E aceitando os outros, conseguimos conviver, compreender, ser indulgentes, misericordiosos e capazes de perdoar. E o que é o amor, o sentimento por excelência, senão a vivência de todas estas virtudes? Basta aceitar-se verdadeiramente.”

(Marlon Reikdal, psicólogo junguiano, Curitiba/PR
 in Refletindo a Alma, Salvador: Ed. Leal,  2011, pg. 390;)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


“Qualquer tipo de relacionamento deve ter como estímulo a amizade e o desejo honesto de que ambos sejam satisfeitos, sem que haja predomínio de uma vontade sobre a individualidade do outro. Por isso é necessário cuidarmos para não julgar precipitadamente o outro e estabelecer conceitos equivocados pelos efeitos que o outro gerou em nós. (...) A generalização e o preconceito são frutos da nossa incapacidade de conhecer o outro e do medo de nossa própria mediocridade escondida na nossa sombra interior, que é projetada no outro.”
(Gelson L. Roberto, mestre em Psicologia e analista junguiano; Porto Alegre/RS)
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“Esta é a era em que a ciência e a tecnologia demonstram a enormidade da consciência humana, pois em nenhuma outra época da história da humanidade chegou-se tão perto do domínio da natureza física, mas é também o período em que a incapacidade de compreensão da natureza psíquica, a alma, manifesta-se tão terrivelmente como nunca. Nunca na história da Humanidade precisamos tanto de Deus. Nunca foi tão urgente para o homem e a mulher o encontro consigo mesmo. (...)
Falta-nos o conhecimento de nós mesmos. O homem e a mulher como seres no mundo perdem-se em seu vazio de sentidos. (...)
As inscrições na entrada do templo de Apolo, em Delfos, apresentam muita significação na sociedade atual: ‘Conhece-te a ti mesmo’ e ‘Nada em excesso’. O século XXI chegou e o autoconhecimento não, ou melhor, os indivíduos não conhecem a própria sombra e tudo o que conseguiram foi transformar a sociedade na ‘sociedade do excesso’, é gente demais, violência demais, poluição demais. (...)
E nessa sociedade que toma como ponto de direção o materialismo, é fácil deixar-se guiar pelo mundo do dinheiro e dos objetos e esquecer-se das riquezas do mundo interior, vivendo-se de forma unilateral. Mas, como afirma Jung, ‘quando os conteúdos inconscientes ficam reprimidos por serem continuamente ignorados, acabam por impor sua influência sobre o consciente, uma influência de caráter patológico. É por isso que ocorrem distúrbios nervosos’. E esse é muitas vezes o ponto de partida para a depressão. (...)
‘O homem não pode suportar uma vida sem significado’ (Jung).”
(Iris Sinoti, especialista em terapia junguiana e RH, terapeuta transpessoal; Salvador/BA)
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In Refletindo a Alma, Ed. Leal, págs. 287 e 299 a 303.