quarta-feira, 31 de outubro de 2012


Boca de luar
Carlos Drummond de Andrade
– Você tem boca de luar, disse o rapaz para a namorada, e a namorada riu, perguntou ao rapaz que espécie de boca é essa, o rapaz respondeu que é uma boca toda enluarada, de dentes muito alvos e leitosos, entende? Ela não entendeu bem e tornou a perguntar, desta vez que lua correspondia à sua boca, se era crescente, minguante, cheia ou nova. Ao que o rapaz disse que minguante não podia ser, nem crescente, nem nova, só podia ser lua cheia, uai. Aí a moça disse que mineiro tem cada uma, onde é que viu boca de lua cheia, até parece boca cheia de lua, uma bobice. O rapaz não gostou de ser chamada de bobice a sua invenção, exclamou meio espinhado que boca de luar, mesmo sendo boca de luar de lua cheia, é completamente diferente – insistiu: com-ple-ta-men-te – de boca cheia de lua; é uma imagem poética e daí isso não tem nada que ver com mineiro, ele até nem era propriamente mineiro, nasceu em Minas por acaso, seu pai era juiz de direito numa comarca de lá, mas viera do Rio Grande do Norte, depois o pai deixou a magistratura e se mudou para São Paulo, onde ele passou a infância, mudando-se finalmente para o Rio com a família. Ah, disse a moça, você ficou zangado comigo, diga, ficouzinho? bobo, te chamo de bobo como te chamo meu bem, fica nervosinho não, eu agora estou sentindo que o que você falou é uma graça, boca de luar é legal, olha aqui, vou te dar um beijo superluar, você quer? Ele ensaiou uma cara de quem não quer ser beijado, mas os lábios da moça estavam já assumindo forma de beijo, avançavam para ele num movimento que parecia comandar e concentrar todo o corpo, como resistir? Pois resistiu, se bem que com intenção de ceder : daí a pouco. Não ficava bem desmanchar a zanga assim tão depressa, ela ia ter a impressão de que ele nem sabia ficar com raiva, a simples oferta de um beijo o amolecia, e que seria do casamento deles, se houvesse casamento? Não é que pensasse em casar com a moça, longe disso, não pensava em casar com ela nem com moça nenhuma nos próximos 10 anos, mas é bom manter a linha de durão mesmo sem perspectiva de futura manutenção de autoridade. É da lei não escrita, homem ficar emburrado e não fazer por menos. Então, é assim? falou baixinho a moça, você não quer o meu beijo oferecido de coração, pois não vai ter mais nenhum nem agora, nem depois de amanhã nem nunca, ouviu, seu bolha? E os lábios recuaram tanto que foi como se despregassem do rosto ali diante do moço zangado e fugissem para longe, para onde nem sequer fossem vistos, e escusa de procurar, porque boca de boca desprezada some na nuvem mais escura, por trás daquela serra para os lados de Teresópolis. E eu vou sofrer com isso? o moço não disse mas falou consigo mesmo, que bem me importa se ela não quer mais me beijar, eu beijo outras, beijo a prima dela, beijo milhões e acabou-se. Mas a moça, que despachara os lábios para o sem-fim, continuava diante dele, muito saborosa e séria, séria e saborosa, aquela pele fina e dourada, aqueles olhões, aquele busto, aquilo tudo de primeiríssima beleza, sem falar na boca ausente mas presente, sabe como é? Ele não sabia, mas a vontade de provar o beijo reapareceu depois que o beijo fora recusado para todo o sempre, e o rapaz avançou o braço direito para pegar docemente no queixo da moça, quem disse que o queixo cedeu? Ele fez um gesto mais positivo, tentando segurar o ombro da moça, o ombro esquivou-se ao toque, embora ela não recuasse. Continuavam próximos um do outro, a uma distância infinita do entendimento. Forçar o beijo seria besteira, ela cerraria os lábios, a boca de luar não se abriria na aceitação úmida da sua. E que gosto pode ter beijo roubado, se até o que não é roubado costuma ser insípido quando as duas partes não se movem pelo mesmo impulso de doação e devoração? A moça visivelmente esperava o ataque, ele visivelmente se proibia de atacar, isso durou um tempão, com o beijo parado em potencial entre os poucos centímetros de uma boca a outra, eis senão quando – ui! – uma formiga, não mais que uma formiguinha, vinda de não se sabe que subterrâneo preparado para expedi-la, em momentos que tais, começou a subir ziguezagueando pelo pescoço da moça, ela deu um grito, ele se precipitou para caçar a formiguinha, os rostos tocaram-se, os lábios também, e o beijo desabrochou, flor na ponta de duas hastes conjugadas, superlunar e inevitável, beijo fluido e forte, resultante da incompreendida imagem poética ou da formiguinha encomendada, quem sabe, pelo rapaz ou pela moça?

Citações
Vontade
 
"Se resistimos às nossas paixões, é mais pela fraqueza delas que pela nossa força." –  La Rochefoucauld

"Ao querermos, enganamo-nos muitas vezes. Mas quando nunca queremos, enganamo-nos sempre." – Rolland , Romain

"Nunca é demasiado tarde para ser aquilo que sempre se quis ser." – Eliot, George 
 
"Quantos desejos não se enfeitam com o título de vontades!" – Lévis (Duque de)
 
"É a vontade que faz o homem grande ou pequeno." –  Schiller
 
"Nada existe tão alto que o homem, com força de vontade, não possa apoiar a sua escada." – Schiller
 
"Onde há uma vontade forte, não pode haver grandes dificuldades." – Maquiavel
"Ainda que as circunstâncias influam sobre o nosso carácter a vontade pode modificar as circunstâncias em nosso favor." –  Mill, Stuart
 
"Quando um homem tem força de vontade, os deuses dão uma ajuda." – Ésquilo
 
"Para que resulte o possível deve ser tentado o impossível." – Hesse, Hermann
 
"É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os." – Herculano, Alexandre
 
"O ego é dotado de um poder, de uma força criativa, conquista tardia da humanidade, a que chamamos vontade." –  Jung
 
"Não há nada mais raro no mundo que a vontade; e, no entanto, a escassa porção de vontade que é concedida aos homens chega para virar todos os seus juízos." – Hofmannsthal, Hugo
 
Querer é quase sempre poder; o que é excessivamente raro é o querer." – Herculano, Alexandre
 
"O nosso bem tal como o nosso mal não existem senão na nossa vontade." – Epicteto
 
"Sê dono da tua vontade e escravo da tua consciência." – Aristóteles
  
"Há várias medidas para medir a vontade humana. A mais exata e a mais segura é a que se exprime por esta questão: de que esforço sois capazes?" – James , William
 
"Muitos homens, como as crianças, querem uma coisa, mas não as suas consequências." – Ortega y Gasset
 
"Não existe um grande talento sem uma grande força de vontade." – Balzac
 
"Cada um dos nossos atos visa uma certa inserção da nossa vontade na realidade." – Bergson, Henri
 
"Desejar, ter aversão, garantir, negar, duvidar são maneiras diferentes de querer." – Descartes
 
"A «autonomia» da vontade é o princípio único de todas as leis morais e dos deveres que estão em conformidade com elas." – Kant
 
"É a lassidão da nossa vontade que constitui toda a nossa fraqueza, e sempre se é forte para fazer o que se quer com força." – Rousseau
 
"Temos mais força do que vontade e é por isso mesmo que nos desculpamos imaginando que as coisas são impossíveis de atingir." – La Rochefoucauld
 
"Tudo vence uma vontade obstinada, todos os obstáculos abate o homem que integrou na sua vida o fim a atingir e que está disposto a todos os sacrifícios para cumprir a missão que a si próprio se impôs." – Silva, Agostinho
 
"Aquele que faz sempre o que quer, raramente faz o que deve." – Beauchêne, Pierre
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Disponíveis em http://www.citador.pt/frases/citacoes/t/vontade; acessadas em 29.10.2012.

terça-feira, 30 de outubro de 2012


Vontade
Emmanuel (psicografia de Francisco Cândido Xavier)

Comparemos a mente humana – espelho vivo da consciência lúcida – a um grande escritório, subdividido em diversas seções de serviço.

Aí possuímos o Departamento do Desejo, em que operam os propósitos e as aspirações, acalentando o estímulo ao trabalho; o Departamento da Inteligência, dilatando os patrimônios da evolução e da cultura; o Departamento da Imaginação, amealhando as riquezas do ideal e da sensibilidade; o Departamento da Memória, arquivando as súmulas da experiência, e outros, ainda, que definem os investimentos da alma.

Acima de todos eles, porém, surge o Gabinete da Vontade.

A Vontade é a gerência esclarecida e vigilante, governando todos os setores da ação mental.

A Divina Providência concedeu-a por auréola luminosa da razão, depois da laboriosa e multimilenária viagem do ser pelas províncias obscuras do instinto.
Para considerar-lhe a importância, basta lembrar que ela é o leme de todos os tipos de força incorporados ao nosso conhecimento.

A eletricidade é energia dinâmica.

O magnetismo é energia estática.

O pensamento é força eletromagnética.

Pensamento, eletricidade e magnetismo conjugam-se em todas as manifestações da Vida Universal, criando gravitação e afinidade, assimilação e desassimilação, nos campos múltiplos da forma que servem à romagem do espírito para as Metas Superiores, traçadas pelo Plano Divino.

A Vontade, contudo, é o impacto determinante.

Nela dispomos do botão poderoso que decide o movimento ou a inércia da máquina.

O cérebro é o dínamo que produz a energia mental, segundo a capacidade de reflexão que lhe é própria; no entanto, na Vontade temos o controle que a dirige nesse ou naquele rumo, estabelecendo causas que comandam os problemas do mundo.

Sem ela, o Desejo pode comprar ao engano aflitivos séculos de reparação e sofrimento, a Inteligência pode aprisionar-se na enxovia da criminalidade, a Imaginação pode gerar perigosos monstros na sombra, e a Memória não obstante fiel à sua função de registradora, conforme a destinação que a Natureza lhe assinala, pode cair em deplorável relaxamento.

Só a Vontade é suficientemente forte para sustentar a harmonia do espírito.

Em verdade, ela não consegue impedir a reflexão mental, quando se trate da conexão entre os semelhantes, porque a sintonia constitui lei inderrogável, mas pode impor o jugo da disciplina sobre os elementos que administra, de modo a mantê-los coesos na corrente do bem.

[Do livro Pensamento e Vida – Emmanuel/Francisco Cândido Xavier. Rio de Janeiro: Editora FEB, 1980; cap. 2.
Destaques nossos.]

segunda-feira, 29 de outubro de 2012



Instituto Gestalt de Vanguarda Claudio Naranjo apresenta o Workshop
   “O Eneagrama e a Comédia Humana”

O Eneagrama é um eficaz método de estudo do caráter humano desenvolvido e aprimorado pelo Dr. Cláudio Naranjo, que dotado de um profundo conhecimento da psicologia contemporânea, sistematizou e embasou cientificamente a aplicação de uma abrangente tipologia vinda de uma antiga tradição ao trabalho psicoterapêutico, originando o que se denomina “Psicologia dos eneatipos”.
O Eneagrama consiste em um poderoso recurso de autoconhecimento e um caminho de transformação interior que orienta para mudanças conscientes e progressivas. É uma reveladora ferramenta imprescindível para quem deseja desenvolver seu potencial amoroso e criativo, proporcionando uma melhor qualidade de vida e uma maior capacidade de interação humana.
O que a diferencia de outras tipologias é que promove o descondicionamento dos padrões rígidos e neuróticos da personalidade, que impedem a realização e expressão de nossas inúmeras potencialidades, resgatando a espontaneidade e a verdadeira natureza do individuo.
Hoje, o Eneagrama é um valorizado recurso para aqueles que buscam uma melhor compreensão dos comportamentos humanos e um entendimento profundo de suas escolhas de vida. Amplamente utilizado na formação de terapeutas e daqueles que buscam o autoconhecimento; agora também associado aos contextos profissionais, o Eneagrama se afirma como eficaz método de trabalho sobre as relações humanas, ampliando a responsabilidade e a consciência de quem o utiliza.   
A estrutura deste trabalho é baseada na experiência teórico-vivencial em grupo, que confronta os participantes com a possibilidade de um auto-diagnóstico à luz desta sabedoria.
Neste Workshop, o conhecimento do Eneagrama é aliado ao trabalho “expressivo dramático”, um potente recurso terapêutico que possibilita um aprofundamento vivencial e revela as dinâmicas inconscientes da personalidade.
Introdução ao Eneagrama da Personalidade
Data: 07 a 11 de Novembro de 2012
Contato e informações:
31 3223 0534 / 9777 7230
Local: Fonte do Ser – Terapias Integrativas
Rua Adolfo Pereira, 346, Anchieta, BH

Terapeuta: PEDRO RAMOS (CRP 04/18736)
Psicólogo com formação em Gestalt-terapia e Estudos Jungianos. Estudou Teatro Terapêutico no Estudio Internacional Del Actor Juan Carlos Corazza (Madrid) e formou-se em. Constelações Familiares e terapia familiar sistêmica segundo Bert Hellinger pelo Hellinger-Institut Landshut (Alemanha). Com formação terapêutica pela Escola Sat/Brasil e Couselling pelo Instituto de Psicoterapia della Gestalt e Analisi Transazionale (Napoli/Itália), é discípulo e colaborador de Dr. Cláudio Naranjo com quem estuda o Eneagrama há quinze anos. É diretor do Instituto Gestalt de Vanguarda Claudio Naranjo e atua como psicólogo clínico. 

Vontade
                                              Carlos Bernardo González Pecotche (Raumsol)
                                                                  

Vontade é a força psíquica que move as energias humanas e põe em função as determinações da inteligência para bem, defesa e superação do indivíduo. A falta de vontade anula essas possibilidades e prostra o ser na indiferença e na inércia, faz fracassar a inteligência e chega até a perverter a sensibilidade, porque o expõe a todas as tentações e contingências que o espreitam.
Os movimentos da vontade, pequenos ou grandes, são impulsionados por dois fatores de primordial importância que se alternam e substituem, temporariamente ou permanentemente: a necessidade e o estímulo.

A necessidade atua sobre a vontade, determinando movimentos quase automáticos que forçam o ser a realizar até aquelas coisas que não quer ou que deveria fazer espontaneamente, a instâncias de seu pensar e sentir; seu principal agente é a premência, que não admite dilações de nenhuma espécie, enquanto urge o cumprimento de uma obrigação, de um dever ou a satisfação de uma exigência iniludível.

O estímulo age também sobre a vontade, mas além disso ativa a inteligência e o sentimento, despertando o nobre afã de substituir a escassez pela abundância em cada um dos setores da vida em que a vontade desempenha papel preponderante.

A vontade se excita e adquire brio quando este último fator intervém. Por mais cansada que uma pessoa se encontre ao término de uma jornada, se lhe é oferecida a oportunidade de recrear-se ou distrair-se com algum passatempo favorito, dificilmente deixará de fazê-lo. Isto significa que a perspectiva de passar um momento agradável influi aqui diretamente sobre a vontade, ativando-a. Fica demonstrado assim como se mobiliza a vontade, acicatada por um estímulo qualquer, o que dá ideia do muito que se pode conseguir quando ela se ativa em virtude de estímulos altamente edificantes, como os que o conhecimento transcendente proporciona.

(...)

A antideficiência que aconselhamos aplicar nos casos de falta de vontade é a decisão. Para que seja efetiva terá de ser praticada conscientemente, com responsabilidade – como o requer toda antideficiência – sobrepondo-se com empenho à inação, até triunfar no forcejo psicológico. O ser deve demonstrar que é capaz de contrapor à abulia que o domina a decisão de combatê-la. Assim conseguirá ter vontade para tudo.

Será necessário, em primeiro lugar, querer uma coisa ou querer fazer algo; mas querê-lo com força, para ensejar que a antideficiência entre em vigor. Só o fato de pensar que estamos levanto à prática uma disposição emanada de nós mesmos, que tem por fim imediato nosso próprio benefício, contribuirá de maneira decisiva e sem maiores tropeços para a consecução daquilo que buscamos.

(...)

A decisão vigoriza o temperamento e faz com que o ânimo se recupere no instante mesmo em que começa a decair. A vontade, assim fortalecida, vai-se erigindo em valor inapreciável, constituindo-se na força que move o homem na procura dos bens que prometeu à sua vida e ao seu destino.
Tendo isso presente, não se deixarão para amanhã as coisas que se possam fazer hoje, visto que, fazê-las oportunamente, permite ganhar um tempo que no dia seguinte poderá destinar-se a outros afazeres.

(...)

É muito o que o homem pode conquistar no campo das realizações superiores, sendo o saber a prerrogativa máxima que lhe foi concedida. Não existe, pois, maior estímulo para a vida.

O saber aumenta a vontade e faz com que tudo se consubstancie na ação.

[Extrado do cap. Falta de vontade, da obra Deficiências e Propensões do Ser Humano; São Paulo: Ed. Logosófica, 1984; 2ª parte – Deficiências, pág. 37]
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