segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A mulher que passa

Affonso Romano de Sant’Anna


A cena é a seguinte. Tentem visualizar.

Um bar onde os coroas se reúnem para tomar sua cerveja. Um daqueles bares que transbordam mesas e cadeiras pela calçada. E os senhores de cabelo grisalho, alguns calvos, vários com aquela barriguinha de chope e de idade, conversando suas sabedorias etílicas. Vão ali no fim de semana, acham-se vividos e experimentados, todos têm estórias. Mas agora estão, digamos, apascentados.

E, de repente, passa uma jovem. Linda, é claro. Mas linda daquelas que a gente achando linda fica extasiado sem saber se cai de quatro, de joelhos, se canta a Ode à alegria de Beethoven.

A beleza rompeu, irrompeu no meio do dia e exige atenção.

A moça passa diante desses vetustos e respeitáveis cavalheiros. Pior: ela desfila sua presença sensual diante da ausência deles. Ausência? Explico-me. Ela é presença, vida pulsante, atraente. E eles, porque têm aquela calvície, aquela barriguinha, aqueles fios de cabelo branco (pensa-se, maldosamente), há muito já se despediram do sexo.

Ela vem vaporosa, caminhando com o seu namorado. Este detalhe (que revelo agora) deve transformar a cena em algo ainda mais tocante, irritante, perturbador, porque há um outro macho ao lado dela e eles, no bar, são um rebanho de anciãos. É um jovem macho. Já não bastava ser um jovem macho, ele vem e desfila natural e ostensivamente com essa fêmea soberba aos olhos daquela manada de semivelhos?
Oh! crueldade do tempo, oh! inclemência da idade!

Vamos rever a cena desde princípio, agora que sabemos o que está acontecendo ou por acontecer. Repito: um bar onde os coroas se reúnem para tomar sua cerveja e se esparramam em cadeiras e banquinhos pela calçada e, de repente, irrompe uma ninfa desfilando vaporosa junto a eles. A literatura está cheia de narrativas semelhantes. Principalmente a poesia do final do século passado. As mulheres desfilavam e os homens se extasiavam. Havia até ruas para isso. E a música popular, modernamente, registrou na Garota de Ipanema esse esvoaçar de juventude diante dos siderados sátiros.

Abre-se um corte no tempo e no espaço. Todos, absolutamente todos, no bar como que sentindo os apelos do feromônio, erguem suas narinas na direção do vestido que libera aliciante juventude. Ah! O feromônio! Não se sabe de onde ele vem, que trilha é essa que vai traçando por onde passa o objeto do desejo. O feromônio é responsável também pela preservação da espécie. E aqueles machos sentiram no vento e nos olhos a mensagem do desejo.

Já quando era olhada de frente, a moça atraía instintos e olhares. Mas agora que passou, o decote no ombro, os braços de fora, certos volumes discretos ondeando sob o vestido, desencadeiam alucinações não ditas, apenas olhadas, imaginadas. Ela é um tsunami em pessoa.

E o pior: ela vem e ela lá vai de mão dada com outro macho.

E o casal jovem passa indiferente.

Indiferente?

Ou sabem que estão desnorteando os velhos machos na campina? Esse senhores de meia-idade parecem aqueles alces cedendo (a contragosto) o terreno ao mais jovem e forte.

Os dois jovens passam triunfantes.

E aí (como ocorre nos momentos ritualísticos e sagrados) rompe-se o véu do tempo e do templo. Aqueles senhores, exilados em sua idade, em suas barriguinhas alimentadas com cerveja e torresmo, acobertados por sua inapelável calvície, sentem uma feroz saudade de sua juventude. A cena ocorre no presente, mas eles estão no passado, trespassados. E a beleza e o desejo passam diante deles, inatingíveis, arrogantes, como algo na linha do horizonte.

Um desejo saudoso, impotente, ausente, distante, já vivido, se agita na memória dos hormônios.

E a moça vai passando inalcançável. Sem saber (ou sabe?) que está sendo despida, percorrida, lambida, possuída pelos olhos ávidos e impotentes dos velhos sátiros confinados em torno de um desolado e frio copo de cerveja.
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Publicado no jornal Estado de Minas – ed. domingo/29.12.2013, caderno Cultura – pág. 8.

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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Os dois cães

José Lourenço de Sousa Neto

Um homem que era dono de dois cães ensinou um a caçar e fez do outro seu cão de guarda. E, então, cada vez que o cão de caça saía a caçar e trazia alguma presa, o dono atirava um pedaço dela também para o outro. Indignado, o cão caçador passou a censurar o cão de guarda, pois, enquanto ele próprio vivia saindo e se estafando, o outro nada fazia e se deliciava com os frutos do esforço alheio. Então o cão de guarda lhe retrucou: “Mas não faça críticas a mim, e sim ao meu dono! Foi ele que me ensinou não a trabalhar, mas a desfrutar do trabalho alheio”. (Os cães – Esopo)

Podemos nos apropriar dos dois cães metafóricos de Esopo e ver neles duas instâncias de nossa alma. A que busca e a que retém. Embora lados da mesma moeda, não se confundem em suas ações e motivações intrínsecas.

A parte de nós que caça é aquela que se aventura pelo mundo. Procura conhecê-lo e identificar oportunidades. Fareja coisas e situações que lhe sejam úteis. Interage com o ambiente, com as pessoas, objetos e circunstâncias, e procura obter para si o que julga necessário à sua subsistência.

O exercício da caça é perigoso e requer técnica. Não é o simples ver e colher, mas implica em, identificando a presa, preparar a tocaia, o bote e consumação do ato. Nessa atividade, inteligência e força são requeridas. A estratégia deve ser bem traçada previamente, e opções consideradas, caso falhe o primeiro plano. Em várias situações o caçador pode ferir-se seriamente, comprometendo a própria vida – especialmente quando o alvo é cobiçado por concorrentes tão ou mais preparados.

Caçar é uma atividade para fora, para buscar e capturar. É dinâmica e plena de energia. Mente e corpo em atuação harmônica, para que a presa não escape.

A contraparte que guarda, volta-se para dentro e se preocupa com a manutenção e o zelo. Está interessada em reter, sem cuidar de buscar mais. Não está atrás de oportunidades fora, mas procura riscos de vazamento e perda. Cuida de possíveis ladrões, sem olhos para presas furtivas. Não interage – reage às ameaças. Não se estica no espaço para o bote, mas encolhe-se na proteção e no resguardo. Tocaia, armando ratoeiras. Corre sua dose de risco, mas de uma natureza muito diferente da do caçador.

O primeiro cão é ativo; o segundo é passivo.

O equilíbrio das coisas exige as duas performances. Parafraseando Eclesiastes, há um tempo para caça, e outro para preservar o que se caçou. Perdemos a harmonia quando privilegiamos qualquer um desses aspectos de nossa conduta além da conta justa. Se caçamos demais, roubamos o meio em que vivemos. Açambarcamos o que não devemos com o discurso equivocado do merecimento – “fiz por onde!”. Se o que nos move é apenas o prazer da atividade física e o sangue da presa, passamos a predadores nocivos ao meio. Nossa fome nunca é saciada, porque uma presa abatida é estímulo para buscar outra, e mais outra... Queremos sempre mais e nunca preenchemos esse oco na boca do estômago, porque buscamos fora o que só podemos encontrar dentro.

Mas esse mal traz consigo seu próprio remédio. Como diz a música popular, “quem mata o que não se come, não perde por esperar”. Mais cedo ou mais tarde nosso tempo se esgota e vamos nos dar conta de que tanta ação resultou em nada de efetivo para nosso crescimento espiritual.

Por outro lado, se guardamos demais, transformamo-nos em sovinas da vida. Somos como o tolo do Evangelho, que armazenou para as traças e os ladrões, sem perceber a morte iminente, que pode nos acometer em qualquer instante e lugar. Ficamos obesos, preguiçosos e lentos, pela excessiva permanência nas torres de vigília. Tememos tudo e todos, como ladrões potenciais das riquezas que julgamos possuir. O menor gesto do nosso vizinho é uma ameaça à nossa tranquilidade. Olhamos o mundo com os olhos esgazeados da desconfiança e do medo. O afã de reter e proteger nos consome. Nossa vida perde toda a graça e tudo se resume ao zelo com as posses. E, assim, não percebemos quando passamos de possuidores a possuídos – nossos bens nos escravizam.

Quando nos dirigimos para nosso trabalho, na busca da sobrevivência, que cão late mais forte dentro de nós? O caçador voraz, que de tudo quer se apropriar, ou o vigilante paranoico, que vê ameaça nas menores sombras?

Qualquer um deles que prevalecer tem a capacidade de tornar nossa vida um inferno. Deveríamos escolher o caminho do meio, como já preconizavam os antigos sábios. Caçar na justa medida da nossa fome; guardar o que vale a pena ser guardado. O conselho de Paulo, apóstolo, é de grande sabedoria: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém. Todas as coisas me são lícitas, mas não me deixarei dominar por nenhuma” (ICor 6:12).

Buscar o que necessitamos no mundo é da lei de sobrevivência. Buscar o excesso corre por nossa conta e risco.

Guardar o que realmente nos aproveita é medida de precaução e bom senso – previdência. Armazenar em excesso engorda e entorpece o espírito.

Tanto uma postura quanto outra é muito difícil. Mas quem disse que crescer é fácil? Nossa sociedade predispõe e estimula ferozmente o consumismo (caça) desenfreado. Ao mesmo tempo, o clima de insegurança que nos envolve, até por consequência do muito ter, torna-nos demasiadamente apegados a coisas e valores passageiros. Mas os dois cães habitam em nós – somos nós. Qual dos dois alimentamos mais?


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Contato com o autor: lourenco@jlourenconeto.com.br.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A violeta que se tornou rosa

Ficarmos restritos à nossa área de conforto tem lá suas vantagens. A sensação de segurança e controle (muitas vezes enganosa) e algum espaço e tempo para descansar, ajuda a repor as energias para retomar o caminho. O problema está no excesso, ou quando deixamos o medo dominar e passamos a acreditar que podemos perpetuar essa situação. A vida é um fluir constante e não pede nem precisa da nossa anuência. Mas, mesmo assim, nos auto iludimos achando que temos domínio da situação. Lembra da música Roda Viva, do Chico Buarque (não?! Ei! Em que mundo você tem vivido, pra não se lembrar de Roda Viva?! Pelamordedeus, meu amigo, a vida não se resume a funks!):

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá...”

O pior, no entanto, nem é essa paz fictícia. Mais cedo ou mais tarde o vendaval nos arranca até às raízes, derruba nossos castelos ilusórios e nos toca para a frente, queiramos ou não. O pior são as oportunidades perdidas por causa do medo de ousar.

Quantas paisagens deslumbrantes deixamos de ver, porque temos medo de altura? Quantos sabores interessantes deixamos de degustar, porque nunca temos coragem de experimentar um prato novo ou exótico? Quantos amores deixamos de sentir, porque tememos qualquer envolvimento maior?

Podemos até chamar de humildade, de aceitação do que somos. Mas, na maioria das vezes, não passa de medo. Covardia, pura e simples, de ousar um passo a mais. Veja como as criancinhas fazem. Se jogam, tentam. Caem, machucam, colecionam pequenos hematomas e inúmeros arranhões, mas não deixam de experimentar o novo. E seguem fazendo isso, enquanto nossos medos, que transferimos para elas, não as paralisem e transformem em pequenos adultos tolamente cautelosos, como nós mesmos.

Leia, abaixo, a conhecida fábula da violeta que queria ser rosa, revisitada por Gibran Khalil Gibran, e pense nisso...

A violeta ambiciosa

Gibran Khalil Gibran

Havia, num bosque isolado, uma bonita violeta que vivia satisfeita entre suas companheiras.

Certa manhã, levantou a cabeça e viu uma rosa que se balançava acima dela, radiante e orgulhosa.

Gemeu a violeta dizendo: "Pouca sorte tenho eu entre as flores! Humilde e meu destino! Vivo pegada à terra, e não posso levantar a face para o sol como fazem as rosas."

A Natureza ouviu, e disse a violeta: "Que te aconteceu, filhinha? As vãs ambições apoderaram-se de ti?

- Suplico-te, ó Mãe Poderosa, disse a violeta, transforma-me numa rosa, por um dia só que seja.

- Tu não sabes o que estas pedindo, retrucou a Natureza. Ignoras o que se esconde de infortúnios atrás das aparentes grandezas.

- Transforma-me numa rosa esbelta e alta, insistiu a violeta. E tudo o que me acontecer será consequência dos meus próprios desejos e aspirações.

A Natureza estendeu sua mão mágica, e a violeta tornou-se uma rosa suntuosa.

Na tarde daquele dia, o céu escureceu-se, e os ventos e a chuva devastaram o bosque. As árvores e as rosas foram abatidas. Somente as humildes violetas escaparam ao massacre. E uma delas, olhando em volta de si, gritou as suas companheiras: "Hei, vejam o que a tempestade fez das grandes plantas que se levantavam com orgulho e impertinência."

Disse a outra: "Nós nos apegamos à terra, mas escapamos à fúria dos furacões."

Disse uma terceira: "Somos pequenas e humildes; mas as tempestades nada podem contra nós."

Então, a rainha das violetas viu a rosa que tinha sido violeta, estendida no chão como morta. E disse:

- Vejam  e meditem minhas filhas, sobre a sorte da violeta que as ambições iludiram. Que seu infortúnio lhes sirva de exemplo.

Ouvindo essas palavras, a rosa agonizante estremeceu e, apelando para todas as suas forças, disse com voz entrecortada:

"Ouvi vós, ignorantes, satisfeitas, covardes. Ontem, eu era como vós, humilde e segura. Mas a satisfação que me protegia também me limitava. Podia continuar a viver como vós, pegada à terra, até que o inverno me envolvesse em sua neve me levasse para o silêncio eterno sem que soubesse dos segredos e glórias da vida mais do que inúmeras gerações de violetas, desde que há violetas.

"Mas escutei no silêncio da noite e ouvi o Mundo superior dizer a este mundo: "O alvo da vida é atingir o que há além da vida." Pedi então à Natureza - que nada mais é do que a exteriorização de nossos sonhos invisíveis - transformar-me em rosa. E a Natureza acedeu ao meu desejo.

"Vivi uma hora como rosa. Vivi uma hora como rainha. Vi o mundo pelos olhos das rosas. Ouvi a melodia do éter com o ouvido das rosas. Acariciei a luz com as pétalas das rosas. Pode alguma de vós vangloriar-se de tal honra?

"Morro agora, levando na alma o que nenhuma alma de violeta jamais experimentara. Morro, sabendo o que há atrás dos horizontes estreitos onde nascera. É esse o alvo da vida".

(Parábolas - Gibran Khalil Gibran)

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O pintor

José Lourenço de Sousa Neto

Certo pintor foi contratado para pintar o barco de um homem rico, que morava na mesma cidade que ele. Durante seu trabalho, percebeu um furo no casco, que poderia provocar o afundamento da embarcação e por em risco seus ocupantes. Reparou o problema e concluiu seu trabalho, deixando o barco como novo.

Dias depois, o dono do barco o procurou para pagar pelo serviço feito. Ao receber o cheque, o pintor notou que o valor era muito superior ao combinado. Estende-o de volta, informa o emitente sobre o erro e o valor correto. E o homem rico se explica:

― O cheque é seu e você merece o valor que registrei aí. Depois que recebi o barco de volta, pintado, e deixei que meus filhos saíssem nele, é que me lembrei do furo no casco, que queria ter lhe pedido que reparasse antes da pintura. Corri, desesperado, até à beira do lago, imaginando que o barco teria afundado e meus filhos morrido. Encontrando-os de volta à terra firme, tomei conhecimento que você havia feito o conserto sem que eu lhe pedisse. Além do serviço perfeito, você não me cobrou por ele. Aliás, sequer o mencionou. Você tem ideia do que fez? Foi além do demandado e salvou a vida dos meus filhos. Receba o cheque – você merece cada centavo.

O pintor ouviu com atenção e retrucou:

― Por favor, pegue seu cheque de volta e me faça outro, no valor que havíamos combinado pela pintura. Não me tire a oportunidade e o prazer de ter sido útil, sem ganho financeiro. A alegria que sinto, sabendo disso, ainda mais acrescido com a possibilidade de ter salvado as vidas de seus filhos, é pagamento mais do que suficiente pelo que fiz. Além do que, creio que a vida deles vale muito mais do que isso. Mesmo que eu aceitasse seu dinheiro, não creio que você consideraria que foi o suficiente.

Essa parábola, cuja origem desconhecemos, nos leva a refletir sobre nossas motivações. De tudo o que fazemos num dia de trabalho, o que é motivado pela remuneração pretendida, e o que é pelo espírito de servir além do pagamento? Quanto somos levados a agir em troca de algo, e quanto apenas pelo prazer de fazer um bem, mesmo que pequeno? Que fração de nós é mercantil, e que fração é benemérita? Já aprendemos a agir de forma totalmente desinteressada, pelo menos em algumas oportunidades, ou só nos movimentamos tendo em vista alguma compensação?

Trabalhar por um salário é justo e necessário, afinal de contas precisamos sobreviver. Mas trabalhar só pelo salário é muito empobrecedor. Qualquer um que só vise o ganho, financeiro ou não, sempre recebe mais do que vale.

O espírito de servir vai muito além do simples trabalhar. Implica numa doação de algo que flui da alma e só pode fazê-lo quem tem o que doar. Mercenários, que somos na maior parte do tempo, sempre pensamos em termos de reciprocidade. Num mundo mesmerizado pelo consumismo exacerbado, pensamos o tempo todo em termos de troca – o que ganho, se lhe dou isso? Qual a paga pelo meu esforço extra? Quanto vale cada gesto que faço?

Nessa pauta, perdemos um dos prazeres mais puros e, talvez, o que mais dignifica o homem – o prazer de servir por servir, de fazer o bem pelo bem. Essa incapacidade é que nos leva a cobrar a gratidão do outro – “Não precisa me pagar; basta-me um ‘muito obrigado’!” Na própria expressão de agradecimento está o aprisionamento moral do beneficiado, que passa a estar obrigado a uma contrapartida. E recusamos novos préstimos, se o outro não é agradecido o suficiente.

Doadores não cogitam retorno.

Conta-se que alguém observando o trabalho abnegado de Madre Teresa de Calcutá, disse-lhe: ― “Irmã, por dinheiro nenhum do mundo eu faria o que a senhora faz!”. E ela respondeu: ― “Nem eu, meu filho, nem eu.” Poucos entendem essa postura, e muitos a reprocham.

O ato de bondade desinteressado é alimento para nossas almas. Se anônimo, então, é néctar divino, ambrosia que só os moradores do Olimpo do espírito podem apreciar.
Apesar de tudo, esse tipo de realização não é difícil.


O indivíduo que dedique um pouco de atenção para descobrir em todo trabalho que execute a oportunidade de servir, encontrará inúmeras possibilidades. É um motorista? Dirija com cuidado extra, zelando algo mais pela segurança de seus passageiros e do trânsito em volta. É um atendente de balcão ou telefone? Seja cortês além do que lhe exige o treinamento recebido e a etiqueta da função. É um artesão? Faça seu produto como quem executa uma obra de arte, não como um mero objeto de consumo. É um gestor? Gerencie com espírito de líder, que se sabe responsável pela felicidade de seus liderados. É um médico? Veja seu paciente como uma vida demandando sua cooperação para prosseguir sua caminhada, em vez de apenas mais um nome na lista do convênio.

Tudo na vida é trabalho, e em todo trabalho há oportunidade de servir, embora nem sempre nos preocupemos com isso. E, se “o trabalho-ação transforma o ambiente, o trabalho-serviço transforma o homem” (Emmanuel).

Estamos servindo, para construir um mundo melhor, ou apenas trabalhando para manter o que aí está?


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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

História do Mundo Sem as Partes Chatas
(Trecho do livro)

A vida na Terra: 3,5 bilhões a.C.

A Terra tem 4,54 bilhões de anos. E só levou cerca de um bilhão para desenvolver as primeiras formas de vida, o que não é nada mau, se considerarmos que as crianças levam quase o mesmo tempo para aprender a amarrar os sapatos. O sistema solar ao redor havia se fundido em grandes blocos de rocha que flutuavam sem direção através do vácuo. A própria Terra foi criada quando esses blocos colidiram uns com os outros em explosões violentas e desordenadas: um padrão de reprodução que a raça humana adotou a partir de então. Durante mais ou menos o primeiro bilhão de anos, ela ficou borbulhando como rocha derretida e enxofre, mas com o tempo esfriou e se tornou um oceano viscoso de água morna e aminoácidos. Essa assim chamada sopa primordial1 continha os ingredientes básicos que originavam algumas formas de vida. Isso aconteceu durante a Era Pré-Cambriana, que durou de uns poucos bilhões até 540 milhões de anos a. C.

A primeira forma de vida nesse oceano primordial não foi nada de espantoso, digno de aparecer nas manchetes dos jornais sensacionalistas, mas sim minúsculas bactérias unicelulares conhecidas como procariontes. Essas se alimentavam das moléculas que flutuavam no mar primitivo e, por meio do seu metabolismo, produziam sulfeto de hidrogênio, um gás causticante com cheiro de ovo podre. Desnecessário dizer que tinham certa dificuldade para arranjar um parceiro e precisavam recorrer à divisão celular, ou mitose, para a reprodução. As conversas ao redor das cumbucas de sopa eram assim:

“Deus do Céu, Jeff. Você acaba de metabolizar aqui de novo? Não consegue simplesmente se conter?”

“Não comece, Peter. Mary está me perturbando o dia inteiro por causa disso. Ela diz que quer se dividir.”

“De novo? Quantos filhos essa mulher quer ter?”

Como muitos rejeitados, Jeff e seus amigos procariontes se consolavam se empanturrando de sopa. No entanto, a vida amorosa deles era tão desesperadora que, com o tempo, a sopa começou a ficar escassa – o que gerou filas enormes no supermercado. Essa foi a primeira crise ecológica da Terra causada pelo consumo não consciente.

Como reação a essa crise, surgiu um novo tipo de célula – a alga azul-esverdeada –, capaz de absorver luz diretamente do Sol para produzir sua própria comida. (Garota esperta essa alga, hein? E ecologicamente correta!) Esse processo – a fotossíntese – gerava como subproduto o oxigênio, que trazia o benefício adicional de ser venenoso para os procariontes fedorentos como Jeff. A lenta acumulação de oxigênio por fim começou a alterar a composição da atmosfera da Terra, até que se atingissem as proporções respiráveis de hoje. Também criou a camada de ozônio, que agia como um escudo para proteger a Terra dos poderosos raios ultravioleta do Sol, possibilitando, com o tempo, que as algas tomassem banho de sol de topless em luxuriantes praias tropicais. Chique, não?


Com os procariontes morrendo ou sendo obrigados a se esconder em becos escuros, sobrou mais espaço no mundo para gente nova aparecer. Foi necessário que se passassem mais meio bilhão de anos para que isso acontecesse, mas com o tempo surgiram organismos unicelulares mais sofisticados, como as amebas, que podiam se gabar de ter os seus próprios núcleos e cromossomos. Isso possibilitou uma forma mais complexa de mitose, que abrangia os princípios biológicos básicos da reprodução sexual, um ponto de considerável orgulho para as amebas. Então, depois de aproximadamente outro bilhão de anos, em 650 milhões a. C., chegaram os primeiros organismos multicelulares, como os vermes e as águas-vivas. A partir daí, a coisa virou uma festa!

A Terra tinha evoluído consideravelmente, passando a se parecer mais com o lugar que conhecemos hoje. Havia bem menos atividade vulcânica no único supercontinente da Pangeia, que com o tempo acabou de fragmentando e dando origem a dois gigantescos continentes chamados Gondwana e Laurásia2. Seguiu-se uma proliferação de vida vegetal, e grande parte da massa de terra foi coberta por florestas e pântanos. Também surgiram os animais, primeiro os aracnídeos e os insetos, e depois os répteis e os mamíferos.

Então, por volta de 250 milhões a. C., no período chamado de Permiano-Triássico, quase tudo morreu. Depois de tanto trabalho em todos esses bilhões de anos. Enfim, os cientistas não sabem exatamente o que causou a extinção em massa, mas, segundo a teoria mais recente, foi tudo culpa de um perigoso vulcão na Sibéria (possivelmente controlado secretamente pelos russos ou alguma raça alienígena desconhecida, o que dá no mesmo). Seja qual for a verdade, ao longo de um período de um milhão de anos, aproximadamente 95% de vida a vida marinha e 70% da vida terrestre pereceram. E olha que nós, seres humanos, nem estávamos lá para provocar um desastre ecológico dessas proporções!

Depois de 4 bilhões e meio de anos de incansável evolução, a Terra estava compreensivelmente desapontada com essa reviravolta e flertou por um breve período com a ideia de desistir completamente da vida e se dedicar à carreira de asteroide assassino de planetas. No entanto, por sorte, nosso velho planeta azul era feito de um material resistente e logo contra-atacou com a fórmula perfeita: dinossauros!

A era dos dinossauros: 245 milhões a. C.

A Era dos Dinossauros foi sem dúvida a época mais legal da história da Terra, e isso inclui a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Na verdade, os dinossauros eram tão legais que, aos 36 anos de idade, eu ainda gostaria de ser um. Esses poderosos animais dominaram a Terra durante 165 milhões de anos, que é aproximadamente 164,9 milhões de anos a mais do que os seres humanos conseguiram até agora, e eles só morreram quando foram acertados em cheio por um gigantesco meteorito, que caiu na Península de Yucatán, no México. Até a maneira como foram extintos foi legal.

Os paleontólogos descobriram milhares de fragmentos de fósseis espalhados pelo mundo, o que os levou a acreditar que deveria haver milhões dessas criaturas apavorantes vagando pela Terra3. Uma explicação sobre isso seria muito extensa, complicada e quase tão maçante quanto, digamos, a paleontologia em si. Vamos, portanto, seguir o exemplo dos mais conceituados especialistas em dinossauros e restringir nosso relato ao seguinte:

Os cinco dinossauros mais legais de todos os tempos (em ordem decrescente para aumentar a tensão)

Em quinto lugar temos o triceratope. O triceratope é mais famoso por ser sempre (em qualquer livro sobre dinossauros que você possa encontrar) retratado lutando com um tiranossauro rex. Geralmente, o rex está tentando arrancar, com a boca, a cabeça do triceratope, enquanto o bravo “ceratópsio” está golpeando loucamente a coxa do inimigo com um chifre. Ninguém sabe quem vencia essas lutas, mas, com base na força óssea e no armamento ofensivo, os paleontólogos chegaram à conclusão de que era quase certamente um dos dois. Além disso, não sabemos muita coisa a respeito dos triceratopes, a não ser que eles talvez fossem parecidos com os rinocerontes que definitivamente estão entre os animais mais legais por aqui hoje em dia. (Dá pra não se apaixonar pela Saura, a triceratope de Em Busca do Vale Encantado?)

Estrelando esplendorosamente em quarto lugar, temos o giganotossauro. (Não, não estamos falando de nenhum lutador marombado, não. Ainda estamos falando dos superlagartões.) Como você provavelmente já imaginou a esta altura, ele era um lagarto (“saurus”) gigantesco. Na realidade, ele é o maior dinossauro carnívoro descoberto até agora, um metro e vinte mais longo do que o tiranossauro rex e três toneladas mais pesado. Como se isso já não fosse o suficiente para classificá-lo automaticamente entre os cinco dinossauros mais maneiros, ele também tinha um cérebro em forma de banana. Aplausos para o giganotossauro!

Em terceiro lugar vem o maior dinossauro de todos os tempos, o ultrassauro. Não poderia ser o nome de algum monstro de anime japonês? Ultrassauro também se parece com um nome que os paleontólogos criariam durante uma discussão, quando estivessem de porre, a respeito de quem havia descoberto o melhor dinossauro.

“Ei, adivinha? Descobri um ultrassauro outro dia...”, vangloriava-se o paleontólogo número 1, iniciando uma rodada.

“É mesmo? Bem, eu descobri um supersauro ontem”, contra-ataca rapidamente o paleontólogo número 2.

“Ah, isso não é nada!”, interrompe um terceiro. “No ano passado, descobri um superdupersauro!”

Nesse momento, um quarto paleontólogo entra no boteco com um fóssil do tamanho de Manhattan e diz: “O que vocês acham disto? Hein? Eu o chamo de Fabulomegaultrasupersauro”, e por aí vai... Apesar do seu nome idiota, com trinta metros de comprimento e cinquenta de altura, o ultrassauro ainda reivindica o direito de ser chamado de a maior criatura que já caminhou pelo nosso planeta., E ninguém pode contestar isso. Por enquanto...

O segundo dinossauro mais bacana que já viveu é, certamente, o tiranossauro rex, o chamado “rei tirano”. Durante um longo tempo, o T-rex foi considerado pelos paleontólogos a quintessência da “dinossauridade”, o tipo de réptil que levariam com eles para com o bar se quisessem impressionar as garotas4. Todavia, recentes controvérsias enfraqueceram a sua reinvindicação ao trono. Críticos como o professor Jack Horner, da Montana State University, nos Estados Unidos, argumentam que os lobos olfativos de tamanho exagerado do T-rex, a sua velocidade relativamente lenta e os braços francamente ridículos o tornavam mais adequado para vasculhar o lixo em busca de alimento do que para caçar. Em vez de considerá-lo uma máquina mortífera nobre e poderosa, Horner define o rex como um frangote lento, fedorento e revirador de lixo. No entanto nem todo mundo concorda com isso, e em uma famosa refutação ao argumento de Horner, o acadêmico de Cambridge Richard Metcalf fez a seguinte declaração em 2008: “Um dia o professor Jack Horner estava sentado num canto comendo um pedaço de panetone quando de repente meteu o dedo dentro da iguaria, tirou dali uma uva-passa e gritou: ‘Não sou demais?’ Que espécie de paleontólogo é esse?”. A questão continua em aberto.

Isso nos conduz ao primeiro colocado. Depois de muita deliberação e dor de cabeça, examinando no último instante recursos de muitas outras espécies conhecidas como vulcanodon e o zigongossauro, o prêmio de melhor dinossauro vai para... o deinonico. O deinonico foi o dinossauro mais mortífero que já viveu sobre a Terra. Citando apenas um desses especialistas: “O deinonico foi o dinossauro mais mortífero que já viveu sobe a Terra”. Era um monstrinho tão terrível que faria até o Godzilla fugir gritando de medo.

O deinonico era rápido, ágil, poderoso, tinha uma visão aguçada e era o mais inteligente de todos os dinossauros. Seu nome vem do grego, e significa “garra terrível”. Contrastando com os braços patéticos do tiranossauro rex, ele tinha três enormes garras curvas em cada mão, bem como garras menores nos pés. Ele caçava em grupo, o que possibilitava que matasse até mesmo enormes saurópodes. Ele era, em resumo, um monstro, e muito, muito mais legal do que qualquer coisa da, digamos:

A era dos mamíferos: 65 milhões a. C.

Se a era dos dinossauros tinha sido o momento de maior orgulho na história da Terra até então, a sua sequência imediata foi, sem dúvida, o mais constrangedor. Depois que os dinossauros foram exterminados pelo gigantesco meteorito, a Terra foi dominada durante algum tempo por – veja só – grandes pássaros que não voavam. Com a maioria dos assustadores répteis mortos, os cientistas acreditam que os pássaros propriamente ditos – isto é, aqueles que podiam de fato voar – tenham descoberto que a comida passou a ser tão abundante e fácil de obter que eles podiam simplesmente saltar de um lado para o outro no chão até encontrá-la. Fartando-se de comida e se tornando cada dia mais burros, esses grandes pássaros com o tempo, ficaram tão gordos e preguiçosos que literalmente não conseguiam mais se erguer do chão. A coisa permaneceu assim durante 20 milhões de anos, até que, finalmente eles foram obrigados a dar lugar a criaturas que efetivamente faziam alguma coisa para viver. Esses novos e poderosos animais eram os mamíferos, cuja dominância tem permanecido insuperável até hoje.

Na época dos dinossauros, havia várias espécies de mamíferos, mas somente na forma de criaturas pequenas, parecidas com roedores, que passavam a maior parte do tempo se escondendo, o que era supostamente o que estavam fazendo quando o meteorito atingiu o nosso planeta. Com os dinossauros fora de circulação, contudo, esses minúsculos, digamos, “camundongos” saíram dos seus esconderijos para brincar e aproveitaram a oportunidade para crescer e mudar de forma. Em pouco tempo (bem, alguns milhões de anos na verdade), havia elefantes, rinocerontes, leões, mamutes e tigres-dentes-de-sabre vagando pela Terra – não tão irados quando os dinossauros, mas bem melhores do que os pássaros preguiçosos, que nem conseguiam mais voar.

A diversificação dos mamíferos foi favorecida pela posição dos continentes, que a essa altura tinha se espalhado e se transformado mais ou menos no que conhecemos hoje. Durante parte da era dos dinossauros, havia apenas uma enorme massa de terra, o ultracontinente conhecido como Pangeia (“Toda-Terra”), que tornou as primeiras Olimpíadas dos dinossauros uma questão bastante unilateral. Eles depois se dividiram naqueles dois continentes de nome psicodélico que já mencionamos, Laurásia e Gondwana. Agora, contudo, graças à invenção das placas tectônicas, os continentes tinham se separado ainda mais e a evolução pôde prosseguir livre, leve e solta nas regiões mais segregadas desse admirável mundo novo. Com as formas de vida no mundo ficando cada vez mais diferentes, até mesmo animais flagrantemente ridículos como o emu encontraram um lugar ao sol para descansar o esqueleto.

No entanto nem tudo correu às mil maravilhas para os mamíferos, já que pequenos transtornos secundários como as idades do gelo contribuíam para extinguir espécies em intervalos regulares. O último deles ocorreu no período conhecido como Pleistoceno, que por acaso é a única época da história da Terra em que as crianças devem ser advertidas para não colocar a mão na boca. São fósseis demais! Já pensou quantos milhares de partículas pré-cambrianas e dinossáuricas, entre outras coisas jurássicas e mesozoicas, poderiam existir num reles micrograma de poeira pleistocena? Essa época durou de 1,6 milhão a 10 mil anos atrás, embora também tenha sido entremeada por períodos interglaciais, quando os lençóis de gelo recuavam. Alguns geólogos afirmam que nós estamos vivendo em uma era interglacial, citando como prova os lençóis de gelo que ainda cobrem a Groenlândia e a Antártica. Eles advertem que um dia, no futuro, as geleiras poderão voltar de uma maneira dramática e destrutiva, a não ser que a humanidade trabalhe em conjunto, borrifando aerossóis, queimando combustíveis fósseis e incentivando o gado a peidar incontrolavelmente.

Fonte:

REAR, Dave; História do Mundo sem as Partes Chatas. São Paulo: Cultrix, 2013; págs. 21 a 29.
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Notas:
1.      Ainda considerada uma iguaria no Japão, China e Sudeste Asiático.
2.     Receberam esses nomes nos anos 1960, época das drogas psicodélicas Coisa de cientistas com a pegada hippie, no velho estilo sexo, drogas e rock’n’roll.
3.      Ou uma criatura bem grandalhona, talvez.
4.     Sem sucesso, é claro, porque tentar impressionar uma mulher com um “bichinho de estimação” de cinco metros de altura e mais de doze metros de comprimento só pode ser uma coisa de nerd sem noção, ao estilo dos personagens do seriado The Big Bang Theory.

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domingo, 8 de dezembro de 2013

INVEJA E CALÚNIA NAS RELAÇÕES HUMANAS

Por Tania Azevedo Garcia (07/12/2013)

Segundo narrativa apresentada em Gênesis, o primeiro livro bíblico, Adão e Eva tiveram dois filhos. Caim, o mais velho, tornou-se um lavrador e o mais novo, Abel, pastor de ovelhas. Certa ocasião, como oferendas a Deus, Caim apresentou o fruto de sua terra e Abel, uma das ovelhas de seu rebanho. Deus agradou somente da oferta de Abel, deixando Caim enfurecido. Tomado pela inveja, Caim convida Abel ao campo e assassina seu irmão.

Apeles, pintor grego, acusado de um crime que não cometeu, utiliza como recurso de defesa, um quadro: “A Calúnia”.

Impressionados pela expressão das figuras presentes na obra do artista, os juízes o absolvem. Da arte de Apeles, não há vestígios. Entretanto, no século XV, tendo por referência os escritos de Luciano de Samosata, Boticelli reproduz a obra perdida do artista grego, com a pintura “A Calúnia de Apeles”.  Na sociedade italiana em que viveu Boticelli, a calúnia e a inveja eram temas recorrentes.

As narrações acima não possuem correlação histórica. Elas apenas ilustram um sentimento e um comportamento tão antigos quanto à história da humanidade e muito presentes nos tempos atuais.

Mas o que são e como ocorrem?

A inveja é um sentimento que só os outros têm. “Eu nunca tive inveja de ninguém”. Negada nos círculos sociais, ela expressa a frustração que sentimos por nós mesmos. Tornamo-nos intolerantes por nos percebermos menores que os outros. Mas não podemos assumir que somos ou nos sentimos inferiores. Consequentemente, negamos sua existência. Contudo, a negação não nos impede de atuar. Caim matou Abel, mas existem outras formas de excluirmos aqueles dos quais sentimos inveja. Uma delas é a calúnia.

Filha da inveja, a calúnia possui a arte de se manifestar sem que o caluniador seja identificado. Geralmente revestida de um pouco de verdade, ela se espalha facilmente, com alcance impressionante. Como descreve a nobre francesa, Diane Poitiers: “a calúnia é como uma moeda falsa: muitos que não gostariam de a ter emitido fazem-na circular sem escrúpulos”.  Através dela, o invejoso desonra, exclui, “mata” o objeto de sua frustração.

Relações humanas que envolvem riqueza e poder são campos férteis para o surgimento da inveja e da calúnia. A história da humanidade está repleta de eventos. Nenhum contexto está livre. Nas famílias, nas igrejas, na política. “Vivendo por transmissão, a calúnia se aloja onde encontra terreno fértil”, alude Shakespeare em “A Comédia dos Erros”. Na atualidade, inveja e calúnia emergem com alta incidência, especialmente nos ambientes mais competitivos, como nas organizações.

Em virtude da necessidade de aumento de produção, muitas empresas estimulam a competitividade entre aqueles que, em tese, deveriam cooperar entre si: seus profissionais. No império do sucesso, o fracasso é censurado. Todos devem demonstrar competência, satisfação e, especialmente, felicidade. Demonstrar inveja é atestar que somos incompetentes, menores, fracassados. Assim, não assumimos o sentimento que, na maioria das vezes, é inconsciente.

Dificilmente, mas não impossível, veremos alguém matar outro numa organização, como fez Caim a Abel, por causa da inveja. Não havendo espaço para todos, pois essa é a lógica do capitalismo selvagem, a calúnia se torna, então, uma arma para destruir aqueles que podem galgar postos mais elevados; aqueles que têm ou parecem ter mais competência; ou, que demonstram ser mais felizes.

Quanto mais competitivo e agressivo é um ambiente de trabalho, maior probabilidade de ocorrência da inveja e da calúnia. Esta pode ser promovida com maestria até pelo “inocente”, aquele que a maioria acredita ser o mais confiável, puro e ingênuo, incapaz de participar de ato tão infame.

Retomando Gênesis, ao perceber a frustração de Caim, por sua oferta ter sido preterida, Javé diz: “por que estás irritado e com o rosto abatido? Se fizeres o bem, não andarás de cabeça erguida? Mas se não fizeres o bem, o pecado está à espreita diante de tua porta; ele se esforça para conquistar-te, mas tu deves dominá-lo”.

Do ponto de vista individual, tomar consciência de sentimentos e emoções que nos movem de forma tão espontânea e natural, como a inveja, talvez seja um caminho para evitarmos atos antiéticos como a calúnia. Quanto às organizações…

Referências

        BÍBLIA Sagrada de Aparecida: São Paulo: Ed. Santuário, 2010. Gênesis, cap. 4.
        Garcia, Ely Bonini. Antropologia da alegoria da calúnia. BH: Artear Editora, 2010.
        Tomei, Patrícia Amélia.  Inveja nas organizações.  São Paulo: Makron Books, 1994.
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Fonte deste e de outros textos da autora: http://saladecultura.wordpress.com/2013/12/07/inveja-e-calunia-nas-relacoes-humanas/; acessado em  08/12/2013. 
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Segundo Ovídio, a Inveja (do lat. invidia = “olhar torto”) mora em uma casa “toda manchada de negra peçonha, escondida em um vale, privada do sol; nenhum vento ali sopra; imperam a tristeza, o frio intenso, e a escuridão, com o fogo sempre ausente”; alimenta-se de carne de víboras; tem “o corpo descarnado, seu olhar não se fixa em coisa alguma, os dentes são cobertos de sarro, o peito esverdeado pela bílis, a língua empapada de veneno. Não ri, a não ser quando a diverte o espetáculo de um sofrimento; não dorme, pois as preocupações a mantêm em vigília, mas assiste aos sucessos dos homens, desespera-se, e esse desespero é o seu suplício”. (As Metamorfoses – Livro II: Aglaura. Rio de Janeiro: Ediouro, 1983; pág. 45)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013


VOCÊ GOSTA DE LER?

 Por Tania Azevedo Garcia

minhas tardes com margueritte 2
Na sociedade midiática que vivemos, parece que a leitura se tornou um hábito menos apreciado. Alguns pesquisadores discordam da afirmação, haja vista a quantidade de novos livros publicados no Brasil nos últimos anos. Particularmente, acredito que muitas pessoas não desenvolveram o prazer pela arte, porque não foram suficiente ou adequadamente estimuladas em suas vidas. O filme francês, “Minhas tardes com Margueritte”, endossa essa reflexão.
Germain Chazes, interpretado por Gérard Depardieu, é um feirante cinquentão, rústico e mal-educado. É semianalfabeto ou, como  costumamos dizer na academia, analfabeto funcional, aquele que, mesmo capaz de decodificar as letras e frases, não é suficientemente hábil para interpretar textos. Durante as tardes de folga,ele frequenta uma pracinha em sua cidade e faz amizade com uma idosa de 90 anos,Margueritte. Brilhantemente interpretada por Gisèle Casadesus, a velha senhora é uma médica aposentada, culta e inteligente. Uma aproximação inusitada, devido às diferenças de idade, cultura e classe social.
A afeição entre os protagonistas surge de forma espontânea. Eles conversam sobre os pombos que pousam na praça e, sem um propósito explícito, ela pergunta: “você gosta de ler?”. E, assim, passam as tardes. Ela lendo em voz alta para ele. A ternura e a delicadeza de Margueritte são propulsoras para o despertar daquele homem ignorante para os livros.
Em cenas de flash back, o filme sugere que a dificuldade de Germain para a leitura teria como causas as críticas e deboches que sofreu na escola e em casa durante a infância.  A despeito da experiência de bullying e da rejeição familiar, o personagem demonstra afeto, gentileza e carisma. Tem amigos, uma bela namorada e grande popularidade entre os vizinhos.
Como imaginar que um homem simples iria se interessar pela literatura? Em determinado momento, bebendo com os amigos no bar, Germain cita Albert Camus. E um dos colegas comenta, com ar desconfiado: “você leu Camus?”. Ele responde: “Só alguma coisa: A Queda, A Peste, O Estrangeiro”. A cena é hilária! Aliás, o carismático e excelente ator Gerárd Depardieu torna o que seria um drama, uma deliciosa comédia.  A situação em destaque denota o quanto o protagonista se sente importante demonstrando ser mais culto. Guardadas as devidas proporções, o diálogo remete à citação do filósofo, poeta e naturalista americano Henry Thoreau, que viveu no séc. XIX : “muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro”.
A leitura, mais do que desenvolver a capacidade de compreensão de textos e enunciados e melhorar a fluência verbal e escrita, amplia os horizontes, expande a capacidade de percepção da realidade e possibilita uma nova visão de mundo. Consequentemente, torna as pessoas mais interessantes. O filme do diretor Jean Becker pode ser um bom começo. Se não for, vale pela diversão.
Referências
Minhas tardes com Margueritte.Direção: Jean Becker: Imovision, 2010. DVD (82 min)
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