terça-feira, 30 de abril de 2013

Os olhos dos pobres
 
Charles Baudelaire
De Le Spleen de Paris (Les Petits Poèmes en prose), 1869.



Ah! Você quer saber por que a odeio hoje... Sem dúvida lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois você é, suponho, o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.
 
Havíamos passado juntos um longo dia, que a mim me parecera curto. Tínhamos jurado um ao outro que todos os nossos pensamentos nos seriam comuns, e nossas duas almas, daquele dia em diante, não seriam mais do que uma só: sonho que, além de tudo, nada tem de original, a não ser que, sonhado por todos os homens o sonharam, ainda não foi realizado por nenhum.
 
Ao anoitecer, um pouco fatigada, você desejou sentar-se diante de um café novo, na esquina de um novo bulevar que, ainda cheio de entulho, já ostentava glorioso os seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás mostrava ali todo o calor de uma estreia, e alumiava com todas as forças as paredes de uma brancura cegante, as toalhas rutilantes dos espelhos, os ouros dos astrágalos e das cornijas, os pajens de faces rechonchudas levados de rastos pelos cães atrelados, as damas rindo ao falcão encarapitado em seu punho, as ninfas e as deusas trazendo à cabeça frutas, pastéis e caças, as Hebes e os Ganimedes apresentando, de braço estendido, a pequena ânfora de bavaroises ou o obelisco bicolor dos sorvetes mistos: toda a história e toda a mitologia postas a serviço da gula.
 
Na calçada, diante de nós, vimos plantado um pobre homem dos seus quarenta anos, de ar fatigado, barba meio grisalha, que segurava por uma das mãos um menino e trazia no outro braço um pequenino ser ainda muito frágil, incapaz de caminhar. Servindo de ama, fazia os filhos respirarem o ar da noite. Todos em trapos. Eram três fisionomias extraordinariamente sérias, e seis olhos que contemplavam o novo café com admiração igual, mas diversamente colorida pela idade.
 
Os olhos do pai diziam: - "Como é belo! como é belo! Dir-se-ia que todo o ouro do pobre mundo foi transportado para essas paredes." Os olhos do menino: - "Como é belo! como é belo! Mas é uma casa onde só podem entrar pessoas que não são como nós." Os olhos do menorzinho, esses, de tão fascinados, revelavam apenas uma alegria estúpida e profunda.
 
Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e abranda o coração. Em relação a mim, tinham razão as canções, naquela noite. Eu não só me sentia enternecido com essa família de olhos, senão também um pouco envergonhado dos nossos copos e nossas garrafas, maiores que a nossa sede. Voltava os meus olhares os seus, querido amor, neles procurando ler os meus pensamentos; mergulhava nos seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes, habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse:
 
- "Que gente insuportável aquela, com seus olhos escancarados como portas de cocheira! Você não poderia pedir ao dono do café que os afastasse daqui?"
 
Tanto é difícil entenderem-se as criaturas, meu anjo querido, e tão incomunicável é o pensamento, mesmo entre aqueles que se amam!
 
 
[Pequenos poemas em prosa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1980, pág. 70. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.]
 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sobre puxar o próprio tapete...

[O texto a seguir está na fanpage de Andrei Moreira, médico homeopata em Belo Horizonte, e pode ser acessado  em ahttp://www.facebook.com/andrei.moreira.2.
É uma reflexão preciosa sobre nossa capacidade de auto-boicote. Vale a pena ler e meditar sobre o que a autora fala.]


Você respeita seus limites pessoais ou costuma boicotar-se, construindo com uma mão e destruindo com a outra, nos caminhos da vida??? Compartilho a linda e lúcida reflexão de uma paciente que está efetivamente em um caminho de cura do corpo e da alma, sobre "puxar o próprio tapete". Espero que lhes fale algo ao coração, como falou ao meu. 

"18 de abril, 06:43 da manhã de um novo dia!

Querido Andrei,

Hoje, ao acordar, pensei muito em sua fala “Você se esforça muito, você se esforça muito por puxar o seu próprio tapete!”

Fiquei pensando no significado de não puxar mais o meu próprio tapete. Fiquei pensando em como não boicotar a mim mesma!

Ontem, estava com muito medo de tomar a dose única homeopática.

Hoje acordei sem medo. Entendi que estou com menos medo de minhas dores emocionais. Entendi que posso lidar com elas. Entendi que posso chorar. Entendi que eu escolhi esse caminho. Entendi que prefiro sentir essas dores e me descobrir do que ter um câncer mais tarde!

E aí, pensei: Não puxar meu próprio tapete significa não me boicotar tanto. Olhar para mim mesma com olhos mais amorosos, mais misericordiosos. Não puxar meu próprio tapete significa poder falar a uma amiga dos erros que cometi, porque os meus erros tem perdão e tem reparação!

Não puxar o meu próprio tapete significa aquela prece diária que faço todas as manhãs, em um momento em que so existe eu e Deus – meu Pai amoroso. E saber que Ele me vê, me compreende e que me fala através de inúmeras pessoas, fatos e mensagens.

Não puxar o meu próprio tapete significa aceitar os amores que recebo dos muitos amigos e amigas que tenho e que se importam comigo. Aceitar que mesmo que eu queira em algum momento ficar sozinha, eu posso dizer isso a eles com carinho. E depois conversar com eles, não lhes fechando as portas de tão belo cuidado que é a amizade! É saber que se tenho AMIGOS e AMIGAS é porque tenho qualidades e bondade e amor e dou a eles e recebe deles. Então não sou uma pessoa má!

Não puxar o meu próprio tapete significa cuidar do meu corpo porque ele é abrigo do meu espírito e merece ter saúde. É comer adequadamente, com calma, com inteligência, pensando no que vou colocar dentro de mim! É entender que a comida não me supri mais as necessidades afetivas!

Não puxar o meu próprio tapete é saber que caminho, que tenho pernas, que tenho pernas fortes que levam adiante e que meu corpo clama por exercícios! E que é prazeroso me movimentar!

Não puxar o meu próprio tapete é fazer meus próprios projetos sem viver minha vida em função dos outros e de estar sempre tendo atenção dos outros. É gostar de estar comigo, de ler, de tocar violão, de ver filmes, de ouvir música, de ficar atoa olhando pro céu!

Não puxar o meu próprio tapete é aceitar meus sentimentos. Eles estão em mim! É aceitar o amor que sinto pelo Pedro. É amor! É um sentimento e é bonito. É ter calma e paciência no contato quase que diário com ele para eu me revele aos poucos e o permita também se revelar! É aceitar que eu não sei o que vai acontecer entre ele e eu. Mas é entender também que quando todo meu ódio por ele foi embora, ficou apenas o AMOR! E preciso cuidar desse amor para, talvez, vive-lo ou talvez transformá-lo em amizade.

Não puxar o meu próprio tapete é saber que ser boa mãe não é dar tudo, mas ensinar que o não e ausência também fazem parte da vida!

Não puxar meu próprio tapete é aceitar o imenso amor de meus pais e cuidar dele com desvelo, me aceitando como filha amada que sou! E recebê-los sempre com alegria, com cuidado, fazendo aquele chazinho que eles adoram que eu leve na cama à noite para eles!

É aceitar que irmãos tem ciúmes e que o ciúme de meus irmãos por mim – que dizem que sou a filha mais amada – é sinal também de amor!

Não puxar o meu próprio tapete é entender que conversar alivia minhas dores emocionais e que posso falar e que tenho sido ouvida e que isso não me faz menos e sim melhor!

Não puxar o meu próprio tapete é aceitar minha mediunidade e saber que o que advêm dela depende do quanto de qualidades e amor tenho em mim. E que ela não é mágica e sim um dom que vou aprendendo a colocar a serviço do outro.

Não puxar o meu próprio tapete significa me aceitar como sou e colocar minhas fotos no facebook. E entender que o tempo deixa marcas, mas a marca mais bonita é o aprendizado progressivo do amor.

Não puxar o meu próprio tapete é aceitar que há momentos em dou gargalhadas e em outros, choro tanto que parece que vou sufocar. E aceitar que a vida é sim. Tem dias bons e outros ruins!

Não puxar o meu próprio tapete é não ter vergonha de chorar na frente dos outros, é saber que sou forte mas tenho fragilidades e não dou conta de tudo e não dou conta de tudo sozinha!

Não puxar o meu próprio tapete é saber que daqui a algum tempo essas minhas palavras vão mudar porque eu estou mudando.

Não puxar o meu próprio tapete significa agradecer a Deus por cuidar de mim colocando você, Andrei, em meu caminho pra cuidar de mim e me ensinar a curar a mim mesma! Não sei se estou certa. Mas é como estou agora. Vou trilhar esse caminho até que outro apareça!

Abraço querido médico amigo!

Que Deus te ilumine sempre e sempre!

Maria
(nome fictício para garantir a privacidade da autora do texto, a pedido dela, que autorizou a publicação).