terça-feira, 19 de novembro de 2013

Gentileza, uma questão de escolha
José Lourenço de Sousa Neto (BH., 18.11.2013)
O artigo “Uma questão de escolha”, de domingo, 17.11.2013, de Lilian Monteiro, no jornal Estado de Minas (caderno Bem Viver, págs. 1, 3 e 4), aborda um tema velho, mas nem por isso devidamente incorporado – a gentileza.
Fala-se muito na gentileza e todos queremos ser alvo de seus préstimos. E esbravejamos, quando achamos que alguém não foi devidamente gentil conosco. No entanto, poucos se dedicam a praticá-la. O espírito competitivo fora de propósito – no trânsito, nas filas, pelos lugares nos ônibus –, a ganância e o tirar vantagem a qualquer custo, estabelecem a vigência da lei da selva e de cada um por si, o resto que se dane.
Vejamos alguns pontos da reportagem citada.
“O fim de ano é tempo de confraternização, cordialidade e sorrisos. Mas traz também estresse e correria em meio a compras.” – O tal “espírito natalino”, ou “de confraternização”, não sobrevive a um olhar mais acurado. Muitas pessoas sequer sabem ou se lembram do seu significado. Manipulados pelo marketing da ocasião, tangidos pelo “todos fazem”, desfilam hipocrisia e tentam esconder, com o gesto teatral da troca de presentes e afabilidades, a verdadeira realidade do egoísmo e do interesse particularista. Talvez fosse preferível que não desviássemos nossa atenção, com comportamentos insinceros, e mantivéssemos o foco no ogro interior que ainda não domamos.
“A capacidade inata do ser humano para o altruísmo [é] o que mantém a espécie ao longo da história”, segundo estudos do prof. Sam Bowles, do Instituto Santa Fé, nos Estados Unidos. – Vê-se, por aí, que gentileza tem valor de sobrevivência. Por que, então, parece cada vez mais desvalorizada?
“A gentileza regula as emoções, causa impacto positivo na saúde e manda para longe ressentimentos, raivas, dores, medos... É uma virtude.” – Não seria o caso de sermos gentis, mesmo por egoísmo? Ao sermos polidos com alguém que, na mão contrária, é um grosso, no mínimo vamos evitar que o veneno secretado não seja acolhido por nós.
“Ser gentil é uma escolha.” – Mas temos uma queda desgraçada para más escolhas! E depois lamentamos as consequências...
“Gentileza na alma e, consequentemente, na atitude.” – Se trabalharmos com a ideia de que somos um continuum que vai do animal ao divino, o corpo está mais próximo do bruto, enquanto nossa alma anseia pela transcendência. Num, domina a lei do mais forte, a luta pela sobrevivência, a selvageria. Noutro, despontam sinais de algo mais elevado, apontando o sublime. Os dois anjos em antagonismo – qual deles preferimos alimentar? Nosso livre arbítrio permite a escolha, mas a lei de causa-e-efeito impõe a consequência.
“Não é possível mascarar a gentileza. Fingir ser gentil. As pessoas podem até aplicar artimanhas para passar a imagem de agradáveis, aprazíveis e delicadas, mas não a sustentarão por muito tempo. Vão se revelar como realmente são”, explica o médico e psicanalista Geraldo Caldeira. – Tem gente que até tenta colar no rosto aquele sorriso de comercial de pasta dental, mas não há cola que o mantenha no lugar por muito tempo. Por isso a gentileza é uma coisa que sai, brota dentro e escorre para o mundo. É um exercício interior; uma tomada de decisão que acarreta um trabalho de transformação íntima. Sua prática, consciente, pensada, intencional, a princípio, torna-se natural com o tempo (“a disciplina antecede a espontaneidade” – Emmanuel/Chico Xavier).
“Gentileza também tem a ver com educação...” – Nossa tendência à gentileza ou à estupidez, queiramos ou não, reporta ao nosso berço, aos nossos pais. Por isso, a expressão “mal educado”, antes de falar do indigitado, fala de seus pais (ou responsáveis por sua educação primária). Ser gentil é, portanto, uma forma de honrar pai e mãe (... ou não!).
“... desarma as pessoas...” – Não se apaga um fogo adicionando-lhe combustível. Uma gentileza pode evitar um incêndio.
“... está presente na palavra, no ato...” – Do pensamento ao verbo, e desse ao ato, a gentileza flui, quando é sincera e incorporada ao jeito de ser do indivíduo.
“Ser gentil é fazer o bem com o outro e para você também. Gentileza é a disponibilidade que existe para a vida.” – Gentileza é dessas atitudes que trazem, em si próprias, sua recompensa.  Pelo menos, vamos melhorar um pouquinho o mundo ao nosso redor e evitar muita dor de cabeça, estômago, peito, etc.
Vale a pena tentar!

Um comentário:

  1. Gostei muito do texto sobre a gentileza. Obrigada, Jose Lourenço de Souza Neto. E sempre interessante ler sobre o que nos leva a esse exercicio para obter esses resultados tao positivos para a nossa condiçao humana.

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