segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Geração inquieta versus gestores ultrapassados
José Lourenço de Sousa Neto*

Muito se avançou no entendimento do ser humano, seu funcionamento e motivações. A complexa psicologia do homem revelou ser o lado oculto de um iceberg, que mal se deixa ver na ponta que atua socialmente. Interagir, lidar com pessoas, dirigir e até mesmo colaborar, não são tarefas tão simples como se supunha até pouco tempo atrás. Ainda assim, continuam existindo organizações e gestores que veem os indivíduos como máquinas de carne e osso. Quando tentam encontrar soluções para o dia-a-dia do trabalho, parecem buscar quais botões corretos apertar, ou quais alavancas devem ser acionadas.

O famigerado “estudo de tempos e movimentos” parece fazer parte do passado, peça do museu da história da Administração, mas ainda hoje somos surpreendidos com medições de desempenho semelhantes aos parâmetros de Frank e Lillian Gilbreth, do início do século 20. Prêmios ao “operário padrão” (hoje disfarçado de “funcionário de destaque”) ainda podem ser encontrados por aí, em uma ou outra organização anacrônica. Da mesma forma que persistem expressões que pretendem descrever a empresa como “uma grande máquina, azeitada e com cada peça no lugar”, ou uma “orquestra e seus instrumentos”. O conjunto dos funcionários é chamado de mão-de-obra, ou, não sei se irônica ou cinicamente, de “nosso mais valioso recurso/patrimônio”. Os mais moderninhos arriscam um humanware, em extensão a software e hardware.

Em suma, pessoas continuam sendo vistas como máquinas, equipamentos. Só que uma máquina danada de chata – tanto para se lidar como para manter e reparar!

O robot, por mais avançado tecnologicamente que seja, quando danificado ou gasto pelo tempo e uso, não envolve a complexidade do ser humano. Afetos, valores, sentimentos, percepções e motivações não compõem seu dicionário ou descrição de funcionamento – não são quesitos a considerar no manual de utilização.

A Psicologia trouxe à luz a busca natural dos indivíduos pela autorrealização. Todos nós temos nossas propensões, nossas tendências, nossos anseios na vida (e da vida), e um impulso (pulsão) natural por efetivá-los na prática – a “manifestação efetiva do potencial”, nas palavras do prof. Raul Marinuzzi.

A afirmação atribuída a Maslow, de que uma pessoa deve se tornar aquilo que ela tem potencial para ser, como fator indispensável para o desenvolvimento sadio da personalidade, continua atual como nunca. Para ele, cada indivíduo é dotado de propensão inata à autorrealização. E isso cria um sério problema para gestores à moda antiga, que se acham no direito e competentes para dirigirem seus funcionários.

Se os interesses do funcionário se alinham com as exigências da tarefa que executa, ótimo – ganha o indivíduo, ganha a organização. Caso contrário – e considerando que nem sempre é possível fazer apenas o que se quer –, é preciso encontrar motivação (= motivo para ação), boas razões para se manter na função, pelo menos por algum tempo. Esse é o grande desafio dos dias atuais, em que as organizações estão às voltas com uma geração jovem muito mais demandante e inquieta. Ter o funcionário cativo por tempo indeterminado e, especialmente, sua absoluta fidelidade, não parece mais possível hoje em dia. Resta aos líderes repetirem com o poeta: “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.

Não sendo mais possível lidar com as pessoas como se fossem máquinas, nem prendê-las por longo tempo, fica a opção de extrair da convivência o máximo possível – tanto para a organização quanto para o funcionário. Procurar atender ao maior número possível (e economicamente viável) de suas demandas, para que ele possa retribuir com seu melhor desempenho (para manter-se por algum tempo, pelo menos, no usufruto das condições favoráveis de trabalho).

Há uma nova configuração do mundo do trabalho. Mas muitos gerentes se perdem em lamúrias improdutivas, reclamando da inquietação e infidelidade (falta de comprometimento) dos jovens de hoje, enquanto continuam insistindo nas práticas antigas, de chicote na mão e ameaças na boca. Enquanto não acordarem e promoverem profundas mudanças nas percepções, discurso e práticas, continuarão perdendo funcionários e promovendo intermináveis reposições, num processo vicioso de enxugar gelo.



2 comentários:

  1. Muito bom meu querido amigo! Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!

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