sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A violeta que se tornou rosa

Ficarmos restritos à nossa área de conforto tem lá suas vantagens. A sensação de segurança e controle (muitas vezes enganosa) e algum espaço e tempo para descansar, ajuda a repor as energias para retomar o caminho. O problema está no excesso, ou quando deixamos o medo dominar e passamos a acreditar que podemos perpetuar essa situação. A vida é um fluir constante e não pede nem precisa da nossa anuência. Mas, mesmo assim, nos auto iludimos achando que temos domínio da situação. Lembra da música Roda Viva, do Chico Buarque (não?! Ei! Em que mundo você tem vivido, pra não se lembrar de Roda Viva?! Pelamordedeus, meu amigo, a vida não se resume a funks!):

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá...”

O pior, no entanto, nem é essa paz fictícia. Mais cedo ou mais tarde o vendaval nos arranca até às raízes, derruba nossos castelos ilusórios e nos toca para a frente, queiramos ou não. O pior são as oportunidades perdidas por causa do medo de ousar.

Quantas paisagens deslumbrantes deixamos de ver, porque temos medo de altura? Quantos sabores interessantes deixamos de degustar, porque nunca temos coragem de experimentar um prato novo ou exótico? Quantos amores deixamos de sentir, porque tememos qualquer envolvimento maior?

Podemos até chamar de humildade, de aceitação do que somos. Mas, na maioria das vezes, não passa de medo. Covardia, pura e simples, de ousar um passo a mais. Veja como as criancinhas fazem. Se jogam, tentam. Caem, machucam, colecionam pequenos hematomas e inúmeros arranhões, mas não deixam de experimentar o novo. E seguem fazendo isso, enquanto nossos medos, que transferimos para elas, não as paralisem e transformem em pequenos adultos tolamente cautelosos, como nós mesmos.

Leia, abaixo, a conhecida fábula da violeta que queria ser rosa, revisitada por Gibran Khalil Gibran, e pense nisso...

A violeta ambiciosa

Gibran Khalil Gibran

Havia, num bosque isolado, uma bonita violeta que vivia satisfeita entre suas companheiras.

Certa manhã, levantou a cabeça e viu uma rosa que se balançava acima dela, radiante e orgulhosa.

Gemeu a violeta dizendo: "Pouca sorte tenho eu entre as flores! Humilde e meu destino! Vivo pegada à terra, e não posso levantar a face para o sol como fazem as rosas."

A Natureza ouviu, e disse a violeta: "Que te aconteceu, filhinha? As vãs ambições apoderaram-se de ti?

- Suplico-te, ó Mãe Poderosa, disse a violeta, transforma-me numa rosa, por um dia só que seja.

- Tu não sabes o que estas pedindo, retrucou a Natureza. Ignoras o que se esconde de infortúnios atrás das aparentes grandezas.

- Transforma-me numa rosa esbelta e alta, insistiu a violeta. E tudo o que me acontecer será consequência dos meus próprios desejos e aspirações.

A Natureza estendeu sua mão mágica, e a violeta tornou-se uma rosa suntuosa.

Na tarde daquele dia, o céu escureceu-se, e os ventos e a chuva devastaram o bosque. As árvores e as rosas foram abatidas. Somente as humildes violetas escaparam ao massacre. E uma delas, olhando em volta de si, gritou as suas companheiras: "Hei, vejam o que a tempestade fez das grandes plantas que se levantavam com orgulho e impertinência."

Disse a outra: "Nós nos apegamos à terra, mas escapamos à fúria dos furacões."

Disse uma terceira: "Somos pequenas e humildes; mas as tempestades nada podem contra nós."

Então, a rainha das violetas viu a rosa que tinha sido violeta, estendida no chão como morta. E disse:

- Vejam  e meditem minhas filhas, sobre a sorte da violeta que as ambições iludiram. Que seu infortúnio lhes sirva de exemplo.

Ouvindo essas palavras, a rosa agonizante estremeceu e, apelando para todas as suas forças, disse com voz entrecortada:

"Ouvi vós, ignorantes, satisfeitas, covardes. Ontem, eu era como vós, humilde e segura. Mas a satisfação que me protegia também me limitava. Podia continuar a viver como vós, pegada à terra, até que o inverno me envolvesse em sua neve me levasse para o silêncio eterno sem que soubesse dos segredos e glórias da vida mais do que inúmeras gerações de violetas, desde que há violetas.

"Mas escutei no silêncio da noite e ouvi o Mundo superior dizer a este mundo: "O alvo da vida é atingir o que há além da vida." Pedi então à Natureza - que nada mais é do que a exteriorização de nossos sonhos invisíveis - transformar-me em rosa. E a Natureza acedeu ao meu desejo.

"Vivi uma hora como rosa. Vivi uma hora como rainha. Vi o mundo pelos olhos das rosas. Ouvi a melodia do éter com o ouvido das rosas. Acariciei a luz com as pétalas das rosas. Pode alguma de vós vangloriar-se de tal honra?

"Morro agora, levando na alma o que nenhuma alma de violeta jamais experimentara. Morro, sabendo o que há atrás dos horizontes estreitos onde nascera. É esse o alvo da vida".

(Parábolas - Gibran Khalil Gibran)

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