terça-feira, 17 de dezembro de 2013

História do Mundo Sem as Partes Chatas
(Trecho do livro)

A vida na Terra: 3,5 bilhões a.C.

A Terra tem 4,54 bilhões de anos. E só levou cerca de um bilhão para desenvolver as primeiras formas de vida, o que não é nada mau, se considerarmos que as crianças levam quase o mesmo tempo para aprender a amarrar os sapatos. O sistema solar ao redor havia se fundido em grandes blocos de rocha que flutuavam sem direção através do vácuo. A própria Terra foi criada quando esses blocos colidiram uns com os outros em explosões violentas e desordenadas: um padrão de reprodução que a raça humana adotou a partir de então. Durante mais ou menos o primeiro bilhão de anos, ela ficou borbulhando como rocha derretida e enxofre, mas com o tempo esfriou e se tornou um oceano viscoso de água morna e aminoácidos. Essa assim chamada sopa primordial1 continha os ingredientes básicos que originavam algumas formas de vida. Isso aconteceu durante a Era Pré-Cambriana, que durou de uns poucos bilhões até 540 milhões de anos a. C.

A primeira forma de vida nesse oceano primordial não foi nada de espantoso, digno de aparecer nas manchetes dos jornais sensacionalistas, mas sim minúsculas bactérias unicelulares conhecidas como procariontes. Essas se alimentavam das moléculas que flutuavam no mar primitivo e, por meio do seu metabolismo, produziam sulfeto de hidrogênio, um gás causticante com cheiro de ovo podre. Desnecessário dizer que tinham certa dificuldade para arranjar um parceiro e precisavam recorrer à divisão celular, ou mitose, para a reprodução. As conversas ao redor das cumbucas de sopa eram assim:

“Deus do Céu, Jeff. Você acaba de metabolizar aqui de novo? Não consegue simplesmente se conter?”

“Não comece, Peter. Mary está me perturbando o dia inteiro por causa disso. Ela diz que quer se dividir.”

“De novo? Quantos filhos essa mulher quer ter?”

Como muitos rejeitados, Jeff e seus amigos procariontes se consolavam se empanturrando de sopa. No entanto, a vida amorosa deles era tão desesperadora que, com o tempo, a sopa começou a ficar escassa – o que gerou filas enormes no supermercado. Essa foi a primeira crise ecológica da Terra causada pelo consumo não consciente.

Como reação a essa crise, surgiu um novo tipo de célula – a alga azul-esverdeada –, capaz de absorver luz diretamente do Sol para produzir sua própria comida. (Garota esperta essa alga, hein? E ecologicamente correta!) Esse processo – a fotossíntese – gerava como subproduto o oxigênio, que trazia o benefício adicional de ser venenoso para os procariontes fedorentos como Jeff. A lenta acumulação de oxigênio por fim começou a alterar a composição da atmosfera da Terra, até que se atingissem as proporções respiráveis de hoje. Também criou a camada de ozônio, que agia como um escudo para proteger a Terra dos poderosos raios ultravioleta do Sol, possibilitando, com o tempo, que as algas tomassem banho de sol de topless em luxuriantes praias tropicais. Chique, não?


Com os procariontes morrendo ou sendo obrigados a se esconder em becos escuros, sobrou mais espaço no mundo para gente nova aparecer. Foi necessário que se passassem mais meio bilhão de anos para que isso acontecesse, mas com o tempo surgiram organismos unicelulares mais sofisticados, como as amebas, que podiam se gabar de ter os seus próprios núcleos e cromossomos. Isso possibilitou uma forma mais complexa de mitose, que abrangia os princípios biológicos básicos da reprodução sexual, um ponto de considerável orgulho para as amebas. Então, depois de aproximadamente outro bilhão de anos, em 650 milhões a. C., chegaram os primeiros organismos multicelulares, como os vermes e as águas-vivas. A partir daí, a coisa virou uma festa!

A Terra tinha evoluído consideravelmente, passando a se parecer mais com o lugar que conhecemos hoje. Havia bem menos atividade vulcânica no único supercontinente da Pangeia, que com o tempo acabou de fragmentando e dando origem a dois gigantescos continentes chamados Gondwana e Laurásia2. Seguiu-se uma proliferação de vida vegetal, e grande parte da massa de terra foi coberta por florestas e pântanos. Também surgiram os animais, primeiro os aracnídeos e os insetos, e depois os répteis e os mamíferos.

Então, por volta de 250 milhões a. C., no período chamado de Permiano-Triássico, quase tudo morreu. Depois de tanto trabalho em todos esses bilhões de anos. Enfim, os cientistas não sabem exatamente o que causou a extinção em massa, mas, segundo a teoria mais recente, foi tudo culpa de um perigoso vulcão na Sibéria (possivelmente controlado secretamente pelos russos ou alguma raça alienígena desconhecida, o que dá no mesmo). Seja qual for a verdade, ao longo de um período de um milhão de anos, aproximadamente 95% de vida a vida marinha e 70% da vida terrestre pereceram. E olha que nós, seres humanos, nem estávamos lá para provocar um desastre ecológico dessas proporções!

Depois de 4 bilhões e meio de anos de incansável evolução, a Terra estava compreensivelmente desapontada com essa reviravolta e flertou por um breve período com a ideia de desistir completamente da vida e se dedicar à carreira de asteroide assassino de planetas. No entanto, por sorte, nosso velho planeta azul era feito de um material resistente e logo contra-atacou com a fórmula perfeita: dinossauros!

A era dos dinossauros: 245 milhões a. C.

A Era dos Dinossauros foi sem dúvida a época mais legal da história da Terra, e isso inclui a Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Na verdade, os dinossauros eram tão legais que, aos 36 anos de idade, eu ainda gostaria de ser um. Esses poderosos animais dominaram a Terra durante 165 milhões de anos, que é aproximadamente 164,9 milhões de anos a mais do que os seres humanos conseguiram até agora, e eles só morreram quando foram acertados em cheio por um gigantesco meteorito, que caiu na Península de Yucatán, no México. Até a maneira como foram extintos foi legal.

Os paleontólogos descobriram milhares de fragmentos de fósseis espalhados pelo mundo, o que os levou a acreditar que deveria haver milhões dessas criaturas apavorantes vagando pela Terra3. Uma explicação sobre isso seria muito extensa, complicada e quase tão maçante quanto, digamos, a paleontologia em si. Vamos, portanto, seguir o exemplo dos mais conceituados especialistas em dinossauros e restringir nosso relato ao seguinte:

Os cinco dinossauros mais legais de todos os tempos (em ordem decrescente para aumentar a tensão)

Em quinto lugar temos o triceratope. O triceratope é mais famoso por ser sempre (em qualquer livro sobre dinossauros que você possa encontrar) retratado lutando com um tiranossauro rex. Geralmente, o rex está tentando arrancar, com a boca, a cabeça do triceratope, enquanto o bravo “ceratópsio” está golpeando loucamente a coxa do inimigo com um chifre. Ninguém sabe quem vencia essas lutas, mas, com base na força óssea e no armamento ofensivo, os paleontólogos chegaram à conclusão de que era quase certamente um dos dois. Além disso, não sabemos muita coisa a respeito dos triceratopes, a não ser que eles talvez fossem parecidos com os rinocerontes que definitivamente estão entre os animais mais legais por aqui hoje em dia. (Dá pra não se apaixonar pela Saura, a triceratope de Em Busca do Vale Encantado?)

Estrelando esplendorosamente em quarto lugar, temos o giganotossauro. (Não, não estamos falando de nenhum lutador marombado, não. Ainda estamos falando dos superlagartões.) Como você provavelmente já imaginou a esta altura, ele era um lagarto (“saurus”) gigantesco. Na realidade, ele é o maior dinossauro carnívoro descoberto até agora, um metro e vinte mais longo do que o tiranossauro rex e três toneladas mais pesado. Como se isso já não fosse o suficiente para classificá-lo automaticamente entre os cinco dinossauros mais maneiros, ele também tinha um cérebro em forma de banana. Aplausos para o giganotossauro!

Em terceiro lugar vem o maior dinossauro de todos os tempos, o ultrassauro. Não poderia ser o nome de algum monstro de anime japonês? Ultrassauro também se parece com um nome que os paleontólogos criariam durante uma discussão, quando estivessem de porre, a respeito de quem havia descoberto o melhor dinossauro.

“Ei, adivinha? Descobri um ultrassauro outro dia...”, vangloriava-se o paleontólogo número 1, iniciando uma rodada.

“É mesmo? Bem, eu descobri um supersauro ontem”, contra-ataca rapidamente o paleontólogo número 2.

“Ah, isso não é nada!”, interrompe um terceiro. “No ano passado, descobri um superdupersauro!”

Nesse momento, um quarto paleontólogo entra no boteco com um fóssil do tamanho de Manhattan e diz: “O que vocês acham disto? Hein? Eu o chamo de Fabulomegaultrasupersauro”, e por aí vai... Apesar do seu nome idiota, com trinta metros de comprimento e cinquenta de altura, o ultrassauro ainda reivindica o direito de ser chamado de a maior criatura que já caminhou pelo nosso planeta., E ninguém pode contestar isso. Por enquanto...

O segundo dinossauro mais bacana que já viveu é, certamente, o tiranossauro rex, o chamado “rei tirano”. Durante um longo tempo, o T-rex foi considerado pelos paleontólogos a quintessência da “dinossauridade”, o tipo de réptil que levariam com eles para com o bar se quisessem impressionar as garotas4. Todavia, recentes controvérsias enfraqueceram a sua reinvindicação ao trono. Críticos como o professor Jack Horner, da Montana State University, nos Estados Unidos, argumentam que os lobos olfativos de tamanho exagerado do T-rex, a sua velocidade relativamente lenta e os braços francamente ridículos o tornavam mais adequado para vasculhar o lixo em busca de alimento do que para caçar. Em vez de considerá-lo uma máquina mortífera nobre e poderosa, Horner define o rex como um frangote lento, fedorento e revirador de lixo. No entanto nem todo mundo concorda com isso, e em uma famosa refutação ao argumento de Horner, o acadêmico de Cambridge Richard Metcalf fez a seguinte declaração em 2008: “Um dia o professor Jack Horner estava sentado num canto comendo um pedaço de panetone quando de repente meteu o dedo dentro da iguaria, tirou dali uma uva-passa e gritou: ‘Não sou demais?’ Que espécie de paleontólogo é esse?”. A questão continua em aberto.

Isso nos conduz ao primeiro colocado. Depois de muita deliberação e dor de cabeça, examinando no último instante recursos de muitas outras espécies conhecidas como vulcanodon e o zigongossauro, o prêmio de melhor dinossauro vai para... o deinonico. O deinonico foi o dinossauro mais mortífero que já viveu sobre a Terra. Citando apenas um desses especialistas: “O deinonico foi o dinossauro mais mortífero que já viveu sobe a Terra”. Era um monstrinho tão terrível que faria até o Godzilla fugir gritando de medo.

O deinonico era rápido, ágil, poderoso, tinha uma visão aguçada e era o mais inteligente de todos os dinossauros. Seu nome vem do grego, e significa “garra terrível”. Contrastando com os braços patéticos do tiranossauro rex, ele tinha três enormes garras curvas em cada mão, bem como garras menores nos pés. Ele caçava em grupo, o que possibilitava que matasse até mesmo enormes saurópodes. Ele era, em resumo, um monstro, e muito, muito mais legal do que qualquer coisa da, digamos:

A era dos mamíferos: 65 milhões a. C.

Se a era dos dinossauros tinha sido o momento de maior orgulho na história da Terra até então, a sua sequência imediata foi, sem dúvida, o mais constrangedor. Depois que os dinossauros foram exterminados pelo gigantesco meteorito, a Terra foi dominada durante algum tempo por – veja só – grandes pássaros que não voavam. Com a maioria dos assustadores répteis mortos, os cientistas acreditam que os pássaros propriamente ditos – isto é, aqueles que podiam de fato voar – tenham descoberto que a comida passou a ser tão abundante e fácil de obter que eles podiam simplesmente saltar de um lado para o outro no chão até encontrá-la. Fartando-se de comida e se tornando cada dia mais burros, esses grandes pássaros com o tempo, ficaram tão gordos e preguiçosos que literalmente não conseguiam mais se erguer do chão. A coisa permaneceu assim durante 20 milhões de anos, até que, finalmente eles foram obrigados a dar lugar a criaturas que efetivamente faziam alguma coisa para viver. Esses novos e poderosos animais eram os mamíferos, cuja dominância tem permanecido insuperável até hoje.

Na época dos dinossauros, havia várias espécies de mamíferos, mas somente na forma de criaturas pequenas, parecidas com roedores, que passavam a maior parte do tempo se escondendo, o que era supostamente o que estavam fazendo quando o meteorito atingiu o nosso planeta. Com os dinossauros fora de circulação, contudo, esses minúsculos, digamos, “camundongos” saíram dos seus esconderijos para brincar e aproveitaram a oportunidade para crescer e mudar de forma. Em pouco tempo (bem, alguns milhões de anos na verdade), havia elefantes, rinocerontes, leões, mamutes e tigres-dentes-de-sabre vagando pela Terra – não tão irados quando os dinossauros, mas bem melhores do que os pássaros preguiçosos, que nem conseguiam mais voar.

A diversificação dos mamíferos foi favorecida pela posição dos continentes, que a essa altura tinha se espalhado e se transformado mais ou menos no que conhecemos hoje. Durante parte da era dos dinossauros, havia apenas uma enorme massa de terra, o ultracontinente conhecido como Pangeia (“Toda-Terra”), que tornou as primeiras Olimpíadas dos dinossauros uma questão bastante unilateral. Eles depois se dividiram naqueles dois continentes de nome psicodélico que já mencionamos, Laurásia e Gondwana. Agora, contudo, graças à invenção das placas tectônicas, os continentes tinham se separado ainda mais e a evolução pôde prosseguir livre, leve e solta nas regiões mais segregadas desse admirável mundo novo. Com as formas de vida no mundo ficando cada vez mais diferentes, até mesmo animais flagrantemente ridículos como o emu encontraram um lugar ao sol para descansar o esqueleto.

No entanto nem tudo correu às mil maravilhas para os mamíferos, já que pequenos transtornos secundários como as idades do gelo contribuíam para extinguir espécies em intervalos regulares. O último deles ocorreu no período conhecido como Pleistoceno, que por acaso é a única época da história da Terra em que as crianças devem ser advertidas para não colocar a mão na boca. São fósseis demais! Já pensou quantos milhares de partículas pré-cambrianas e dinossáuricas, entre outras coisas jurássicas e mesozoicas, poderiam existir num reles micrograma de poeira pleistocena? Essa época durou de 1,6 milhão a 10 mil anos atrás, embora também tenha sido entremeada por períodos interglaciais, quando os lençóis de gelo recuavam. Alguns geólogos afirmam que nós estamos vivendo em uma era interglacial, citando como prova os lençóis de gelo que ainda cobrem a Groenlândia e a Antártica. Eles advertem que um dia, no futuro, as geleiras poderão voltar de uma maneira dramática e destrutiva, a não ser que a humanidade trabalhe em conjunto, borrifando aerossóis, queimando combustíveis fósseis e incentivando o gado a peidar incontrolavelmente.

Fonte:

REAR, Dave; História do Mundo sem as Partes Chatas. São Paulo: Cultrix, 2013; págs. 21 a 29.
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Notas:
1.      Ainda considerada uma iguaria no Japão, China e Sudeste Asiático.
2.     Receberam esses nomes nos anos 1960, época das drogas psicodélicas Coisa de cientistas com a pegada hippie, no velho estilo sexo, drogas e rock’n’roll.
3.      Ou uma criatura bem grandalhona, talvez.
4.     Sem sucesso, é claro, porque tentar impressionar uma mulher com um “bichinho de estimação” de cinco metros de altura e mais de doze metros de comprimento só pode ser uma coisa de nerd sem noção, ao estilo dos personagens do seriado The Big Bang Theory.

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