domingo, 8 de dezembro de 2013

INVEJA E CALÚNIA NAS RELAÇÕES HUMANAS

Por Tania Azevedo Garcia (07/12/2013)

Segundo narrativa apresentada em Gênesis, o primeiro livro bíblico, Adão e Eva tiveram dois filhos. Caim, o mais velho, tornou-se um lavrador e o mais novo, Abel, pastor de ovelhas. Certa ocasião, como oferendas a Deus, Caim apresentou o fruto de sua terra e Abel, uma das ovelhas de seu rebanho. Deus agradou somente da oferta de Abel, deixando Caim enfurecido. Tomado pela inveja, Caim convida Abel ao campo e assassina seu irmão.

Apeles, pintor grego, acusado de um crime que não cometeu, utiliza como recurso de defesa, um quadro: “A Calúnia”.

Impressionados pela expressão das figuras presentes na obra do artista, os juízes o absolvem. Da arte de Apeles, não há vestígios. Entretanto, no século XV, tendo por referência os escritos de Luciano de Samosata, Boticelli reproduz a obra perdida do artista grego, com a pintura “A Calúnia de Apeles”.  Na sociedade italiana em que viveu Boticelli, a calúnia e a inveja eram temas recorrentes.

As narrações acima não possuem correlação histórica. Elas apenas ilustram um sentimento e um comportamento tão antigos quanto à história da humanidade e muito presentes nos tempos atuais.

Mas o que são e como ocorrem?

A inveja é um sentimento que só os outros têm. “Eu nunca tive inveja de ninguém”. Negada nos círculos sociais, ela expressa a frustração que sentimos por nós mesmos. Tornamo-nos intolerantes por nos percebermos menores que os outros. Mas não podemos assumir que somos ou nos sentimos inferiores. Consequentemente, negamos sua existência. Contudo, a negação não nos impede de atuar. Caim matou Abel, mas existem outras formas de excluirmos aqueles dos quais sentimos inveja. Uma delas é a calúnia.

Filha da inveja, a calúnia possui a arte de se manifestar sem que o caluniador seja identificado. Geralmente revestida de um pouco de verdade, ela se espalha facilmente, com alcance impressionante. Como descreve a nobre francesa, Diane Poitiers: “a calúnia é como uma moeda falsa: muitos que não gostariam de a ter emitido fazem-na circular sem escrúpulos”.  Através dela, o invejoso desonra, exclui, “mata” o objeto de sua frustração.

Relações humanas que envolvem riqueza e poder são campos férteis para o surgimento da inveja e da calúnia. A história da humanidade está repleta de eventos. Nenhum contexto está livre. Nas famílias, nas igrejas, na política. “Vivendo por transmissão, a calúnia se aloja onde encontra terreno fértil”, alude Shakespeare em “A Comédia dos Erros”. Na atualidade, inveja e calúnia emergem com alta incidência, especialmente nos ambientes mais competitivos, como nas organizações.

Em virtude da necessidade de aumento de produção, muitas empresas estimulam a competitividade entre aqueles que, em tese, deveriam cooperar entre si: seus profissionais. No império do sucesso, o fracasso é censurado. Todos devem demonstrar competência, satisfação e, especialmente, felicidade. Demonstrar inveja é atestar que somos incompetentes, menores, fracassados. Assim, não assumimos o sentimento que, na maioria das vezes, é inconsciente.

Dificilmente, mas não impossível, veremos alguém matar outro numa organização, como fez Caim a Abel, por causa da inveja. Não havendo espaço para todos, pois essa é a lógica do capitalismo selvagem, a calúnia se torna, então, uma arma para destruir aqueles que podem galgar postos mais elevados; aqueles que têm ou parecem ter mais competência; ou, que demonstram ser mais felizes.

Quanto mais competitivo e agressivo é um ambiente de trabalho, maior probabilidade de ocorrência da inveja e da calúnia. Esta pode ser promovida com maestria até pelo “inocente”, aquele que a maioria acredita ser o mais confiável, puro e ingênuo, incapaz de participar de ato tão infame.

Retomando Gênesis, ao perceber a frustração de Caim, por sua oferta ter sido preterida, Javé diz: “por que estás irritado e com o rosto abatido? Se fizeres o bem, não andarás de cabeça erguida? Mas se não fizeres o bem, o pecado está à espreita diante de tua porta; ele se esforça para conquistar-te, mas tu deves dominá-lo”.

Do ponto de vista individual, tomar consciência de sentimentos e emoções que nos movem de forma tão espontânea e natural, como a inveja, talvez seja um caminho para evitarmos atos antiéticos como a calúnia. Quanto às organizações…

Referências

        BÍBLIA Sagrada de Aparecida: São Paulo: Ed. Santuário, 2010. Gênesis, cap. 4.
        Garcia, Ely Bonini. Antropologia da alegoria da calúnia. BH: Artear Editora, 2010.
        Tomei, Patrícia Amélia.  Inveja nas organizações.  São Paulo: Makron Books, 1994.
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Fonte deste e de outros textos da autora: http://saladecultura.wordpress.com/2013/12/07/inveja-e-calunia-nas-relacoes-humanas/; acessado em  08/12/2013. 
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Segundo Ovídio, a Inveja (do lat. invidia = “olhar torto”) mora em uma casa “toda manchada de negra peçonha, escondida em um vale, privada do sol; nenhum vento ali sopra; imperam a tristeza, o frio intenso, e a escuridão, com o fogo sempre ausente”; alimenta-se de carne de víboras; tem “o corpo descarnado, seu olhar não se fixa em coisa alguma, os dentes são cobertos de sarro, o peito esverdeado pela bílis, a língua empapada de veneno. Não ri, a não ser quando a diverte o espetáculo de um sofrimento; não dorme, pois as preocupações a mantêm em vigília, mas assiste aos sucessos dos homens, desespera-se, e esse desespero é o seu suplício”. (As Metamorfoses – Livro II: Aglaura. Rio de Janeiro: Ediouro, 1983; pág. 45)

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