quarta-feira, 4 de dezembro de 2013


VOCÊ GOSTA DE LER?

 Por Tania Azevedo Garcia

minhas tardes com margueritte 2
Na sociedade midiática que vivemos, parece que a leitura se tornou um hábito menos apreciado. Alguns pesquisadores discordam da afirmação, haja vista a quantidade de novos livros publicados no Brasil nos últimos anos. Particularmente, acredito que muitas pessoas não desenvolveram o prazer pela arte, porque não foram suficiente ou adequadamente estimuladas em suas vidas. O filme francês, “Minhas tardes com Margueritte”, endossa essa reflexão.
Germain Chazes, interpretado por Gérard Depardieu, é um feirante cinquentão, rústico e mal-educado. É semianalfabeto ou, como  costumamos dizer na academia, analfabeto funcional, aquele que, mesmo capaz de decodificar as letras e frases, não é suficientemente hábil para interpretar textos. Durante as tardes de folga,ele frequenta uma pracinha em sua cidade e faz amizade com uma idosa de 90 anos,Margueritte. Brilhantemente interpretada por Gisèle Casadesus, a velha senhora é uma médica aposentada, culta e inteligente. Uma aproximação inusitada, devido às diferenças de idade, cultura e classe social.
A afeição entre os protagonistas surge de forma espontânea. Eles conversam sobre os pombos que pousam na praça e, sem um propósito explícito, ela pergunta: “você gosta de ler?”. E, assim, passam as tardes. Ela lendo em voz alta para ele. A ternura e a delicadeza de Margueritte são propulsoras para o despertar daquele homem ignorante para os livros.
Em cenas de flash back, o filme sugere que a dificuldade de Germain para a leitura teria como causas as críticas e deboches que sofreu na escola e em casa durante a infância.  A despeito da experiência de bullying e da rejeição familiar, o personagem demonstra afeto, gentileza e carisma. Tem amigos, uma bela namorada e grande popularidade entre os vizinhos.
Como imaginar que um homem simples iria se interessar pela literatura? Em determinado momento, bebendo com os amigos no bar, Germain cita Albert Camus. E um dos colegas comenta, com ar desconfiado: “você leu Camus?”. Ele responde: “Só alguma coisa: A Queda, A Peste, O Estrangeiro”. A cena é hilária! Aliás, o carismático e excelente ator Gerárd Depardieu torna o que seria um drama, uma deliciosa comédia.  A situação em destaque denota o quanto o protagonista se sente importante demonstrando ser mais culto. Guardadas as devidas proporções, o diálogo remete à citação do filósofo, poeta e naturalista americano Henry Thoreau, que viveu no séc. XIX : “muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a partir da leitura de um livro”.
A leitura, mais do que desenvolver a capacidade de compreensão de textos e enunciados e melhorar a fluência verbal e escrita, amplia os horizontes, expande a capacidade de percepção da realidade e possibilita uma nova visão de mundo. Consequentemente, torna as pessoas mais interessantes. O filme do diretor Jean Becker pode ser um bom começo. Se não for, vale pela diversão.
Referências
Minhas tardes com Margueritte.Direção: Jean Becker: Imovision, 2010. DVD (82 min)
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Veja outros textos da Tânia Garcia em http://saladecultura.wordpress.com/

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