quarta-feira, 30 de abril de 2014

Superação!

Um curta com Nick Vujicic que ilustra bem a capacidade de superação de quem acredita em seu próprio potencial:



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terça-feira, 8 de abril de 2014

O guardador de rebanhos

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)


Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.


Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem


E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz


E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.



A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.


Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
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Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.


A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos a dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.


Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.


Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade



Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.


Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos,
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
.................................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu no colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
....................................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus,
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


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Maria Bethânia declamando Fernando Pessoa (imperdível!): 

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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Erros podem ser bons caminhos para o sucesso


                                José Lourenço de Sousa Neto

A busca por desempenho e resultados positivos, se possível melhores a cada dia, é preocupação constante da maioria das pessoas – pelo menos daquelas com funcionamento saudável. Para isso, alternativas e possibilidades são buscadas. É preciso agregar ao que se tinha antes, para o subsistema pessoal evoluir, incentivando-se e contribuindo com o contexto do qual faz parte. Assim, tudo tende para uma situação cada vez mais complexa, mesmo na simplicidade, dentro do que lhe é próprio e em harmonia com essa relação sistêmica em que tudo se conecta. Um organismo bem-sucedido atende ao que se espera dele, preenchendo, justificando seu lugar no mundo e evoluindo constantemente para um determinado fim.

Carl Rogers, o grande psicólogo humanista, observando que brotos de batatas, armazenadas num porão, buscavam naturalmente a luz solar, retorcendo seus caules na direção de aberturas por onde penetravam raios de sol, transpôs esse fenômeno, chamado de heliotropismo, para o ser humano. Concluiu que cada pessoa tem uma tendência natural para a realização do potencial pleno. Em situações naturais, cada um evolui, atualizando-se (no sentido de tornar ato o que é potência) constantemente  para uma posição de funcionamento pleno, onde pode ser feliz – a realização desse potencial é o sucesso do organismo enquanto tal. Desvios do caminho ou qualquer impedimento desse progresso levam a adoecimentos psíquicos ou físicos (somatizações) de diversas naturezas.

Até aqui, nenhum problema. É da natureza. O bicho pega quando se confunde sucesso com “dar-se bem na vida”, preenchendo um papel fantasioso, ditado pelo consumismo, modismo ou busca de status, que nada tem a ver com a demanda íntima por uma evolução do ser. Alimentando o aparente, a exterioridade, o indivíduo perde contato com o interior e se desvia da sua essência.

A busca desesperada por esse sucesso equivocado pode levar o indivíduo ao anseio de acertar sempre. A cada acerto, pode julgar-se melhor e mais capacitado do que realmente é. E, em contrapartida, cada erro pode jogá-lo num inferno mental, levando-o a considerar-se um caso perdido, um incompetente, num juízo negativo extremo, mas irreal tanto quanto o outro.  Numa direção, pode desenvolver crenças e pensamentos automáticos de um funcionamento ótimo. Noutra, de forma semelhante, ocorrem as crenças e pensamentos automáticos de ser um fracasso, que nada faz de correto.  As duas situações vão exigir da pessoa uma análise do modo de pensar para encontrar evidências que as confirmem ou derrubem, a fim de desmontar esquemas equivocados e adotar a postura mental mais saudável e adequada à realidade.

O anseio pelo sucesso mundano a todo custo pode levar à autoimagem mítica de supereficiência e repúdio ao erro e ao fracasso. É sabido, vários pensadores e filósofos da ciência exploraram esse tema, que todo avanço é uma somatória de erros e acertos. Não se acerta ou se erra sempre. O próprio erro, uma vez refletido e analisado, acaba sendo fator inovador, impulsionando o progresso.

Errar e acertar são da nossa natureza. Se tomarmos os dois casos como as margens de uma estrada por onde caminhamos, vamos perceber que, ao acertar, aproximamo-nos da margem do erro, porque não vamos acertar sempre. Da mesma forma, errando, aproximamo-nos do acerto, pela mesma razão de que não vamos errar sempre. Estudando igualmente erros e acertos, avançamos rapidamente rumo à realização. O atraso e a demora ao longo do caminho devem-se à comemoração exagerada dos acertos ou à execração injustificada dos erros, sem a necessária e proveitosa reflexão sobre um e outro. Desvalorizar e tentar esconder erros e fracassos e, de certa forma, supervalorizar os casos de êxito, levam o indivíduo a perder excelentes oportunidades de aprendizado.

O esforço é grande, mas necessário. Aprender com os próprios erros é combustível valioso demais para ser deixado de lado. Ao perceber isso, passamos a valorizar os insucessos tanto quanto os sucessos. Não seremos mais abatidos por aqueles. Nossa tristeza, quando acontecerem os tombos, terá a medida justa para cuidar da ferida, tomar a lição e seguir em frente. Deixar-se ficar, numa postura de autopiedade ou de vítima do cruel destino, nada acrescenta. No outro sentido, como os heróis da mitologia grega, saber-se investido de um mandato a ser cumprido, com e apesar de todos os percalços do caminho, torna a pessoa cada vez mais apta e competente, desenvolvendo  resiliência. É nesse embate de forças aparentemente (e reforço esse aparentemente) antagônicas, nesse encontro do cinzel com a pedra, que se forja o herói.

De onde vem essa presunção de nunca errar, esse repúdio contraproducente ao fracasso? Provavelmente da vaidade de se exibir no mundo como um ser maior do que é. Da pretensão de preencher um molde que não lhe é próprio e parecer grandioso aos olhos de uma plateia ingênua e inconsciente, porque composta da mesma categoria de indivíduos. Oscar Wilde, em O retrato de Dorian Gray, deixou-nos uma metáfora perfeita para isso. Dorian Gray, o herói da história, aparecia, aos olhos da sociedade, pleno de beleza física, jovialidade e sucesso, enquanto seu retrato, que era, de fato, sua verdadeira essência, envelhecia e se tornava uma monstruosidade.

Como quebrar esse círculo vicioso? Karl Popper, filósofo da ciência, dizia que todo projeto humano que visa apenas ao acerto e à evitação do erro a todo custo tende a ser um projeto pobre, limitado e pouco ou nada inovador. Projetos realmente originais e criativos admitem os erros como algo decisivo, com os quais se aprende tanto quanto com os acertos. Erros podem ser professores ainda melhores que os acertos, dependendo de como os enfocamos.

Não há como não errar. Para isso seria preciso nada fazer, nem tentar. Mas isso, em si, já é um erro. Tal como a “não escolha” já é uma escolha. Estamos condenados à liberdade, pontuaria Sartre. Então sejamos sensatos – é o que se espera. Aprendamos com os erros para caminharmos mais assertivamente.

Causas de erro, encontramos por toda parte, mas especialmente em nossa própria mente. O desejo irreal de tudo controlar e sempre acertar é nosso grande inimigo. Elaboramos crenças negativas, como já vimos, que exigirão esforço para serem desmontadas. Elaboramos a armadilha dos esquemas na qual nos prendemos. Energia e tempo serão necessários para desarmá-la.

Entre os fatores que podem tornar o indivíduo mais humilde e, ao mesmo tempo, mais ativo em favor da própria construção, estão a coragem para acolher o que vier, sem se achar um semideus, com amplos poderes e capacidade de controle; a sensibilidade de ver-se como elemento de um processo maior ou, se preferir, um subsistema dentro de um sistema mais amplo e complexo e, sobretudo, a autovisão de detentor de um mandato e de possibilidades únicas e um ser necessário para a harmonia geral. Aprender com erros e acertos é inevitável na atualização do ser e na realização das possibilidades individuais.

Questionando nossos pensamentos, buscando evidências que desmontem ou confirmem nossas crenças, mantendo-nos vigilantes em relação aos nossos pensamentos automáticos, acautelando-nos contra esquemas escravizantes e aprendendo a dialogar, ouvir e trocar ideias com os outros, numa interação que deve somar, mas não prender, são recursos valiosos para escapar da ilusão do sucesso perene e valorizar devidamente os erros.

Fernando Pessoa endossaria: “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”.


Belo Horizonte, 07/abril/2014
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