quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Se você estuda ou trabalha com Gestão do Conhecimento, estou disponibilizando, sem qualquer ônus – exceto o trabalho de pegar comigo – 7 cadernos de texto com centenas de artigos sobre o tema, coletados durante minha vida acadêmica.

Se lhe interessa, mande um e-mail para lourenco@jlourenconeto.com.br, e bom proveito com os artigos.


José Lourenço

Autoconhecimento e carreira
José Lourenço de Sousa Neto

Autoconhecimento é fundamental para ter vida e carreira bem sucedidas. Sem se conhecer, como o indivíduo pode saber o que quer e o que o faz feliz? Se não sabe dos próprios recursos, como enxergar até onde pode ir? A partir de que ponto precisa buscar parcerias e novos aprendizados e ferramentas? Desconhecendo seus limites, ele pode comprometer seu crescimento pessoal e profissional. Muita gente fala que quer ser feliz e ter sucesso, mas não sabe dizer com clareza o que seja uma coisa ou outra.

O autoconhecimento é demandado desde o início, quando a pessoa começa a definir que rumo quer dar à sua vida. Da escolha da profissão, ao estabelecimento de metas que pretende atingir – no planejamento estratégico pessoal. Durante a caminhada, quando for necessário rever o plano e corrigir rumos, a auto percepção será determinante.

Conhecer suas competências e habilidades, entender o que o motiva ou bloqueia, é fundamental na hora de avaliar os desafios e traçar estratégias de enfrentamento. Com isso, a pessoa usa melhor o potencial que tem e reserva energias para manter-se produtivo por mais tempo. Sem isso, corre o risco de forçar muito na arrancada, ou exagerar em alguns pontos de uma prova longa, comprometendo seu resultado.

Importa saber como comporta tanto o corpo como a mente, para se ter uma avaliação correta das potencialidades e das necessidades – mapeamento de forças e fraquezas. E cabe ao próprio indivíduo cuidar disso, conduzindo seu processo de desenvolvimento, evitando a ilusão de que a empresa ou algum “guru” fará isso por ele. Coaches, mentores, líderes e mesmo a organização, a família e os amigos, podem ser aliados valiosos, desde que saiba o que buscar deles. Caso contrário, podem acabar prejudicando, com o jogo de palpites, opiniões, diretivas, que podem desviar do rumo ou tirar o foco. Não tem como ser diferente – apenas o indivíduo, e só ele, pode saber da “dor e do prazer de ser o que se é”.

Existem vários caminhos para o autoconhecimento. Abaixo apresentamos algumas sugestões.

  Meditação – cada vez mais citada hoje em dia, a meditação permite um mergulho interior que traz, com a prática disciplinada, uma profunda abordagem pessoal, com iluminação de pontos sombrios, e às vezes inusitados, da própria mente. E inúmeros outros benefícios, especialmente na saúde geral, como a ciência começa a descobrir.

   Diário – o hábito de escrever um “diário de bordo”, como alguns gostam de chamar as anotações pessoais feitas todo final de jornada, é muito útil. Ao se dar um tempo para pensar como foi seu dia, o que cumpriu da agenda e o que foi postergado, experiências novas e, principalmente, emoções experimentadas, a pessoa descobre-se um pouco mais. É importante a anotação, porque a memória não é confiável. Ao reler os registros, pode-se aprofundar mais no autoconhecimento. A sinceridade e a franqueza consigo, nesse exercício, é fundamental para que o indivíduo não caia na armadilha do elogio próprio, iludindo-se com os confetes do louvor autoconcedido.

  Foco no corpo – as sensações corporais podem revelar muito mais do que se imagina. Ao sentir uma ligeira dor de cabeça, a pessoa recorre logo a um analgésico. Perde uma chance valiosa de aprender alguma coisa sobre si. Todo desconforto, psicológico ou físico, tem sua razão de ser. Deve-se dialogar com o incômodo: por que ele está acontecendo? Qual sua causa? Quais os possíveis desdobramentos? O que, em síntese, pode ser aprendido com ele?

Alguém já disse que “não basta sofrer. É preciso saber sofrer”. Não aprender a lição da dor é candidatar-se a repeti-la.

  Sair do automático – “quando descasco uma laranja, eu descasco uma laranja” (de um mestre budista). Essa fala, que pode parecer de uma obviedade torturante para os apressadinhos, remete à nossa maneira corriqueira de pensar e agir. Enquanto descascamos uma laranja, nossa mente vagueia por inúmeros outros lugares; nosso cérebro ferve com pensamentos que nada têm a ver com o que estamos fazendo. O convite, aqui é para que prestemos atenção no que estamos fazendo, como estamos fazendo, no propósito da ação. E permitir-se sentir a experiência – o tato, o odor, a visão, etc. Isso abre espaço de aprendizado onde o automatismo tinha jogado suas sombras, levando a pessoa a dar-se conta do que faz, como e porque faz.

  Questionamento constante – checar sempre a maneira como faz as coisas, questionando a validade de velhos fundamentos, e verificar se não há forma melhor de fazer, leva o indivíduo a “sair da caixa” e a desenvolver espírito inovador. Não se inova apenas em grandes realizações. Isso é raridade. Pequenas melhorias, acumuladas tarefa a tarefa, dia a dia, causam, depois de algum tempo, verdadeiros tsunamis no cotidiano. O pessoal da área da ciência que o diga. Além desse processo de “melhoria contínua”, a pessoa mapeia-se mais um pouco a cada auto arguição.

 Cursos e treinamentos – como PNL, liderança pessoal, específicos de autoconhecimento, entre outros, também podem ajudar muito.

As sugestões acima são apenas exemplos do que cada pessoa pode fazer, desde que se disponha ao autoconhecimento.
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Veja o que alguns empresários, que também são desportistas dedicados, dizem sobre o autoconhecimento advindo do esporte que praticam:

   “Ligado o tempo todo” e capacidade de planejamento; agilidade nas decisões. – (Luiz Augusto Milano, Matec Engenharia; bicicleta).

  “Aprendi a ser responsável pelos meus resultados. Tenho de ter disciplina, ir atrás, ser protagonista. Você precisa saber o que conhece para saber aonde pode chegar. Você precisa construir seu resultado dia após dia.” – (Pedro Chiamulera, ClearSale; corrida).

  “Toda vez que entro no mar, tenho receio. Mas uma coisa é chegar com medo e despreparado. O importante é não arriscar demais. O limite é esse.” – (Roberto Cantoni Rosa, UM Investimentos; surf).

   “O importante é entender até onde posso ir. Só assim encontro o caminho e consigo fazer o melhor planejamento. Se não faço isso, não consigo ter desafios maiores. Aprendi a olhar para todos os lados, analisar profundamente. Se você quer ter sucesso, comece por onde já conhece. Só depois faça o que não tem costume. A experiência – e saber ir devagar, no tempo certo – é fórmula para chegar ao final com um bom resultado.” – (Andrea Guasti, Cisa Trading; alpinismo).

(Artigo baseado na reportagem “Qual é o seu limite” – Lucas Rossi, revista Você S/A – ed. 186, nov/2013).
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Ouça o que fala Diego Martins, da Acesso Digital (http://www2.acessodigital.com.br/), sobre autoconhecimento (entre outros assuntos), em entrevista a Milton Jung, da CBN è http://cbn.globoradio.globo.com/boletins/cbn-young-professional/CBN-YOUNG-PROFESSIONAL.htm.
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quarta-feira, 12 de outubro de 2016


Por que tanta tolerância com maus profissionais?
José Lourenço de Sousa Neto

É curioso, para não dizer penoso,  ver o quanto de esforço, tempo, dinheiro, criatividade, etc., as empresas gastam para transmitirem imagem de eficiência e, ao mesmo tempo, põem tudo a perder mantendo profissionais inadequados em seus quadros.
Custa muito conquistar um cliente. O esforço seguinte, para mantê-lo dentro de casa, é uma batalha diária. Conseguir sua fidelidade e fazer com que repita seus pedidos, são proezas que merecem comemoração. E nessa luta, empresários e gestores não poupam suas melhores energias e despendem um bom dinheiro. E, focados apenas num lado do processo, se dão por felizes e merecedores dos melhores resultados... que não vêm!
Desatentos com o outro lado dessa moeda, os gerentes esquecem que seus planos e idéias deverão ser implementados pelas pessoas que compõem o time. E quanto maior o desafio, quanto melhor o plano, quanto mais sofisticada e cara a estratégia, mais competentes têm que ser essas pessoas. Não há como executar uma jogada sensacional – no papel – sem bons atletas – em campo. Se os funcionários não acompanham a montagem do planejamento, não vão realizá-lo. Por acompanhar refiro-me não só à participação possível na elaboração, mas também no sentido de se comprometerem com ele, darem seu aval e nele se empenharem. E esse descasamento entre “jogada” e “jogadores” pode-se dar por despreparo dos jogadores – inadequação de perfil e treinamento, recrutamento mal feito, falha na comunicação da empresa ou desinteresse das próprias pessoas – “corpo mole”, para usarmos outra metáfora do futebol.
Explorando melhor essa situação, cabe perguntar por quê isso ocorre. Se empresários e gerentes não se poupam, nem ao dinheiro da empresa, no planejamento e organização, por que falham tão lastimavelmente convivendo com pessoas que não condizem com o esperado delas? Se erraram na contratação, por que não reparam via treinamento? Se o treinamento não funcionou, por que não tentam via coaching (já que está na moda), com orientação e acompanhamento individualizado? Se, ao final, nada dá certo, por que mantêm essas maçãs podres no cesto?
Uma possível resposta para a tolerância com maus profissionais, seja a própria incompetência de quem gerencia. Por não estarem preparados para a função, ou por não se sentirem seguros o suficiente, muitos gerentes optam por conviver com pessoas medíocres, que não lhes farão sombra. Ou que possam dominar mais facilmente.
Essa afirmação pode causar certa repulsa a algumas pessoas. Mas uma observação mais criteriosa permitirá identificar, com muita facilidade, esses gerentes despreparados. Na verdade, eles são muito mais numerosos do que se pensa.
Cercar-se de pessoas competentes demanda coragem e disposição para o trabalho. O técnico de um time de azes terá que se movimentar muito mais, para atender ao anseio das pessoas. Não precisa ser um atleta, como os membros da equipe, mas deverá atender às necessidades do grupo, para que ele possa produzir o máximo que seu potencial permite. Fala-se muito do “líder servidor”, e é aqui onde ele é demandado mais claramente – comandar um grupo de pessoas melhores do que ele, nas atividades individuais. Seu papel será o do facilitador, removendo obstáculos e promovendo, na medida do possível, ações que permitam a cada jogador encontrar sua própria motivação.
No ambiente empresarial, especialmente, sofrerá pressão constante por parte daqueles que querem ascensão profissional – ele pode estar sendo um obstáculo no caminho destes. Acaba sendo mais fácil, para quem não tem a coragem e determinação suficiente, montar a equipe com pessoas mais fracas do que ele próprio, mas que não lhe darão dor de cabeça.
Isso, entretanto, não perdura. Mas é assunto para outro momento.
Existem, evidentemente, as pessoas que não se adequam às demandas do trabalho e que devem ser afastadas. Mas todo gerente, antes de criticar sua equipe, deveria pensar que estará falando, antes de mais nada, de si mesmo. Ao afirmar que seu time é “um bando de incompetentes”, está assumindo que ele próprio é “um gerente incompetente”; se disser que tem “uma equipe de primeira”, é porque ele, talvez, seja “um chefe de primeira” – pelo menos terá o mérito de ter montado ou estar mantendo o grupo coeso.
Existem, evidentemente, exceções. Muitos gerentes, especialmente de órgãos públicos, reclamam da impossibilidade de trocar, como gostariam, seu pessoal, eliminando os fracos e atraindo os melhores. Sem desconsiderar essa realidade, cabe questionar por que ele convive com essa situação. A própria acomodação do chefe, muitas vezes por causa da estabilidade que o emprego oferece, contribui para a manutenção do problema. Não se pode abdicar da própria responsabilidade – a omissão pode ser tão danosa quanto a ação que se condena...
É triste ver o quanto de esforços e recursos são jogados no lixo, pela postura inadequada de um funcionário – e do seu chefe omisso. Um vendedor mal humorado prejudica o visual maravilhoso da loja e torna mentiroso todo comercial que prega o respeito do estabelecimento pelo cliente. Um operador de telemarketing, ou call-center, desatento, desinteressado e grosseiro, joga no lixo todo o investimento em tecnologia e instalações. O funcionário que não se conscientiza de que motivação é algo inerente à pessoa, que vem de dentro, e não algo que a empresa provê, como se fosse responsabilidade dela, como é fornecer móveis e equipamentos adequados, vai se tornar num foco pernicioso de reclamações e reivindicações inconvenientes, inadequadas e inoportunas. E, como a maçã podre a que nos referimos, acabará por contaminar os outros colegas, seja pelo mau exemplo que dá, seja pela leniência da empresa para lidar com tais situações. E quem responde por ele é, na verdade, fiador, avalista de sua conduta!
É importante considerar que essas pessoas estão ocupando o lugar de outras, mais competentes, que andam à busca de oportunidade de trabalho.

Todo gerente e empresário tem que estar atento a isto. Não vale a pena conviver com maus funcionários. É perda certa para a empresa e injustiça para com aqueles outros, mais sérios, capazes e desejosos por contribuírem, em troca de um salário justo.
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segunda-feira, 30 de maio de 2016


Uma leitura imperdível! 
Chega a ser assustador, mas a prosa do autor é deliciosa e suas abordagens, sobre a história até aqui, e as especulações (muito bem fundamentadas) sobre possibilidades futuras, são, no mínimo, instigantes.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

Notoriedade
Joanna de Ângelis

Disputa-se muito, na sociedade, a conquista da fama, o privilégio do destaque, a notoriedade.

Façanhas de todo porte são apresentadas no cenário humano, de modo que chamem a atenção para as suas personagens. Quando não se dá a conquista através dos lances de enobrecimento e elevação, derrapa-se no escândalo, na vulgaridade, desde que o empenho produza os frutos da popularidade.

Criou-se mesmo um brocardo que afirma a necessidade de notoriedade, quando se propõe: "Que falem mal de mim, mas, que falem..."

A ânsia por notoriedade permite que os caracteres mais frágeis, a fim de alcançá-la, transitem pelos caminhos escabrosos, vivam em estado de promiscuidade moral, desde que esse contributo venal, tal concessão lamentável, sirva para lograr a meta.

Passada, no entanto, a excitação da notoriedade, o cansaço se instala no indivíduo, levando-o ao tédio, após vividas as sensações mais fortes, que exigem outras novas e desgastantes, sempre efêmeras.

Por outro lado, há a notoriedade natural, alcançada pelo trabalho, mediante o sacrifício, como resultado do altruísmo e da sabedoria.

As artes e as ciências, as religiões e as filosofias, a ética e todos os empreendimentos humanos relevantes, ergueram à notoriedade homens e mulheres que passaram a ser símbolos dignos de seguidos pelas demais criaturas.

A sua trajetória, todavia, deu-se mediante pesadas renúncias e eloquentes sacrifícios.

Alguns desses indivíduos notáveis teriam gostado do anonimato, da vida pacata ou ativa, sem as exigências que a glória terrena impõe, sem a perda de tempo que a notoriedade propicia.

Quase todos aqueles que cercam os vitoriosos tendem a asfixiá-los, olvidando-se que esses são seres humanos normais e necessitam respirar, descer do pódio, viver. Exigem-lhes a mesma postura, o habitual e constante momento de relevo, a notoriedade refletida sempre no comportamento de todas as horas. Negam-lhes o direito de viver simplesmente.

O grande físico Albert Einstein, amargurado com o uso que foi feito do átomo, após o lançamento das bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, escreveu que desejava ter sido um bombeiro-encanador anônimo, a, mesmo que inconscientemente, ter contribuído para o êxito do Projeto Manhattan, que culminaria na destruição de milhares de vidas e daquelas duas cidades.

Pasteur escondia-se dos admiradores, a fim de poder prosseguir nas suas pesquisas.

Madame Curie sofreu tanto assédio dos fãs que, não suportando mais, pediu-lhes que a deixassem trabalhar.

Heifetz, o insigne violinista, quando alguém lhe disse que daria a vida para tocar como ele, redarguiu com calma: - Foi exatamente isto que eu fiz: dei toda a minha vida à arte do violino...

O Cura d'Ars via-se constrangido a repreender os insensatos que o queriam adorar em vida.

A galeria é vasta e expressiva, daqueles que teriam preferido o serviço anônimo, de modo a passarem despercebidos.

Mesmo Jesus, sempre que operava os admiráveis fenômenos de socorro à multidão, fugia-lhe do convívio, a fim de ficar a sós com Deus...

A notoriedade, pelo que tem de belo e grandioso, também se expressa como grave e de alta responsabilidade. Favorece o orgulho e fomenta a presunção dos fracos, que derrapam na prosápia e no culto da personalidade, assim entorpecendo os sentimentos nobres e turbando a claridade da consciência do bem e do dever.

Nem positiva ou negativa a notoriedade, para quem deseja, realmente, servir e encontrar a paz.

O silêncio, a discrição e a perseverança no ideal, na ação digna, constituem o aval de segurança para o êxito e o melhor antídoto para os venenos perigosos que destroem as criaturas humanas. 

Se te vês convidado a uma situação de fama e notoriedade, resguarda-te na prece e vigia as nascentes do coração, a fim de permaneceres inatingido pelo mal que dorme em ti próprio.
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[Cap. 19, da obra Momentos de Harmonia; psicografia de Divaldo P. Franco. Salvador/BA – Livraria Espírita Alvorada Ltda. – LEAL; 1992])

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domingo, 10 de abril de 2016


No tempo do livro - João Ubaldo Ribeiro

Quem me conhece sabe da minha compulsão por livros, mas talvez desconheça que esse vício (vício?!) se estenda também a revistas, jornais e... recortes. Centenas, milhares deles, espalhados pelo apartamento. Em gavetas, caixas de papelão, arquivos, prateleiras, dentro de livros. Amarelados pelo tempo, craquelados, semidestruídos – alguns quase se desmancham numa infinidade de “caquinhos” de papel ressecado, só de serem tocados. E o cheiro insuportável de poeira – poeira do tempo, argh!

Volta e meia resolvo fazer uma limpeza e botar toda essa tranqueira fora. Mas aí caio na armadilha de “dar uma relida”, antes de decidir. E se ponho no lixo um ou outro papel, volto para a caixa 999 outros...

Hoje foi um desses dias e acabei me deparando (reencontrando?) com a crônica abaixo, do João Ubaldo Ribeiro.

Ao reler essa crônica, o prazer de desfrutar uma prosa deliciosa veio misturado com uma pontinha de tristeza multifacetada: saudade das leituras intermináveis. Ubaldo cita Monteiro Lobato, Dom Quixote, Beau Geste, Tarzan... – ouso acrescentar Karl May – Winnetou e tantos outros livros -; a saudosa coleção Jabuti (refiro-me aos livros de capa listrada, em edição barata da Saraiva, da década de 1960); Alexandre Dumas, pai e filho (quem se lembra d’Os Irmãos Corsos, d’A Tulipa negra?); Júlio Verne; a coleção Argonauta, de ficção científica (onde minha geração fez contato com autores como Arthur Clarke, Isac Azimov, Martin Caidin – de Perdidos no Espaço –, e tantos outros); o impagável Tesouro da Juventude... Ah, vamos parar por aqui!

Saudade dos vôos da imaginação, em que caçávamos desde Moby Dick, com Herman Melville, até alienígenas, com H. G. Wells (em A Guerra dos Mundos, tornado famoso com Orson Welles); ou nos batíamos com piratas e bucaneiros de todo tipo, atrás de uma ilha do tesouro perdida em nosso oceano interior.

Mas também uma tristeza com a perspectiva do fim do livro tal como o conhecemos. Mas, muito pior, tristeza com o pouco gosto pela leitura que vemos na galerinha de hoje (há exceções, claro!).

É! Estou virando mesmo um velho carola... Deixo vocês com o texto do João Ubaldo e vou me encolher em algum canto da minha biblioteca. Com certeza, existem bilhões, trilhões, quaclhões (diria Tio Patinhas) de palavrinhas que merecem ser lidas. Os personagens são outros, outros são os autores e temas, mas são sempre livros, deliciosos livros.


No tempo do livro
João Ubaldo Ribeiro

Ah, nem conto a vocês como era, fico com medo de acharem que estou mentindo. Mas sei que não estou, quando lembro o dia começando a se esgueirar por entre as frestas dos grandes janelões do casarão térreo em que morávamos, e eu, menino de oito ou nove anos, pulando afobado da cama, para mais uma vez me embarafustar pelo meio dos livros. Quase febril, ansioso como se o mundo fosse acabar daí a pouco, eu nem sabia com quem ia me encontrar e aonde viajaria, em nova manhã encantada. Não havia problemas para eu me embolar com os livros, porque eles não só estavam junto à minha cama, mas espalhados da cozinha ao banheiro, em estantes para mim altas como torres, algumas das quais tão pejadas que volta e meia estouravam, viravam cachoeiras de papel e vinham abaixo, dando a impressão de que as paredes e o chão se dissolviam em livros.

Problema havia na escolha, porque nenhum deles era proibido por meu pai, a não ser, como muito depois ele me contou, os que ele queria que eu lesse, me escondendo sem saber que tinha caído num ardil. Podia ser mais um volume da coleção de Tarzan que eu já tinha lido praticamente toda e não acabava nunca, porque repetia os favoritos. Não, talvez o Dom Quixote, em dois tomos imponentes que eu mal conseguia sopesar e cheio de palavras portentosas que eu não compreendia e não ousava me esclarecer com o velho, porque já conhecia a resposta.

— Dicionário, jumento bípede - respondia ele. - E copie o verbete para me mostrar depois.

— O que é verbete?

— Dicionário, miolo ralo. E copie esse também.

As gravuras de Gustave Doré que ilustravam as desditas do engenhoso fidalgo, em imagens cheias de sombras e figuras desconhecidas, me metiam medo mas eram irresistíveis e, mesmo sem entender direito o que aquele livro tremendo me contava, eu sempre voltava a ele e muitas vezes me pilhei devaneando em meio a um descampado e diante de cata-ventos, na companhia de um magrelo em seu cavalo ainda mais magro
e de um gordo em seu burrico. Mas eu podia preferir ingressar na Legião Estrangeira, relendo Beau Geste ou Beau Sabreur, que me deixavam com sonhos de me alistar assim que completasse vinte anos, para ir viver entre os lendários tuaregues e conquistar o amor da mais linda princesa do deserto.

Ou podia ir para o Sítio do Picapau Amarelo. Quando Monteiro Lobato, ainda hoje, para mim, um dos maiores escritores de todos os tempos, em qualquer lugar, morreu e seu enterro foi mostrado pela revista O Cruzeiro, demorei muito para acreditar. O sítio continuou a existir, do mesmo jeito que o pó de pirlimpimpim, a viagem ao céu, o saci-pererê e toda a mágica que o grande Lobato criou. Tanto assim que peguei um caderno e comecei a escrever novas aventuras de Narizinho, Emília e Pedrinho, até que meu pai olhou minha produção, disse que estava mal escrita, me chamou de plagiário e me mandou ver no dicionário o que isso queria dizer. Desisti da empreitada, mas persisti em escrever, para desgosto do velho, que até morrer lamentou que eu não fosse tabelião, como ele com toda a razão queria.

Os outros meninos do bairro podiam não morar num mar de livros como eu ou, ainda menos, ter um pai igual ao meu, mas não eram muito diferentes. Jogávamos bola (eu, hoje craque do passado, era fominha), brincávamos de médico com as meninas, fazíamos tudo o que as crianças daquela época podiam fazer, mas todo mundo gostava de ler, porque ler representava a liberdade e a fantasia. Comentávamos nossos heróis, organizávamos empréstimos de livros e gibis e mentíamos esplendidamente, em tertúlias em que acreditávamos nas histórias dos outros, contanto que acreditassem nas nossas - era tudo a verdade de nossas imaginações. A vã memória não distingue mais entre o que eu contava e os outros contavam, mas isso não tem importância. Todos nós, afinal, voávamos com Peter Pan e Sininho e alguns de nós namoraram com a Wendy. Não houve um que não tivesse enfrentado piratas, descido ao fundo do mar, ficado invulnerável a qualquer arma ou invisível à vontade, decifrado códigos secretos, falado todas as línguas e vencido todas as guerras e batalhas. Para isso, não tínhamos mais que os livros, não precisávamos de mais que eles.

Mas isso era naquele tempo. Hoje, como nos informam a toda hora, os livros estão mudando, aperfeiçoam-se cada vez mais. Para ler modernamente, dever-se-á usar um dos muitos leitores eletrônicos que já existem no mercado e que ainda vão surgir. Segundo uma notícia, um desses aparelhos possibilita que seu usuário (não é mais leitor, é usuário) interaja com as chamadas redes sociais na Internet. Suponho que se lê um pedacinho e se manda um comentário via Twitter. Também estarão disponíveis, em breve, livros com trilha sonora e com trechos narrados por voz. Os romances e peças virão com clipes dos cenários descritos pela narrativa, entrevistas com o autor, facilidade em substituir palavras difíceis por sinônimos acessíveis, interatividade com o usuário ("faça seu final, case Romeu com Julieta") - o céu é o limite. Acredito que, em relação a isso, vale uma comparação com o celular, o qual começou como telefone, mas hoje é máquina fotográfica, batedeira de bolos e ferro de passar e desconfio que está substituindo o(a) parceiro(a) sexual. Admirável livro novo, que faz uma maravilha atrás da outra e nem puxa pela imaginação, tudo já vem imaginado para você. Espero que, tão famosamente equipado, o usuário ainda encontre um tempinho para ler.
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Fonte: jornal O Estado de S. Paulo – ed. de domingo/9.maio.2010 – Caderno 2, pág. D4. Também disponível em http://arquivoetc.blogspot.com.br/2010/05/joao-ubaldo-ribeiro-no-tempo-do-livro.html; visualizado em 10.abr.2016.

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quinta-feira, 7 de abril de 2016




"Há quem diga que a felicidade é algo difícil de se conquistar. Não, a felicidade começa quando se permite que a luz penetre na consciência, fazendo de cada um de nós uma pessoa mais preparada para compreender o mundo, procurando aceitar as coisas que não podemos mais mudar em nossas vidas e buscando força para transformar as que podem ser transformadas. A partir daí nascerá a paz no coração, trazendo equilíbrio e maturidade... Com a luz na consciência e a paz no coração, exercemos o poder do amor - que é a própria felicidade!
A felicidade está na simplicidade da própria compreensão da vida." 
- Iran Ibrahim Jacob
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"O amor não é semente.O amor é o semear." 
- Mia Couto

quinta-feira, 24 de março de 2016

Sobre a atual vergonha de ser brasileiro
Volta e meia releio o poema abaixo, do Affonso Romano. Normalmente num intervalo de alguns anos. 
O que dói é que ele está sempre atualizado...




Sobre a atual vergonha de ser brasileiro

Affonso Romano de Sant'Anna


Projeto de Constituição atribuído a Capistrano de Abreu:
Art. 1º. – Todo brasileiro deve ter vergonha na cara.
Parágrafo único:
Revogam-se as disposições em contrário.

Que vergonha, meu Deus! ser brasileiro
e estar crucificado num cruzeiro
erguido num monte de corrupção.

Antes nos matavam de porrada e choque
nas celas da subversão. Agora
nos matam de vergonha e fome
exibindo estatísticas na mão.

Estão zombando de mim. Não acredito.
Debocham a viva voz e por escrito
É abrir jornal, lá vem desgosto.
Cada notícia
                         - é um vídeo-tapa no rosto.

Cada vez é mais difícil ser brasileiro.
Cada vez é mais difícil ser cavalo
desse Exu perverso
                                   - nesse desgovernado terreiro.

Nunca vi tamanho abuso.
Estou confuso, obtuso,
com a razão em parafuso:
a honestidade saiu de moda
a honra caiu de uso.

De hora em hora 
a coisa piora:
arruinado o passado,
comprometido o presente,
vai-se o futuro à penhora.
Me lembra antiga história
daquele índio Atahualpa
ante Pizarro - o invasor,
enchendo de ouro a balança
com a ilusão de o seduzir
e conquistar seu amor.

Este é um país esquisito:
onde o ministro se demite
negando a demissão
e os discursos são inflados
pelos ventos da inflação.
Valei-nos Santo Cabral
nessa avessa calmaria
em forma de recessão
e na tempestade da fome
ensinai-me 
                    - a navegação.

Este é o país do diz e do desdiz,
onde o dito é desmentido
no mesmo instante em que é dito.
Não há linguista e erudito
que apure o sentido inscrito
nesse discurso invertido.

Aqui
              o dito é o não-dito
              e já ninguém pergunta
              se será o Benedito.

Aqui 
            o discurso se trunca:
            o sim é não. O não, talvez.
            O talvez
                            - nunca.

Eis o sinal dos tempos:
           este o país produtor
           que tanto mais produz
           tanto mais é devedor.

           Um país exportador
           que quando mais exporta
           mais importante se torna
           como país 
                              - mau pagador.

E, no entanto, há quem julgue
que somos um bloco alegre
do ‘‘Comigo Ninguém Pode’’
quando somos um país de cornos mansos
cuja história vai dar bode.

Dar bode, já que nunca deu bolo,
tão prometido pros pobres
em meio a festas e alarde
onde quem partiu, repartiu
ficou com a maior parte
deixando pobre o Brasil.

Eis uma situação
totalmente pervertida
- uma nação que é rica
consegue ficar falida,
- o ouro brota em nosso peito,
mas mendigamos com a mão,
- uma nação encarcerada
que doa a chave ao carcereiro
para ficar na prisão.

Cada povo tem o governo que merece?
Ou cada povo
tem os ladrões a que enriquece?
Cada povo tem os ricos que o enobrecem?
Ou cada povo tem os pulhas
que o empobrecem?

O fato é que cada vez mais
mais se entristece esse povo 
num rosário de contas e promessas,
num sobe e desce 
                                - de prantos e preces.

C’est n’est pas um pays sérieux! 
já dizia o general.
O que somos afinal?
Um país pererê? folclórico? 
tropical? misturando morte 
e carnaval?

- Um povo de degradados?
- Filhos de degredados
largados no litoral?
- Um povo-macunaíma
sem caráter-nacional?

Ou somos um conto de fardas
um engano fabuloso
narrado a um menino bobo,
- história de chapeuzinho
já na barriga do lobo?

Por que só nos contos de fada
os pobres fracos vencem os ricos ogres?
Por que os ricos dos países pobres
são pobres perto dos ricos
dos países ricos? Por que
os pobres ricos dos países pobres
não se aliam aos pobres dos países pobres
para enfrentar os ricos dos países ricos,
cada vez mais ricos, mesmo
quando investem nos países pobres?

Espelho, espelho meu!
há um país mais perdido que o meu?
Espelho, espelho meu!
há um governo mais omisso que o meu?
Espelho, espelho meu!
há um povo mais passivo que o meu?

E o espelho respondeu
algo que se perdeu
entre o inferno que padeço
e o desencanto do céu.
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Fonte: Affonso Romano de Sant'Anna - Poesia Reunica - 1965-1999 (vol. 2). Porto Alegre: L&PM, 2004.