quarta-feira, 12 de outubro de 2016


Por que tanta tolerância com maus profissionais?
José Lourenço de Sousa Neto

É curioso, para não dizer penoso,  ver o quanto de esforço, tempo, dinheiro, criatividade, etc., as empresas gastam para transmitirem imagem de eficiência e, ao mesmo tempo, põem tudo a perder mantendo profissionais inadequados em seus quadros.
Custa muito conquistar um cliente. O esforço seguinte, para mantê-lo dentro de casa, é uma batalha diária. Conseguir sua fidelidade e fazer com que repita seus pedidos, são proezas que merecem comemoração. E nessa luta, empresários e gestores não poupam suas melhores energias e despendem um bom dinheiro. E, focados apenas num lado do processo, se dão por felizes e merecedores dos melhores resultados... que não vêm!
Desatentos com o outro lado dessa moeda, os gerentes esquecem que seus planos e idéias deverão ser implementados pelas pessoas que compõem o time. E quanto maior o desafio, quanto melhor o plano, quanto mais sofisticada e cara a estratégia, mais competentes têm que ser essas pessoas. Não há como executar uma jogada sensacional – no papel – sem bons atletas – em campo. Se os funcionários não acompanham a montagem do planejamento, não vão realizá-lo. Por acompanhar refiro-me não só à participação possível na elaboração, mas também no sentido de se comprometerem com ele, darem seu aval e nele se empenharem. E esse descasamento entre “jogada” e “jogadores” pode-se dar por despreparo dos jogadores – inadequação de perfil e treinamento, recrutamento mal feito, falha na comunicação da empresa ou desinteresse das próprias pessoas – “corpo mole”, para usarmos outra metáfora do futebol.
Explorando melhor essa situação, cabe perguntar por quê isso ocorre. Se empresários e gerentes não se poupam, nem ao dinheiro da empresa, no planejamento e organização, por que falham tão lastimavelmente convivendo com pessoas que não condizem com o esperado delas? Se erraram na contratação, por que não reparam via treinamento? Se o treinamento não funcionou, por que não tentam via coaching (já que está na moda), com orientação e acompanhamento individualizado? Se, ao final, nada dá certo, por que mantêm essas maçãs podres no cesto?
Uma possível resposta para a tolerância com maus profissionais, seja a própria incompetência de quem gerencia. Por não estarem preparados para a função, ou por não se sentirem seguros o suficiente, muitos gerentes optam por conviver com pessoas medíocres, que não lhes farão sombra. Ou que possam dominar mais facilmente.
Essa afirmação pode causar certa repulsa a algumas pessoas. Mas uma observação mais criteriosa permitirá identificar, com muita facilidade, esses gerentes despreparados. Na verdade, eles são muito mais numerosos do que se pensa.
Cercar-se de pessoas competentes demanda coragem e disposição para o trabalho. O técnico de um time de azes terá que se movimentar muito mais, para atender ao anseio das pessoas. Não precisa ser um atleta, como os membros da equipe, mas deverá atender às necessidades do grupo, para que ele possa produzir o máximo que seu potencial permite. Fala-se muito do “líder servidor”, e é aqui onde ele é demandado mais claramente – comandar um grupo de pessoas melhores do que ele, nas atividades individuais. Seu papel será o do facilitador, removendo obstáculos e promovendo, na medida do possível, ações que permitam a cada jogador encontrar sua própria motivação.
No ambiente empresarial, especialmente, sofrerá pressão constante por parte daqueles que querem ascensão profissional – ele pode estar sendo um obstáculo no caminho destes. Acaba sendo mais fácil, para quem não tem a coragem e determinação suficiente, montar a equipe com pessoas mais fracas do que ele próprio, mas que não lhe darão dor de cabeça.
Isso, entretanto, não perdura. Mas é assunto para outro momento.
Existem, evidentemente, as pessoas que não se adequam às demandas do trabalho e que devem ser afastadas. Mas todo gerente, antes de criticar sua equipe, deveria pensar que estará falando, antes de mais nada, de si mesmo. Ao afirmar que seu time é “um bando de incompetentes”, está assumindo que ele próprio é “um gerente incompetente”; se disser que tem “uma equipe de primeira”, é porque ele, talvez, seja “um chefe de primeira” – pelo menos terá o mérito de ter montado ou estar mantendo o grupo coeso.
Existem, evidentemente, exceções. Muitos gerentes, especialmente de órgãos públicos, reclamam da impossibilidade de trocar, como gostariam, seu pessoal, eliminando os fracos e atraindo os melhores. Sem desconsiderar essa realidade, cabe questionar por que ele convive com essa situação. A própria acomodação do chefe, muitas vezes por causa da estabilidade que o emprego oferece, contribui para a manutenção do problema. Não se pode abdicar da própria responsabilidade – a omissão pode ser tão danosa quanto a ação que se condena...
É triste ver o quanto de esforços e recursos são jogados no lixo, pela postura inadequada de um funcionário – e do seu chefe omisso. Um vendedor mal humorado prejudica o visual maravilhoso da loja e torna mentiroso todo comercial que prega o respeito do estabelecimento pelo cliente. Um operador de telemarketing, ou call-center, desatento, desinteressado e grosseiro, joga no lixo todo o investimento em tecnologia e instalações. O funcionário que não se conscientiza de que motivação é algo inerente à pessoa, que vem de dentro, e não algo que a empresa provê, como se fosse responsabilidade dela, como é fornecer móveis e equipamentos adequados, vai se tornar num foco pernicioso de reclamações e reivindicações inconvenientes, inadequadas e inoportunas. E, como a maçã podre a que nos referimos, acabará por contaminar os outros colegas, seja pelo mau exemplo que dá, seja pela leniência da empresa para lidar com tais situações. E quem responde por ele é, na verdade, fiador, avalista de sua conduta!
É importante considerar que essas pessoas estão ocupando o lugar de outras, mais competentes, que andam à busca de oportunidade de trabalho.

Todo gerente e empresário tem que estar atento a isto. Não vale a pena conviver com maus funcionários. É perda certa para a empresa e injustiça para com aqueles outros, mais sérios, capazes e desejosos por contribuírem, em troca de um salário justo.
-o-

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