domingo, 15 de outubro de 2017

Acervo pessoal - não sou livreiro.
Aceito contraoferta.
Interessados - e-mail para lourenco@jlourenconeto.com.br.
Entrega na região da Savassi, BH.


quinta-feira, 25 de maio de 2017


A vida ensina...

José Lourenço de Sousa Neto

Dias atrás assisti uma palestra sobre física quântica. Saí com a cabeça a mil, os neurônios em polvorosa (talvez fosse o que o professor quis dizer com o tal “emaranhado quântico”). Aliás, acho que essa é sempre a consequência quando a gente se mete a ler ou ouvir preleções sobre essas esquisitices, em que cérebros de ponta se deleitam, mas, talvez, nem deveria interessar a nós, mortais comuns.

Um dos conceitos que o expositor tentou explicar foi o de “salto quântico”. (Vale fazer parênteses: digo que o mestre, uma pessoa muito querida, tentou explicar, porque ele de fato tentou – fez tudo o que podia, tanto como entendido no assunto, quanto como professor experimentado – ele é físico e professor na PUC/MG. Se não logrou pleno resultado, não foi por culpa dele. Como todo processo de comunicação tem duas pontas – a do emissor e a do receptor –, ele só podia responder totalmente pela sua ponta, a de emissor. Esforçou-se, heroicamente, para adaptar linguagem e exemplos ao nível da nossa ponta, mas, coitado!, como Sísifo, não era possível colocar a rocha no alto da montanha, pelo menos na maioria da assistência. O morro da nossa ignorância era por demais íngreme.)

Voltando ao salto quântico...

Esse fenômeno ocorre (pelo que entendi) quando o elétron, que gira em camadas, ou em órbitas, ao redor do núcleo, passa de um nível para outro. Esse “passar” é que é o diabo! Ele não transita de uma órbita para a outra, como imagina nossa vã concepção... Ele simplesmente desaparece de uma órbita e aparece noutra. Como um fantasma. Está aqui e, de repente, você pisca e ele não está mais. Está lá. Coisa de doido. Ou de elétron, já nem sei mais...

Terminada a palestra, saí, como já disse acima, com a cabeça fervilhando. Acho que meus poucos neurônios incorporaram espírito de elétron e tentavam, como um bando enlouquecido, dar saltos quânticos no meu cérebro. Já sabia que eu ia levar dias ruminando aquelas informações, como sempre ocorre quando me meto em assuntos mais escabrosos. De fato, o sono daquela noite foi loucura total – entre prótons, nêutrons, elétrons, quarks, quantum e quanta, efeito partícula e efeito onda, sobreposição e emaranhado quântico, gato de Schröedinger (por que gato?! por que não um gambá? ou uma barata?), meu crânio parecia um acelerador de partículas. Credo! Te esconjuro, prof. Marcelo Cunha!

Mas a vida ensina...

Quando saia do salão da palestra, lembrei-me de uma sobrinha que tinha um comportamento que, na época, há uns 25 anos, não entendíamos. Agora entendo como “comportamento quântico”. Explico.

A Letícia nunca ia ou vinha – ela sempre estava ou não-estava. A família conversando na sala – Letícia ausente. De repente, você olha de novo, Letícia presente. A gente piscava para discernir melhor e... cadê a Letícia? Mas ela estava aqui... e não era efeito mediúnico, mas se era, era efeito físico – todo mundo tinha visto a Letícia. Perguntados, ninguém a vira sair. Como não a viram entrar.

Simples assim. Ela aparecia e desaparecia. Tenho para mim que ela passava do nível superior da casa para o térreo, do quarto para a cozinha, da sala pra rua, e vice-versa quantas vezes quisesse, sem se dar ao trabalho de transitar pelo meio. Coisa, aliás, que devia interessar apenas a nós, pessoas de carne e osso. Não a ela, entidade mística, quintessenciada, sei lá... Efeito Jedi? Mestre Yoda ou Schifu? Vou perguntar pro meu neto de 4 anos. Esses serezinhos entendem disso... só não conseguem nos explicar. Falta a nós, adultos, o sentido para tanto.

Teve uma época que cheguei a desconfiar que a Letícia tinha pés de gato. De cachorros você ainda pode escutar o barulhinho das unhas no soalho. Mas de gato, não! E a Letícia se movia com pés de gato (ou levitava, flutuava, flanava, vai saber!). Mas examinei e não comprovei essa hipótese.

E, pra piorar, ela nunca se explicava. Perguntada, interrogada, atazanada, azucrinada, ela se limitava a olhar pra gente com aqueles olhões de jabuticaba – enormes e negros, típicos de uma moleca de 6 ou 7 anos –, e a sorrir – ah! aquele sorriso! a la Mona Lisa! Um sorriso que mais intrigava e nunca explicava. Aquela curvatura discretíssima dos lábios que parecia condescender com nossa estultice: — “Por que você pergunta tanto? Não dá para apenas sentir que eu estou ou não-estou? Não saca que não existe o eu-indo ou o eu-vindo? Por que tudo tem que ser tão cartesiano pra você, tio? Não esquenta...”

E eu fervia!

Enfim, desisti da ideia de compreender o comportamento da Letícia. Limitava-me a perguntar, quando era o caso, se ela estava ou não, sem cair mais na armadilha de querer saber se ela iria ou viria.

Hoje, tenho dúvida se, na minha memória cada vez mais falha, passo a chamá-la de “Letícia Elétron” ou “Letícia Quântica”. A segunda opção parece-me mais simpática.

Mas, se você não aprende de um jeito, a vida insiste...

Saindo da palestra, agora misturando partículas da matéria com sobrinha-quântica, dei bobeira na escada e sofri um colapso, não do efeito onda, mas das pernas. De repente, nos últimos degraus (ainda bem, porque se fosse no início não estaria aqui, escrevendo isso), desapareço de onde estava e apareço no piso. Plantado, de joelhos. Não houve intervalo de transição, juro. Não passei do degrau onde estava, transitando pelos intermediários e arriando no chão. Simplesmente eu estava num nível e apareci noutro. Salto quântico puro. A moça que me socorreu, pressurosa, perguntava se eu havia me machucado (desconfio que ela segurava um risinho nada Mona Lisa). Respondi que não, que não era nada, que era apenas um experimento físico, apenas para checar uma ideia que um professor maluco, lá no salão, havia tentado fazer a gente entender. Com aquele salto, os joelhos doendo e um pouco de sangue minando na pele, vieram esclarecer o que o mestre tentou, mas minha cabeça dura não registrara.

saquei a Letícia! Não era para entender, era para sentir! E meus joelhos latejando e minha vergonha não deixaram dúvida: senti o maldito salto quântico!

Ainda bem que não cai estatelado no chão. Cai de joelhos. E isso me permitiu manter a pose e alguma dignidade.

Espero que da próxima vez em que me meter a entender essas coisas-de-louco, não doa tanto.


BHte., 25/maio/2017.