segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Contando, ninguém acredita...

José Lourenço de Sousa Neto
BH., 02/jun/2018


Hoje me aconteceu uma daquelas situações esdrúxulas, que, quando você conta, todo mundo duvida. Meus amigos dizem que essas coisas só acontecem comigo, mas acho que não. Talvez eu apenas preste um pouco mais atenção.
Entrei numa drogaria atrás de sabonete. Gosto muito de uma determinada marca que aqui, na terrinha, tem sido difícil de encontrar. Mas, para minha alegria, logo vi que havia alguns na gôndola. Apressado, peguei todos. Minha alegria durou pouco – eram apenas 3 unidades. Procurei a etiqueta com o preço, mas só tinha uma fixada na prateleira: “Pague 3, leve 4 = R$ 15,00”. Chamei a vendedora e falei com ela que gostaria de levar 4, para aproveitar a oferta, ou até mais, se tivesse, já que era um produto difícil de encontrar. Ela revirou o local, mas nada da quarta peça. Conformado, eu disse que tudo bem, eu levaria aqueles mesmo e pedi que fizesse a conta. Começa a situação surreal...
Ela disse que cada um custaria R$ 15,00. Eu respondi: “Você ficou louca?! Se eu pagar R$ 15,00 por um sabonete nunca vou ter coragem de usá-lo. Vou pendurar na parede do meu banheiro e ficar olhando pra ele, como se estivesse no Louvre, em frente à Monalisa. R$ 15,00 é o preço de quatro unidades; é só fazer as contas e me dar o valor ajustado para os três.
Ela responde que não saberia como fazer.
Pacientemente, expliquei: “Simples, minha filha (quando alguém chama um estranho de minha filha ou meu filho, nunca é pacientemente, mas, vá lá...) Se R$ 15,00 é o preço de quatro, tudo o que você tem que fazer é dividir R$ 15,00 por quatro, e terá o preço unitário. Aí multiplica por três.” (Quase propus chamar o Antônio, meu neto, pra ajudar...).
Ela respondeu: “Não é isso. É que eu não sei se posso fazer isso...”
“Como não?, perguntei. O produto não está aí e não é pra ser vendido? E você não é uma vendedora?”
“Eu acho que não tenho autoridade pra fazer isso.”
“Santo Pai!” – pensei comigo, mas não falei...
Respondi: “Uai! Então chama alguém que tenha essa fantástica autoridade...”
E lá veio a supervisora.
Pensa daqui, pensa dali, consulta o sistema, quase põe a gôndola abaixo atrás do quarto sabonete fujão... E sentencia: “Sinto muito, senhor, mas o senhor não poderá levar os sabonetes.”
Devo ter ficado alguns segundos processando isso...
“Por que não, minha filha (pacientemente, de novo)? O produto está aí, é para venda, você sabe a continha que tem que fazer – se não souber, seu computador saberá, pergunte pra ele... Então por que não posso comprar os sabonetes?”
Nessa altura já estava achando que isso devia ser uma forma dos amigos espirituais não me deixarem usar aquele sabonete. Provavelmente a quantidade de soda cáustica nele foi superdosada e iria me causar uma forte irritação na pele... Mas resolvi insistir mais um pouco.
“Eu quero levar o produto. O que você, como supervisora, vai fazer?”
“O senhor só pode comprar se for os quatro.”
“Ora bolas, então me dê os quatro. Pode me dar oito, doze, dezesseis... compro todos ele!” 
Nessa altura o “minha filha” já tinha outro sentido... Eu já estava me sentindo como Joseph K, de Kafka – coberto de razão, mas não ia conseguir comprar a droga do sabonete!
“Não dá. Só temos os três. Não posso vendê-los.” – isso soou como sentença irrecorrível.
Ainda me atrevi: “E o que você vai fazer com esses três? Se você voltar a colocá-los na gôndola, vou pegar novamente e, dessa vez, você terá que me vendê-los, ou vou armar o maior barraco.”
“Não, eles não voltarão para a gôndola. Serão recolhidos para o depósito.”
Nessa hora, confesso, senti pena dos sabonetinhos. Aquele “recolhidos para o depósito” soou mais ou menos assim: “os elementos, perturbadores da ordem e da tranquilidade social, serão recolhidos para o xilindró, onde serão interrogados por autoridade competente para informarem onde foi parar o meliante fugitivo, que devia estar na prateleira”. Imaginei os coitadinhos sendo torturados, se desfazendo em espuma, mas a autoridade competente não se curvaria diante dessa demonstração de fraqueza. Provavelmente os três coitados seriam colocados, não num pau-de-arara, porque não tinham como ser amarrados num, mas atirados numa vasilha com água, onde se desfariam até à morte, se não entregassem o bandidinho fujão.
Acham que a história termina aí? Nada. Desgraça pouca é bobagem...
Sabonetes devidamente enquadrados, eu preparando para sair sem o desejado produto, eis que a supervisora (agora, se bem me lembro, ela tinha uma pinta danada de Sargento Tainha, o “amigo” do Recruta Zero – se não conhecem, deem uma olhada no Google) levanta os olhos e localiza a “moça do espanador”. E chama: “Madalena (se não é esse o nome, fica sendo – toda vítima inocente tem o nome de Madalena), você não tem a obrigação de checar os produtos nas prateleiras, enquanto espana?”
“Sim, eu faço isso. Qual o problema?”, indagou a inocente, ou incompetente, sei lá!, Madalena.
“Você não percebeu que só tinha três unidades desse sabonete, que está faltando a quarta?”
“?!”
“Pois é. Acabamos tendo um problema com um cliente. Vc precisa ficar um pouco mais atenta.”
Nessa hora, desisti. Achei que a Madalena, se fosse um pouco mais provocada, ia dar com aquele espanador na cabeça da Sargenta Tainha. E fui embora.
Ao sair pela porta da loja, pelo canto dos olhos, tenho a impressão que vi a moça do espanador dando uma olhada feia para sua ferramenta de trabalho. Afinal, era ele que tinha contato direto com as mercadorias. E por que não avisou sobre o sabonete fujão? Fiquei com a clara impressão que o coitado do espanador também foi recolhido ao xadrez, isto é, ao fundo de depósito, e confinado com os pobres sabonetinhos.
Acho que amanhã vou voltar lá. Se aqueles sabonetes tiverem voltado pra gôndola...

Quanto mais velho, mais me convenço que vivemos num mundo kafkiano. Cada vez entendo menos.
-o-

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